A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro ICap. 8
Primeira Parte · O Fim · Livro I · Capítulo 8

A lei sintética

Essência

Depois de estudar as criaturas como instrumentos e o prazer como a gota de óleo, o capítulo reúne tudo numa única lei: o prazer sujeito à utilidade; a utilidade humana ordenada segundo a dignidade dos seus interesses e referida à utilidade divina. Uso as criaturas e repouso em Deus.

o prazer serve à utilidade
o corpo serve ao espírito
o espírito serve à virtude
tudo serve à glória de Deus

A primeira subordinação: o prazer sujeito à utilidade

Nas criaturas há para mim duas coisas: a utilidade, enquanto instrumentos que desenvolvem a minha vida; e o prazer, que facilita esse desenvolvimento. É preciso, portanto, considerar a ordem de uma e de outro. E a primeira é clara: se o prazer só existe para facilitar a função do instrumento, deve estar subordinado a essa função.

A imagem do óleo continua a do capítulo anterior. Numa máquina, o óleo se emprega conforme a natureza da construção e as necessidades do trabalho: um relógio não pede a mesma quantidade nem a mesma qualidade de óleo que uma locomotiva. Cada instrumento e cada obra têm a sua medida, e é a utilidade que governa a economia e a distribuição da lubrificação. Assim na vida humana: o prazer da mesa subordinado à necessidade do alimento, o prazer do sono à necessidade do repouso, o prazer do recreio à necessidade de renovar as forças. E assim por toda a escala do prazer, do mais material ao mais espiritual.

A regra absoluta: tomar satisfação nas coisas criadas na medida e nas condições necessárias ao bom cumprimento do dever. Elas devem facilitar, e não estorvar; e, sobretudo, nunca deter.

As duas utilidades e a escala da utilidade humana

Ordenado o prazer, resta ordenar a própria utilidade. As criaturas contêm para mim uma dupla utilidade: a humana, que trabalha o meu desenvolvimento natural; e a divina, que coopera para o meu desenvolvimento sobrenatural. As duas devem entrelaçar-se e unir-se sem que uma impeça a outra. Como se estabelece esse entrelaçamento?

A utilidade humana pertence ao meu ser natural, e é tripla: o desenvolvimento material da vida física, o desenvolvimento racional da vida intelectual, o desenvolvimento virtuoso da vida moral. Quantos seres e influências a sabedoria onipotente do Amor destinou a concorrer para esse tríplice crescimento. E todos guardam a ordem na sua utilidade quando trabalham segundo a regra da sua subordinação, pois mesmo dentro da utilidade humana há hierarquia:

A escala da utilidade humana
Corporaltrabalho, negócios, higiene, o cuidado do corpo: primeira na ordem das necessidades vitais, última na ordem da dignidade
Intelectualo crescimento do espírito: somos mais humanos pelo espírito do que pelo corpo
Moralo crescimento das virtudes, que consuma a dignidade humana: somos ainda mais humanos pelo coração do que pelo espírito

A minha saúde é importante, mas menos que a minha ciência; a minha ciência é necessária, mas menos que as minhas virtudes. Os cuidados de ordem material são louváveis em si mesmos e chegam a constituir obrigações graves, conforme as condições da vocação de cada um; mas o interesse material, primeiro na urgência, é o último na dignidade, e deve referir-se aos interesses que lhe são superiores.

A saúde é para a ciência, e a ciência para a virtude: eis a ordem natural. As três forças, corporal, intelectual e moral, devem unir-se em concórdia nos seus graus de dignidade, sem que a inferior invada a superior e sem que se excluam. Porque nem todo crescimento é normal: um quisto ou uma corcova também crescem, mas são excrescências; e é isso que se deve evitar.

A utilidade divina

A utilidade divina pertence ao desenvolvimento sobrenatural da vida divina, ao aumento da glória de Deus. Os seres e as suas influências sobre mim possuem um poder especial de conduzir-me a essa altura. O crescimento natural da minha vida não pode parar em mim, pois fui feito para Deus; por conseguinte, a eficácia natural dos meios criados deve subordinar-se à sua eficácia divina.

