Os cumes
Nas regiões superiores já não há dominação a vencer, e o que resta é fazer desaparecer a partilha: aquela parte do interesse humano que subsiste ao lado do interesse divino, e que impede a unidade do meu ser no ser de Deus. A partilha morre em dois graus, o enfraquecimento e a morte do humano, que são o quarto e o quinto graus da piedade e formam a via unitiva. Nessas regiões a alma penetra nos segredos da intimidade divina, e é por causa dessas ações misteriosas de Deus que tais estados se chamam vida mística.
O que ainda resta a eliminar
As regiões superiores são aquelas em que se trata de fazer desaparecer a partilha, a justaposição de uma parte do interesse humano ao lado e à parte do interesse divino. Essa separação deve ser totalmente eliminada, para que não haja em minha vida nenhum objetivo fora de Deus, e para consumar a unidade do meu ser em seu ser, e da minha vida em sua vida.
A justaposição de uma parte do interesse humano ao lado e à parte do interesse divino. Não fere a glória de Deus, apenas a obscurece; mas enquanto subsiste, alguma coisa da minha vida ainda não se dirige apenas a Ele, e a unidade não está consumada.
Os dois graus da subida
A partilha desaparece em dois graus sucessivos. O meu interesse, separado e extraviado, começa por definhar no esquecimento, morrendo em seguida no aniquilamento. Enfraquecimento e morte do humano: são esses os dois graus superiores da piedade, e essas ascensões fazem parte daquilo que chamamos a vida unitiva.
Essas duas ascensões são o que a tradição chama de via unitiva, e correspondem, no esquema dos cinco graus, ao que se resume em duas palavras: Deus somente.
Por que se chamam estados místicos
Nessas regiões, certos estados da alma são chamados vida mística, porque a alma penetra nos segredos da intimidade divina. Deus a esconde, longe da agitação humana, no segredo da sua face. E, no mistério dessa intimidade, Deus realiza obras tão misteriosas que esse segredo é segredo em si mesmo. É por causa dessas ações misteriosas, ou místicas, de Deus, que tais estados recebem o nome de vida mística.
O nome não vem de fenômenos extraordinários, mas do segredo. Deus esconde a alma longe da agitação humana, no segredo da sua face, e ali realiza obras que permanecem misteriosas em si mesmas. É dessa ocultação que a palavra mística recebe o seu sentido.
O plano do livro
Dez capítulos. Cinco tratam da perfeição, sob o quarto grau; dois, da consumação e do purgatório, sob o quinto; e os três últimos resumem toda a Primeira Parte, fechando com uma palavra dirigida aos padres.
Nota do editor. Os capítulos 4 e 5 deste livro, «O estado de perfeição» e «A perfeição e o sacrifício», estão na tradução inglesa como capítulos VI e VII do Livro III. A edição brasileira, seguida aqui, traz os dois para cá, o que é mais coerente com o esquema dos cinco graus do capítulo II-9: a perfeição é o quarto grau, e portanto matéria dos cumes.
Concordância entre as duas edições
A divisão seguida aqui é a da edição brasileira. Quem for à tradução inglesa encontrará os capítulos 4 e 5 no fim do Livro III, e os demais na ordem do Livro IV.
Vencida a dominação, resta a partilha: nenhum objetivo fora de Deus, e a unidade do meu ser no seu. Ela morre em dois graus, o esquecimento e o aniquilamento do humano, que são o quarto e o quinto graus da piedade. Ali a alma entra no segredo da face de Deus, e é dessa ocultação que vem o nome de vida mística.