A piedade religiosa
O religioso encontra na Regra a expressão mais fiel e completa do seu dever. Caridade e humildade resumem tudo para ele, e são como os dois movimentos de uma só respiração: sai de si para ir a Deus, e vai a Deus deixando de olhar-se. Ora, essas duas coisas estão desenhadas nas duas partes da Regra, a dos ofícios divinos e a dos estatutos disciplinares. Por isso ele não transborda para além dela: não deseja nem empreende nada fora do que ali está, porque sabe que a sua perfeição está ali e em nenhum outro lugar. A casca é dura, é verdade, e não fala à imaginação nem ao sentimento; mas o livro é para ser comido, amargo no ventre e doce como mel na boca.
A forma está na Regra
O religioso verdadeiro e santo sabe que, para ele, a expressão mais fiel e completa do seu dever está na Regra. Também ele deseja ir verdadeiramente a Deus e despojar-se de si, pois não foi para isso que se fez religioso?
Talvez sejam uma só virtude, ou antes dois polos do mundo que se chama piedade, porque só se pode amar despojando-se, e só se despoja quem ama. É preciso sair de si para ir a Deus: são como os dois movimentos da respiração espiritual, que não se separam e que, embora distintos, constituem um só ato de respirar.
Ele deixa de olhar-se, amar-se e buscar-se, para olhar, amar e buscar a Deus. Aí está a sua piedade, e é assim que vai a Deus.
Está aí a forma da sua piedade, tal como Deus a espera dele. Qualquer outra forma não é a sua, e não é a que Deus lhe pede. Deus quis que a sua humildade e a sua caridade se revestissem dessa forma, e teve o cuidado de traçar-lhe os contornos na Regra. Por isso é triste ver um religioso extraviar-se a ponto de procurar, em práticas particulares ou em usos estranhos à sua regra, uma perfeição que não passa de composto híbrido e mal casado.
Não transbordar da Regra
Há uma certa simplicidade de coração em que consiste a perfeição de todas as perfeições, e é ela que faz a nossa alma olhar só para Deus e manter-se recolhida em si, para aplicar-se com toda a fidelidade de que é capaz à observância das suas regras, sem transbordar em desejar ou querer empreender coisa alguma além disso.
A palavra é de São Francisco de Sales, e o capítulo a toma ao pé da letra: o verdadeiro religioso não transborda para desejar nem empreender nada além da sua Regra, porque só ela basta à sua piedade e contém para ele toda a vontade de Deus.
E não a cumpre com resignação, e sim com amor: estuda-a, medita-a, rumina-a, e por fim transfigura-a em si, ou antes, transfigura-se nela. Sabe que só encontrará Deus seguindo as ordenações litúrgicas da sua Regra, e que só se despojará pelas prescrições dos estatutos disciplinares. Por outro caminho não encontraria Deus nem se despojaria de si, e ele sabe disso.
A casca é dura
A Regra, na sua expressão, costuma guardar uma severidade de porte e uma frieza de aparência que não falam diretamente nem à imaginação nem ao sentimento. Nem por isso deixa de ser a expressão perfeita da vontade de Deus, nem de conter a forma essencial da piedade do religioso.
Quem sabe romper essa casca e descobrir o fruto substancial que há embaixo sabe que alimento rico e saudável ali se encontra. Só quem se extraviou no sentimentalismo ignora os tesouros de piedade contidos na Regra.
A resposta à objeção corrente é seca e vale a pena guardá-la. Dizem que na Regra não há nada para o coração; e o capítulo devolve a pergunta: que espécie de coração é esse, que só se alimenta de suspiros? Se fosse por esse critério, a piedade não acharia quase nada na Sagrada Escritura, nada nas leis da Igreja e nada nos escritos de vários dos grandes Doutores.
O livro que se come
Accipe librum, et devora illum: et faciet amaricari ventrem tuum, sed in ore tuo erit dulce tamquam mel.
Toma o livro e devora-o; ele fará amargar o teu ventre, mas na tua boca será doce como o mel.
É o que o anjo da Regra diz a cada religioso. O religioso verdadeiro entende essa palavra, escuta-a e a põe em prática: não acha estranho ter de comer um livro, e come-o. Essa mastigação não é fácil nem agradável, é seca e dura; mas foi-lhe dito tomar e comer, e ele toma e come.
E não teme o amargor no ventre, isto é, o trabalho de despojar-se de si, que é sempre a primeira coisa que a Regra faz; e experimenta a doçura do mel na boca, isto é, encontra Deus, que é o verdadeiro mel e a verdadeira doçura da alma.
O religioso sentimental, ao contrário, espanta-se de ter de comer um livro, que a seu ver não é coisa que se coma; teme demais o amargor, que é o primeiro fruto dessa mastigação; e pergunta por que Deus não põe logo o mel na boca. A resposta é que a ordem não se inverte: quem quiser a doçura verdadeira, que é a caridade que saboreia Deus, precisa comer o livro da sua Regra, e primeiro sentirá o amargor embaixo, que abala a parte inferior para operar o despojamento, e por fim encontrará em cima aquele que será o mel e a doçura da sua alma.
O capítulo é o par do anterior e repete a mesma lei noutro estado: a piedade tem a forma do lugar em que se vive. Para o religioso essa forma é a Regra, e as suas duas partes correspondem exatamente às duas coisas que o levam a Deus, amar e despojar-se. Daí a recusa do transbordo, que parece rigidez e é o contrário: quem procura fora dali procura a si mesmo. E a imagem final resolve a queixa de que a Regra é seca, invertendo a expectativa do sentimento: come-se o livro, amarga primeiro, adoça depois.