Se a missão das criaturas é desenvolver-me, é com Deus em vista. Se faço delas um uso egoísta, parando em mim mesmo, privo-as da sua função essencial. A glória de Deus deve ser o motivo praticamente dominante e efetivamente determinante do uso que faço delas. Posso e devo olhá-las como instrumentos do meu crescimento, mas com Deus em vista; posso e devo amá-las pelo proveito que trazem à minha vida, mas segundo Deus; posso e devo procurá-las pela expansão que produzem na minha existência, mas para Deus. Pouco importa que a intenção da sua glória seja atual ou virtual; o essencial é que ela seja de algum modo o termo mais alto e final, que o meu crescimento humano termine em Deus, pois o homem foi feito para Deus.

A ordem completa dos instrumentos

Eis, então, a lei que sintetiza tudo o que o Livro I estabeleceu sobre as criaturas: o prazer, sujeito à utilidade; a utilidade humana, ordenada segundo a dignidade dos seus interesses e referida à utilidade divina. Devo tomar as coisas, e o gozo delas, para crescer e para elevar-me a Deus. As criaturas e o prazer que as acompanha devem produzir em mim um movimento ascendente para Deus, e não necessidade alguma de repousar em mim mesmo ou nelas.

Santo Agostinho observa que Deus, terminada a obra da criação, tomou a sua alegria e o seu repouso não na obra, mas em si mesmo. Assim as criaturas e o gozo delas destinam-se unicamente a fazer-me crescer e repousar em Deus. Uso-as, e repouso n’Ele: esta é a lei da justiça, este é o plano de Deus.

E a ordem da criação só existe na sua plenitude, o plano de Deus só se realiza na sua integridade, eu só atinjo o meu fim na sua totalidade, quando Deus for tudo em tudo para mim: quando eu nada buscar além d’Ele, quando todas as coisas me conduzirem a Ele, quando a sua glória tiver dominado e absorvido a minha satisfação e se tiver tornado, sozinha, o meu fim, a minha alegria e o meu repouso.

A lei sintéticao conceito central do capítulo

O prazer sujeito à utilidade; a utilidade humana ordenada segundo a dignidade dos seus interesses e referida à utilidade divina; e tudo terminando na glória de Deus, único repouso.

Uso as criaturas, e repouso n’Ele: esta é a lei da justiça, este é o plano de Deus.

Pontos-chave
O prazer existe para facilitar a função do instrumento e por isso se subordina a ela: cada instrumento tem a sua medida de óleo.
A regra absoluta: satisfação nas coisas criadas na medida necessária ao dever; facilitar, não estorvar, e nunca deter.
A utilidade humana é tripla e hierárquica: a saúde é para a ciência, e a ciência para a virtude.
Nem todo crescimento é normal: as três forças devem crescer em concórdia, sem que a inferior invada a superior.
A eficácia natural dos meios subordina-se à divina: a glória de Deus deve ser o motivo dominante do uso, em intenção atual ou virtual.
A ordem da criação só existe em plenitude quando Deus for tudo em tudo para mim.
Termos
Lei sintética
a fórmula única que ordena todas as relações com as criaturas: prazer para a utilidade, utilidade humana para a divina, tudo para Deus.
Utilidade humana
a que trabalha o desenvolvimento natural do homem, em três graus: corporal, intelectual e moral.
Utilidade divina
a que coopera para o desenvolvimento sobrenatural e o aumento da glória de Deus; termo ao qual toda utilidade humana deve referir-se.
Intenção atual ou virtual
atual, quando penso expressamente na glória de Deus ao agir; virtual, quando a intenção feita antes permanece operante sem que eu pense nela. Basta a virtual, contanto que Deus seja o termo final.

Ut sit Deus omnia in omnibus.

Para que Deus seja tudo em todos.

1 Coríntios 15, 28
Para reter

Prazer para a utilidade, corpo para o espírito, espírito para a virtude, tudo para Deus: uso as criaturas e repouso somente n'Ele.

Fonte · Primeira Parte, Livro I, capítulo 8
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