O estado geral
O mesmo mal que domina a minha alma domina a sociedade: tudo se organiza para o homem, e o interesse humano inspira, dirige e resume tudo. A Escritura mostra o contrário, uma história em que Deus é o centro, e em que a súplica e a alegria têm por motivo primeiro a sua glória. Nas idades de fé isso se via até na linguagem comum e nos costumes. Hoje, se ainda se recorre a Deus, é mais por precisar dele do que pela sua glória, e essa atmosfera penetra também o santuário e o claustro, em pequenas doses, mas constantemente.
O estado da sociedade
Este mal é também o grande mal da sociedade. Nas condições sociais tudo se organiza para o homem: o interesse humano domina tudo, inspira tudo, dirige tudo e resume tudo. Que lugar se dá à glória de Deus nas famílias, nas associações, nos corpos constituídos? Onde está a ideia de Deus na indústria, no comércio, na ciência, na política, na história?
Nas relações humanas é o interesse humano que absorve universalmente os pensamentos, os sentimentos e os esforços. Tudo converge para ele, e o pensamento de Deus e da sua glória enfraquece, enfraquece e desaparece: o homem expulsa a Deus.
O homem posto no lugar de Deus. É a mesma dominação do humano sobre o divino que se estudou na alma, agora estabelecida como princípio de organização da vida comum.
O exemplo talvez mais impressionante é o da história. Ela deveria ser o quadro da glória de Deus no meio das vicissitudes humanas, da ação divina no meio das agitações dos negócios dos homens. Hoje não passa do quadro mal colorido das convulsões da humanidade. Assim tudo desmente a sua origem e o seu fim.
As ideias da Bíblia
Contraste-se tudo isso com a Bíblia. Na vida dos patriarcas sente-se que Deus, o seu Deus, é tudo para eles: domina, inspira e conduz na prática as suas vidas. O mesmo se dá em toda a história do povo escolhido, em que Deus é o centro de tudo. Se as paixões humanas fazem esquecer a sua memória, os castigos a trazem de volta; e, sob a vara, o clamor que se levanta pedindo vitória sobre os inimigos põe sempre em primeiro lugar a honra de Deus.
E quando a vitória é alcançada, alegram-se sobretudo porque Deus é glorificado. Quando Moisés, Judite e Ester querem obter a salvação do seu povo, fazem-no invocando a glória de Deus, e é esse o motivo que move Deus a salvar. E nos Salmos, que lugar tem a glória de Deus: é o fim supremo e constante desses cânticos.
As idades de fé
Nas idades e nos países de fé, quanto mais real e vivo era o lugar dado a Deus nos costumes dos povos fiéis. Nada o exprimia tão vivamente quanto a linguagem popular, pois é nos giros da conversa de todos os dias que melhor se reflete um estado de espírito. O nome de Deus voltava continuamente, com propriedade e realidade admiráveis: dizia-se com simplicidade e sinceridade graças a Deus, Deus seja louvado, se Deus quiser, com a ajuda de Deus.
Deus vivia nos pensamentos e na conduta, nos costumes e nas instituições. A miséria humana aparecia, como sempre aparece; mas Deus também se manifestava acima da miséria humana. Sentia-se que ele era o Rei das almas e dos corpos, dos indivíduos e dos povos, do tempo e da eternidade, e a sua soberania permanecia acima de tudo.
As ideias de hoje
No nosso tempo utilitário, se ainda recorremos a Deus, é antes porque precisamos dele do que pela sua glória. Sabemos ainda o que é o amor de concupiscência; mas o amor de benevolência, pedir antes de tudo que Deus seja glorificado e alegrar-se antes de tudo porque ele é glorificado, é coisa de poucos, e cada dia de menos.
E a grande heresia que rompe a união de Deus com o homem, a coordenação de um com o outro, é bebida por todos, entra em toda parte, escurece a mente, desvia os sentimentos e perverte a ação. Mesmo no santuário e no claustro este ar carregado encontrou caminho, e lentamente, em pequenas doses, mas de modo constante e seguro, o seu veneno se infiltra.
O tom deste capítulo é o de um monge cartuxo que escreve na França do fim do século XIX, e a leitura das idades de fé é a de um homem do seu tempo, com o contraste carregado que a época dava a esse tema. O que nele é doutrina, e sustenta a obra inteira, é o princípio, não o quadro histórico: o mesmo desequilíbrio que se examinou na alma se organiza também na vida comum, e nenhum estado de vida está preservado dele por si mesmo.
Como é duro caminhar nesta névoa espessa como trevas e respirar este ar pesado como a morte.
E como é difícil expulsar o vírus do organismo espiritual e tornar sãos a mente, o coração e a ação. Se queremos viver, porém, é preciso fazê-lo a qualquer custo; de outro modo o vírus, penetrando cada dia mais fundo, matará em nós toda vitalidade cristã.
Adjuva nos, Deus salutaris noster, et propter gloriam nominis tui, Domine, libera nos.
Ajudai-nos, ó Deus, nosso salvador, e pela glória do vosso nome, Senhor, livrai-nos.
O exame sai de mim e olha o mundo, e encontra o mesmo mal em escala social: tudo organizado para o homem, com Deus consultado por necessidade. A Escritura e os costumes das idades de fé servem de contraprova, mostrando uma vida em que a glória divina era o motivo primeiro até na fala comum. O aviso final é o que mais importa: nenhum estado de vida, nem o claustro, está por si mesmo preservado desse ar.