A lei sintética
Depois de estudar as criaturas como instrumentos e o prazer como a gota de óleo, o capítulo reúne tudo numa única lei: o prazer sujeito à utilidade; a utilidade humana ordenada segundo a dignidade dos seus interesses e referida à utilidade divina. Uso as criaturas e repouso em Deus.
A primeira subordinação: o prazer sujeito à utilidade
Nas criaturas há para mim duas coisas: a utilidade, enquanto instrumentos que desenvolvem a minha vida; e o prazer, que facilita esse desenvolvimento. É preciso, portanto, considerar a ordem de uma e de outro. E a primeira é clara: se o prazer só existe para facilitar a função do instrumento, deve estar subordinado a essa função.
A imagem do óleo continua a do capítulo anterior. Numa máquina, o óleo se emprega conforme a natureza da construção e as necessidades do trabalho: um relógio não pede a mesma quantidade nem a mesma qualidade de óleo que uma locomotiva. Cada instrumento e cada obra têm a sua medida, e é a utilidade que governa a economia e a distribuição da lubrificação. Assim na vida humana: o prazer da mesa subordinado à necessidade do alimento, o prazer do sono à necessidade do repouso, o prazer do recreio à necessidade de renovar as forças. E assim por toda a escala do prazer, do mais material ao mais espiritual.
A regra absoluta: tomar satisfação nas coisas criadas na medida e nas condições necessárias ao bom cumprimento do dever. Elas devem facilitar, e não estorvar; e, sobretudo, nunca deter.
As duas utilidades e a escala da utilidade humana
Ordenado o prazer, resta ordenar a própria utilidade. As criaturas contêm para mim uma dupla utilidade: a humana, que trabalha o meu desenvolvimento natural; e a divina, que coopera para o meu desenvolvimento sobrenatural. As duas devem entrelaçar-se e unir-se sem que uma impeça a outra. Como se estabelece esse entrelaçamento?
A utilidade humana pertence ao meu ser natural, e é tripla: o desenvolvimento material da vida física, o desenvolvimento racional da vida intelectual, o desenvolvimento virtuoso da vida moral. Quantos seres e influências a sabedoria onipotente do Amor destinou a concorrer para esse tríplice crescimento. E todos guardam a ordem na sua utilidade quando trabalham segundo a regra da sua subordinação, pois mesmo dentro da utilidade humana há hierarquia:
A minha saúde é importante, mas menos que a minha ciência; a minha ciência é necessária, mas menos que as minhas virtudes. Os cuidados de ordem material são louváveis em si mesmos e chegam a constituir obrigações graves, conforme as condições da vocação de cada um; mas o interesse material, primeiro na urgência, é o último na dignidade, e deve referir-se aos interesses que lhe são superiores.
A saúde é para a ciência, e a ciência para a virtude: eis a ordem natural. As três forças, corporal, intelectual e moral, devem unir-se em concórdia nos seus graus de dignidade, sem que a inferior invada a superior e sem que se excluam. Porque nem todo crescimento é normal: um quisto ou uma corcova também crescem, mas são excrescências; e é isso que se deve evitar.
A utilidade divina
A utilidade divina pertence ao desenvolvimento sobrenatural da vida divina, ao aumento da glória de Deus. Os seres e as suas influências sobre mim possuem um poder especial de conduzir-me a essa altura. O crescimento natural da minha vida não pode parar em mim, pois fui feito para Deus; por conseguinte, a eficácia natural dos meios criados deve subordinar-se à sua eficácia divina.
Se a missão das criaturas é desenvolver-me, é com Deus em vista. Se faço delas um uso egoísta, parando em mim mesmo, privo-as da sua função essencial. A glória de Deus deve ser o motivo praticamente dominante e efetivamente determinante do uso que faço delas. Posso e devo olhá-las como instrumentos do meu crescimento, mas com Deus em vista; posso e devo amá-las pelo proveito que trazem à minha vida, mas segundo Deus; posso e devo procurá-las pela expansão que produzem na minha existência, mas para Deus. Pouco importa que a intenção da sua glória seja atual ou virtual; o essencial é que ela seja de algum modo o termo mais alto e final, que o meu crescimento humano termine em Deus, pois o homem foi feito para Deus.
A ordem completa dos instrumentos
Eis, então, a lei que sintetiza tudo o que o Livro I estabeleceu sobre as criaturas: o prazer, sujeito à utilidade; a utilidade humana, ordenada segundo a dignidade dos seus interesses e referida à utilidade divina. Devo tomar as coisas, e o gozo delas, para crescer e para elevar-me a Deus. As criaturas e o prazer que as acompanha devem produzir em mim um movimento ascendente para Deus, e não necessidade alguma de repousar em mim mesmo ou nelas.
Santo Agostinho observa que Deus, terminada a obra da criação, tomou a sua alegria e o seu repouso não na obra, mas em si mesmo. Assim as criaturas e o gozo delas destinam-se unicamente a fazer-me crescer e repousar em Deus. Uso-as, e repouso n’Ele: esta é a lei da justiça, este é o plano de Deus.
E a ordem da criação só existe na sua plenitude, o plano de Deus só se realiza na sua integridade, eu só atinjo o meu fim na sua totalidade, quando Deus for tudo em tudo para mim: quando eu nada buscar além d’Ele, quando todas as coisas me conduzirem a Ele, quando a sua glória tiver dominado e absorvido a minha satisfação e se tiver tornado, sozinha, o meu fim, a minha alegria e o meu repouso.
O prazer sujeito à utilidade; a utilidade humana ordenada segundo a dignidade dos seus interesses e referida à utilidade divina; e tudo terminando na glória de Deus, único repouso.
Uso as criaturas, e repouso n’Ele: esta é a lei da justiça, este é o plano de Deus.
Ut sit Deus omnia in omnibus.
Para que Deus seja tudo em todos.
Prazer para a utilidade, corpo para o espírito, espírito para a virtude, tudo para Deus: uso as criaturas e repouso somente n'Ele.