A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IICap. 6
Primeira Parte · O Fim · Livro II · Capítulo 6 · A desordem

O apego às criaturas

Essência

Depois da ordem, a desordem. A minha vida na terra é uma viagem para longe de Deus: devo passar pelas criaturas para ir a Ele, passar através e além delas. O mal é um só: em vez de passar adiante, demoro-me, desvio-me e paro. E de onde vem? Sempre do prazer tomado como fim. O prazer, que deveria facilitar a passagem, cola-se à alma como viscosidade e prende-me às criaturas, a mim que fui feito para aderir só a Deus.

a vida é uma viagem para longe de Deus
passo pelas criaturas para ir além delas
o mal: em vez de passar, paro
a causa: o prazer tomado como fim
e contraio apego, eu que era para aderir só a Deus

A viagem para longe de Deus

Acabo de considerar a organização da minha vida segundo o plano de Deus; devo agora considerar a sua desorganização pela desordem humana. Somos feitos para a vida, diz São Paulo, e quem nos faz para isso é Deus, que nos deu o seu Espírito como penhor da imortalidade. Por isso temos ânimo, sabendo que enquanto habitamos neste corpo vivemos ausentes do Senhor, pois caminhamos pela fé, e não pela visão.

Essa viagem para longe de Deus é a minha passagem pelas criaturas neste mundo. Devo passar por elas para ir a Ele; mas devo passar através e além delas, para encontrá-lo só, acima delas, para aderir só a Ele no meio de tudo o que não é Ele. Se sei prosseguir no uso das criaturas, a minha peregrinação terrestre cumpre-se segundo a ordem divina.

A parada

Aqui, porém, está o mal. Em vez de passar adiante, demoro-me, desvio-me e paro:

As três formas de parar
Demoro-meentre as criaturas
Desvio-mede Deus
Paroem mim mesmo

E aí está o mal da minha vida, todo o mal da minha vida: isto é a desordem. Em que consiste ela? No demorar, no desviar e no parar de uma vida que, no todo ou em parte, não sobe até Deus.

A desordemconceito para reter

Toda parte do meu ser ou do meu movimento que não atinge, ao menos indiretamente, a união com Deus para a qual fui feito. Quando alguma porção de mim não alcança o fim total e verdadeiro, há desordem, mais ou menos grave conforme a natureza e a extensão do desvio.

O apego

E de onde vem a desordem? Sempre de uma só coisa: o prazer, o prazer nas coisas criadas. Fui feito para ser feliz, e uma necessidade intensa de felicidade está em todas as minhas faculdades. Na viagem terrena, longe de Deus que não vejo, no meio das criaturas que vejo e do prazer que me afeta, deixo-me enganar pelo que vejo e esqueço o que não vejo. Em vez de sustentar a minha marcha com o óleo de alegria posto à minha disposição, quero, nele e por ele, encontrar a minha satisfação e o meu repouso. O prazer deixa de ser instrumento e torna-se fim. O fascínio dessa ninharia faz-me perder de vista o bem, e a inconstância da concupiscência transtorna a boa ordem da minha alma.

O prazer, que deveria facilitar a passagem da minha alma pelas coisas criadas, agora se cola a ela: torna-se uma espécie de viscosidade que me prende e me retém a mim mesmo e às criaturas. Fico retardado, desviado, parado, justamente por aquilo que mais devia contribuir para a rapidez da minha subida. Como uma máquina cuja limpeza foi descuidada, na qual o óleo acaba por engomá-la a ponto de primeiro dificultar e por fim deter o seu andamento, contraio um apego às coisas criadas, eu que fui feito para aderir só a Deus.

O repouso

No céu, a alegria dos bem-aventurados está em louvar a Deus, a sua satisfação vem disso, o seu repouso está em Deus. Na terra, as criaturas de que me sirvo têm os seus muitos prazeres. Se tomo esses prazeres, que estão na criatura, para deter-me neles; se me detenho neles para gozá-los; se, nesse gozo, tomo o meu repouso, a minha alegria já não é a do justo, nem sequer a da razão: é pervertida, falsificada, rebaixada, a alegria do homem animal, da natureza má, do mundo sob maldição.

Toda criatura na qual tomo o meu repouso unicamente pelo prazer que nela encontro detém o meu progresso para Deus e a minha união com Ele. Por mais nobre que seja essa criatura, por mais alta ou sobrenatural que a suponha, ainda que fosse um dom preeminente de Deus, nada disso é Deus: é apenas um dom de Deus. Se paro nela, se me apego a ela, se nela repouso, então paro, apego-me e repouso fora de Deus. E só Ele é o termo do meu movimento e o lugar do meu repouso.

Devo passar pelas criaturas para ir a Deus, e passar além delas para aderir só a Ele. O mal é um só: em vez de passar, paro.

Pontos-chave
A vida na terra é uma viagem para longe de Deus: caminho pela fé, ausente do Senhor enquanto habito o corpo.
Devo passar pelas criaturas para ir a Deus, mas passar através e além delas, para aderir só a Ele.
A desordem é um só mal: em vez de passar adiante, demoro-me nas criaturas, desvio-me de Deus e paro em mim.
Há desordem sempre que uma parte de mim não sobe, ao menos indiretamente, à união com Deus; a gravidade varia com o desvio.
A causa é sempre uma: o prazer tomado como fim, e não como instrumento.
O prazer que devia facilitar a passagem cola-se à alma como viscosidade e prende-me às criaturas, a mim que era para aderir só a Deus.
Toda criatura em que repouso só pelo prazer, por mais nobre que seja, detém o meu progresso: parar nela é repousar fora de Deus.
Termos
A viagem para longe de Deus
a minha passagem pelas criaturas neste mundo; caminho pela fé e não pela visão, devendo passar através e além delas para aderir só a Deus.
A desordem
o demorar, desviar e parar de uma vida que, no todo ou em parte, não sobe até Deus; toda porção de mim que não alcança o fim total.
O apego
o prazer que deixa de ser instrumento e vira fim, colando-se à alma como viscosidade e prendendo-a a si mesma e às criaturas.
O repouso desordenado
deter-se numa criatura pelo prazer que nela se encontra; por mais nobre que ela seja, parar nela é repousar fora de Deus.

Per fidem enim ambulamus, et non per speciem.

Pois caminhamos pela fé, e não pela visão.

2 Coríntios 5, 7
Para reter

A vida é uma viagem para longe de Deus: passo pelas criaturas para ir além delas. A desordem é um só mal, parar em vez de passar; e a sua causa é sempre o prazer tomado como fim, que me cola às criaturas quando eu era para aderir só a Deus.

Fonte · Primeira Parte, Livro II, capítulo 6
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