A consumação
No grau anterior a satisfação humana definhava no esquecimento; aqui ela morre na imolação, e este é o remate da santidade, o alto da escada posta entre a terra e o céu. Já não há balança entre menor e maior glória de Deus: o que resta são os últimos vestígios de aderência, e a alma quer completar o holocausto. O que a caracteriza é a fome de sofrimento e a paixão pela cruz, como na escolha de Santa Catarina de Sena entre as duas coroas. E o capítulo termina numa afirmação que desarma o mal-entendido: o santo que chegou aqui é o único homem inteiramente racional, porque é o único que tira todas as consequências do princípio de que Deus é o seu único fim.
As duas coroas
Um exemplo mostra o que é este estado, e é um fato conhecido da vida de Santa Catarina de Sena, relatado pelo seu confessor. O Salvador apareceu-lhe tendo na mão direita uma coroa de ouro cravejada de pedras preciosas e, na esquerda, uma coroa de espinhos, e disse-lhe que teria de usar uma e outra, em tempos diversos: podia escolher usar nesta vida a de espinhos, ficando a outra guardada para a vida sem fim, ou gozar agora da coroa preciosa, reservando-se a de espinhos para depois da morte.
A resposta é a do estado inteiro. Há muito tempo, disse ela, renunciei à minha vontade para seguir apenas a vossa, e por isso não me cabe escolher; mas, já que quereis que eu responda, escolho estar neste mundo incessantemente conformada à vossa bendita Paixão, e buscar por vós a minha alegria no sofrimento. E, dizendo isso, num ímpeto de fervor toma a coroa de espinhos da mão do Salvador e crava-a na cabeça com as duas mãos, com tal força que os espinhos a atravessam de todos os lados.
Escolheu assim o sofrimento por uma necessidade suprema de purificação absoluta já neste mundo, e de conformidade com o Senhor, para que tudo estivesse despojado e consumado antes da morte.
A imolação
Aqui a alma já não tem de pesar entre a menor e a maior glória de Deus: fez esse trabalho no estado anterior. Vê com facilidade onde está a maior glória, ama-a com firmeza, escolhe-a com prontidão, e não recua diante de sacrifício algum em que haja mais honra a procurar para o seu Deus.
Que resta a fazer, então? Que grau se pode achar acima? Resta a satisfação humana que ela esqueceu e diante da qual se tornou indiferente. Já a sacrificou tantas vezes, sempre que viu com mais clareza o beneplácito divino, e no entanto ainda resta muito dela: são os últimos traços das aderências que embaraçam e retardam o voo para o alto.
A alma quer completar o holocausto: desprender, queimar e consumir tudo, por uma necessidade suprema de imolação, de despojamento, de desprendimento das coisas criadas e de união com Deus.
O que caracteriza este estado é a necessidade de imolação, a fome de sofrimento, a paixão pela cruz. Sofrer ou morrer, é o grito de Santa Teresa; não morrer, mas sofrer, é o grito ainda mais espantoso de Santa Maria Madalena de Pazzi. A alma já não quer nem pode consentir que reste nela qualquer coisa criada, nem apego algum às criaturas ou a si mesma. Só Deus.
Vivo autem, jam non ego: vivit vero in me Christus.
Vivo, mas já não sou eu: é Cristo que vive em mim.
A conclusão suprema
Este estado, última palavra de toda a santidade terrena, é também uma conclusão lógica tirada do primeiro princípio da criação: Deus é o meu único fim essencial, o meu único tudo. A alma raciocina assim: se a glória de Deus é o meu único bem essencial, se nela está toda a minha felicidade, então quanto mais ele for o único objeto do meu cuidado, o único alvo do meu amor e o único propósito dos meus esforços, mais alcançarei o meu fim.
E portanto quanto mais eu desapareço nele, quanto mais a satisfação que tenho fora dele é absorvida na sua glória, mais só Deus permanece. Daí a decisão: aniquilar em mim tudo o que procede de mim e tudo o que procede das criaturas, e não descansar enquanto não sentir que Deus reina como único senhor sobre as ruínas dos meus apegos.
Beati mortui qui in Domino moriuntur.
Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor.
Então o santo, armando-se de indignação contra si mesmo, chama em seu auxílio as renúncias e as macerações; e Deus, sobretudo, colabora nessa destruição da criatura por devastações interiores. A felicidade suprema do santo é poder enfim erguer um hino à só glória de Deus sobre os escombros de todas as satisfações terrenas. Diliges ex toto: com todo o coração, com toda a mente, com toda a alma, com todas as forças. Com tudo.
Bem-aventurados os mortos
Compreende-se então a alegria dos santos nos seus imensos sofrimentos. Quanto mais o sofrimento trabalha neles, mais irrompe a alegria, porque veem cair um a um, sob os golpes da dor, os últimos restos do que é criado. Veem Deus invadir enfim todo o seu ser, veem a morte absorvida na vitória, e a cada fragmento que cai do muro de separação triunfam com alegria nova.
A sua dor é a sua maior alegria. Bem-aventurados os pobres, os que choram, os limpos de coração, os que sofrem perseguição, os injuriados e caluniados: o Salvador o disse, e eles o experimentam. Todas as bem-aventuranças estão neles.
Quem nunca provou algo disso não sabe nada da alegria, nem do verdadeiro sentido da felicidade.
O homem racional
Aqui vem a afirmação que desfaz o mal-entendido de quem lê estas páginas de fora. O santo que chegou a esta conclusão suprema é o único homem realmente e inteiramente racional. É o único que tira todas as conclusões verdadeiras do grande princípio que deveria guiar toda vida humana, o único que alcança de modo absoluto o fim para que foi criado, e o único que conhece a largura infinita do mandamento de ver, amar e buscar a Deus em todas as coisas.
E, se teve de passar por inúmeras experiências de despojamento e destruição, sente que nada do seu ser real pereceu nessas agonias, que nada do que devia viver se perdeu. Ao contrário: a sua vida verdadeira ficou livre na sua pureza. É banho em que o corpo deixou as suas manchas; é cadinho em que o ouro largou a escória.
O santo, conduzido por Deus, bate onde deve bater, destrói onde convém destruir e edifica com sabedoria.
Vale reter este critério, porque é ele que separa a ascese cristã das suas falsificações. A medida não é a quantidade de dor suportada, e sim o discernimento sobre onde a dor recai. Onde há destruição do que devia ser preservado, não há santidade, há engano, ainda que o sofrimento seja real e grande.
Fecha o capítulo um desejo de São Francisco de Sales a Santa Joana de Chantal: quanto desejo que um dia sejamos de todo reduzidos a nada em nós mesmos, para viver inteiramente para Deus, e que a nossa vida esteja escondida com Jesus Cristo em Deus. Quando viveremos nós, e já não nós, e quando viverá Jesus Cristo inteiramente em nós?
A consumação não acrescenta um novo objeto ao amor: consome o que ainda restava fora dele. Por isso o sinal deste grau é a fome de sofrimento, que de fora parece desvario e de dentro é lógica levada até o fim, já que Deus é o único fim. E o capítulo dá o critério que impede a imitação errada: o santo bate onde deve bater, e nada do que devia viver se perde; onde se destrói o que devia ser preservado, o que há é engano, não santidade.