A retidão da vida
Até aqui a obra foi corrigir atos maus; agora ela corrige os atos bons, expulsando deles a desordem que os diminui. Este é o objeto próprio da perfeição e o cume da segunda etapa: ver, amar e buscar a Deus primeiro, e a mim só depois. A palavra perfeição não significa aqui que o bem chegou ao seu máximo, nem que a alma está inteiramente pura; significa que dela desapareceu a preferência humana. É o ex toto do Apóstolo, que alcança cada coisa em particular, e todas as coisas juntas: a perfeição do ato e a perfeição do estado.
O seu objeto próprio
Corrigir a desordem da imperfeição, isto é, restabelecer a ordem nos detalhes bons ou indiferentes da minha vida, de modo a ver, amar e buscar a Deus primeiro e a mim mesmo só depois: este é o objeto próprio da perfeição, e o cume da segunda etapa da piedade.
Até agora corrigíamos e endireitávamos atos maus. A perfeição corrige os atos bons e expulsa deles toda desordem que os possa diminuir. Corrigidos assim os atos bons, não resta mais na minha vida traço algum da segunda parte da desordem, aquela que se caracteriza pela dominação do meu prazer sobre Deus. Todo esse mal desapareceu, e é por isso que o terceiro degrau de toda a subida se chama perfeição.
O alcance da palavra
Não significa que o bem tenha atingido a plenitude da sua intensidade, o que só existe em Deus; nem que o bem esteja inteiramente puro, pois restam na alma apegos secretos; nem que tenham desaparecido os últimos traços de desordem. Significa que o bem está livre do mal das preferências humanas: exclui-se de todo a busca de si antes de Deus. É a perfeição da restauração, ou das vias ordinárias.
Neste sentido a palavra é relativa, e convém guardá-la assim. A perfeição absoluta só se encontra em Deus, em quem o bem não tem limites. Do que se trata aqui é de um bem que já não é corrompido pela preferência de mim mesmo, e que por isso, nesse gênero, é perfeito.
É preciso reter a medida desta palavra para não confundir os degraus: a perfeição de que se fala neste Livro é a do terceiro grau da piedade, o remate da restauração. Os apegos secretos, a divisão que resta entre a satisfação humana e a glória divina, e o que ainda deve ser purificado, pertencem à etapa seguinte, a dos cumes.
Ex toto
Que é, pois, a perfeição? Nada mais que ver, amar e buscar a Deus primeiro em todas as coisas; é a piedade chegada àquele estado de perfeição relativa que exclui toda subversão. Tudo o que fizerdes, diz São Paulo, por palavra ou por obra, fazei-o tudo em nome do Senhor Jesus Cristo; quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.
Tudo, absolutamente tudo, diz o Apóstolo: cada coisa em particular, e todas as coisas em conjunto.
É esse todo que caracteriza tanto a perfeição do ato quanto a do estado. Diliges ex toto: já não se trata apenas de todas as faculdades da alma e do corpo evitando todo pecado, mas de todas elas evitando também toda usurpação dos direitos de Deus. A disposição de ver, amar e buscar a Deus primeiro alcança aqui realmente todas as coisas, sem exceção alguma. Deus está verdadeiramente no seu lugar, no ponto mais alto da minha vida.
É pôr Deus plenamente no primeiro lugar, como convém à sua dignidade de Salvador meu, e pôr-me inteiramente no segundo, como convém à minha humildade de servo seu. Um ato da minha vida é perfeito quando realiza inteiramente essa subordinação; e o estado da minha vida é perfeito quando toda a minha existência está assim ordenada.
A perfeição segundo São Francisco de Sales
Não ouço falar senão de perfeição, dizia São Francisco de Sales, e vejo pouquíssimos que a pratiquem. Cada um tem a sua ideia dela. Quanto a mim, não conheço outra perfeição senão a de amar a Deus de todo o coração.
E se amamos a Deus verdadeiramente, procuramos por nós mesmos o bem da sua glória, referindo a ela o nosso ser e todas as nossas ações, não só as boas, mas também as indiferentes; e, não contentes com isso, empregamos toda diligência e todo esforço para levar o próximo a servi-lo e a amá-lo, de modo que em tudo Deus seja honrado.
Nisto consiste o nosso fim e a nossa consumação final, o fim de todas as consumações e a consumação de todos os fins. Os que nos forjam outra espécie de perfeição não fazem senão enganar-nos.
Omne quodcumque facitis in verbo aut in opere, omnia in nomine Domini Jesu Christi, gratias agentes Deo et Patri per ipsum.
Tudo o que fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus Pai.
A perfeição deste grau não é a santidade acabada: é o bem já limpo da preferência de mim mesmo. Ela se mede pelo todo do Apóstolo, cada ato ordenado a Deus e a vida inteira ordenada como um só tecido. E o critério prático de São Francisco de Sales guarda a medida: não há outra perfeição senão amar a Deus de todo o coração, referindo-lhe também o que é indiferente.