O apego às criaturas
Depois da ordem, a desordem. A minha vida na terra é uma viagem para longe de Deus: devo passar pelas criaturas para ir a Ele, passar através e além delas. O mal é um só: em vez de passar adiante, demoro-me, desvio-me e paro. E de onde vem? Sempre do prazer tomado como fim. O prazer, que deveria facilitar a passagem, cola-se à alma como viscosidade e prende-me às criaturas, a mim que fui feito para aderir só a Deus.
A viagem para longe de Deus
Acabo de considerar a organização da minha vida segundo o plano de Deus; devo agora considerar a sua desorganização pela desordem humana. Somos feitos para a vida, diz São Paulo, e quem nos faz para isso é Deus, que nos deu o seu Espírito como penhor da imortalidade. Por isso temos ânimo, sabendo que enquanto habitamos neste corpo vivemos ausentes do Senhor, pois caminhamos pela fé, e não pela visão.
Essa viagem para longe de Deus é a minha passagem pelas criaturas neste mundo. Devo passar por elas para ir a Ele; mas devo passar através e além delas, para encontrá-lo só, acima delas, para aderir só a Ele no meio de tudo o que não é Ele. Se sei prosseguir no uso das criaturas, a minha peregrinação terrestre cumpre-se segundo a ordem divina.
A parada
Aqui, porém, está o mal. Em vez de passar adiante, demoro-me, desvio-me e paro:
E aí está o mal da minha vida, todo o mal da minha vida: isto é a desordem. Em que consiste ela? No demorar, no desviar e no parar de uma vida que, no todo ou em parte, não sobe até Deus.
Toda parte do meu ser ou do meu movimento que não atinge, ao menos indiretamente, a união com Deus para a qual fui feito. Quando alguma porção de mim não alcança o fim total e verdadeiro, há desordem, mais ou menos grave conforme a natureza e a extensão do desvio.
O apego
E de onde vem a desordem? Sempre de uma só coisa: o prazer, o prazer nas coisas criadas. Fui feito para ser feliz, e uma necessidade intensa de felicidade está em todas as minhas faculdades. Na viagem terrena, longe de Deus que não vejo, no meio das criaturas que vejo e do prazer que me afeta, deixo-me enganar pelo que vejo e esqueço o que não vejo. Em vez de sustentar a minha marcha com o óleo de alegria posto à minha disposição, quero, nele e por ele, encontrar a minha satisfação e o meu repouso. O prazer deixa de ser instrumento e torna-se fim. O fascínio dessa ninharia faz-me perder de vista o bem, e a inconstância da concupiscência transtorna a boa ordem da minha alma.
O prazer, que deveria facilitar a passagem da minha alma pelas coisas criadas, agora se cola a ela: torna-se uma espécie de viscosidade que me prende e me retém a mim mesmo e às criaturas. Fico retardado, desviado, parado, justamente por aquilo que mais devia contribuir para a rapidez da minha subida. Como uma máquina cuja limpeza foi descuidada, na qual o óleo acaba por engomá-la a ponto de primeiro dificultar e por fim deter o seu andamento, contraio um apego às coisas criadas, eu que fui feito para aderir só a Deus.
O repouso
No céu, a alegria dos bem-aventurados está em louvar a Deus, a sua satisfação vem disso, o seu repouso está em Deus. Na terra, as criaturas de que me sirvo têm os seus muitos prazeres. Se tomo esses prazeres, que estão na criatura, para deter-me neles; se me detenho neles para gozá-los; se, nesse gozo, tomo o meu repouso, a minha alegria já não é a do justo, nem sequer a da razão: é pervertida, falsificada, rebaixada, a alegria do homem animal, da natureza má, do mundo sob maldição.
Toda criatura na qual tomo o meu repouso unicamente pelo prazer que nela encontro detém o meu progresso para Deus e a minha união com Ele. Por mais nobre que seja essa criatura, por mais alta ou sobrenatural que a suponha, ainda que fosse um dom preeminente de Deus, nada disso é Deus: é apenas um dom de Deus. Se paro nela, se me apego a ela, se nela repouso, então paro, apego-me e repouso fora de Deus. E só Ele é o termo do meu movimento e o lugar do meu repouso.
Devo passar pelas criaturas para ir a Deus, e passar além delas para aderir só a Ele. O mal é um só: em vez de passar, paro.
Per fidem enim ambulamus, et non per speciem.
Pois caminhamos pela fé, e não pela visão.
A vida é uma viagem para longe de Deus: passo pelas criaturas para ir além delas. A desordem é um só mal, parar em vez de passar; e a sua causa é sempre o prazer tomado como fim, que me cola às criaturas quando eu era para aderir só a Deus.