A reparação
Eu já sabia que tudo deve ser feito para Deus; mas saber é uma coisa e ver é outra, e o que vale é a visão prática, tornada disposição habitual. O capítulo explica por que a boa intenção da manhã não basta: ela é um ato, e um ato não destrói um hábito, apenas o interrompe. O que se busca não é pensar atualmente na glória de Deus em cada ação, e sim que a piedade se torne o primeiro instinto da alma, como hoje é a busca de si. A imagem final é a da agulha magnetizada, que aponta sempre para o mesmo ponto e por fim nele se fixa.
Conhecer e ver
E no entanto, eu já não sabia que tudo deve ser feito para Deus? Sabia, sem dúvida; mas eu via? Uma coisa é conhecer, outra é ver. De que serve um conhecimento mais ou menos especulativo, confiado à memória, onde dorme? De que serve um conhecimento que não dirige a vontade?
Ver praticamente, definidamente, vitalmente; e não por atos repetidos a cada instante, o que seria impossível, mas por um hábito adquirido da alma, uma disposição interior educada.
Tenho alguma percepção prática da luta perpétua entre a minha satisfação e a glória de Deus? Da dominação habitual dos meus interesses egoístas? Do meu costume de ver tudo do ponto de vista do meu prazer humano? O mal está em não ver isso, em não pensar nisso, e em perpetuar em mim, pela própria conduta de cada dia, hábitos de espírito mais ou menos errantes.
A influência do hábito sobre os atos
O valor dos meus atos depende muito dos meus hábitos, porque o estado interior das nossas faculdades modifica profundamente a natureza das suas ações. É assim que o estado de pecado mortal priva de todo valor meritório e eterno até os atos heroicos praticados nessa disposição. As melhores intenções e as mais belas ações, diz São Paulo, não impedem que eu nada seja e nada tenha, se não tiver caridade.
Do mesmo modo, se os meus hábitos interiores e as minhas tendências ordinárias são veniais, sem privar as boas ações de todo o seu valor, diminuem-lhe singularmente o mérito e são fonte de muitos pecados. E se vivo em estado de imperfeição, esse estado repercute inevitavelmente sobre os atos que não forem dele retirados por uma intenção contrária. Seja qual for essa intenção, atual ou habitual, ela precisa ao menos afetar o ato e subtraí-lo à influência oposta.
A intenção da manhã
Mas não retifico eu a minha intenção todas as manhãs, dirigindo as minhas ações à glória de Deus? Sem dúvida, e isso é muito bom. Só que o que faço de manhã é um ato. Ora, um ato não destrói um hábito: pode interrompê-lo por um momento e produzir algum efeito, até que o hábito retome a dianteira. Esse ato não destrói o costume que formei de julgar tudo do meu ponto de vista, tanto mais que é um ato da vontade, e um ato da vontade não se opõe diretamente a um hábito da mente.
Se eu não tivesse hábito contrário, a intenção da manhã cobriria normalmente com a sua virtude todos os atos do dia. Mas o hábito de buscar-me está ali, e está de posse; é apenas interrompido por atos bons, enquanto o hábito da piedade não conseguir suplantá-lo. O fato é que, apesar da boa intenção da manhã, continuo a olhar habitualmente primeiro o meu interesse.
Que fique claro o que o capítulo não diz: a intenção da manhã não é inútil. Ela é ato muito meritório, no qual não há dominação da busca de si, e pela repetição constante pode ajudar a criar em mim o grande hábito de ver, amar e buscar a Deus primeiro em todas as coisas. O que se corrige é a ilusão de que um ato baste para desfazer um hábito.
Intenção atual e habitual
Será necessário, então, pensar atualmente na glória de Deus em cada uma das minhas ações? De modo algum: não é mais necessário do que ver atualmente o meu interesse em tudo para, apesar disso, buscar-me habitualmente. Não é verdade que, pela força do hábito, considero, amo e busco o meu interesse quase sem pensar nele, como que inconscientemente, por instinto? A coisa anda por si.
É próprio de todo hábito firmado na alma produzir a ação sem que a alma perceba a sua influência de modo definido, e quanto mais perfeitamente adquirido, menos percebido é o hábito. Ajo para mim tão habitualmente que já não o noto; o hábito me domina tão completamente que já não o percebo.
Pois bem: é um hábito assim forte que deve formar-se em mim em favor da glória de Deus. A piedade deve tornar-se o primeiro instinto da minha alma, na mesma medida em que hoje o é a busca de mim mesmo. O impulso da graça deve tomar o lugar, a função e o império que hoje tem o impulso da natureza; o divino deve operar em mim nas mesmas condições em que hoje opera o humano.
Então eu irei a Deus com a mesma facilidade e prontidão, quase diria com a mesma naturalidade, com que hoje vou a mim mesmo. Eis o fim; os meios de alcançá-lo serão considerados na Terceira Parte desta obra.
A subversão completa
Em suma, há quase uma subversão inteira a fazer. A minha vida toda deve ser mais ou menos revolvida: os meus pensamentos, os meus sentimentos e as minhas ações têm de ser postos de cabeça para baixo. É a modificação profunda e radical da minha maneira, até aqui demasiado humana, de ver, de amar e de agir. Preciso formar noções novas sobre tudo, sentimentos novos sobre tudo, e uma conduta nova a respeito de tudo. O homem velho deve ser despojado de uma vez, e o homem novo revestido.
Que profundidade têm estas palavras simples: ver, amar e buscar a Deus em todas as coisas, e todas as coisas para Deus.
Sem o saber e sem refletir, pela inclinação da minha natureza, cheguei a ver, amar e buscar tudo para mim. O lugar indevidamente dado à minha satisfação deve agora ser dado à glória de Deus. Que obra. Só quando ela estiver no primeiro lugar dos meus pensamentos, na primeira fila de todas as minhas afeições e na raiz de todas as minhas ações é que poderei dizer: alcancei a perfeição. Quando a alcançarei, ó meu Deus?
Et induite novum hominem, qui secundum Deum creatus est in justitia et sanctitate veritatis.
E revesti-vos do homem novo, que foi criado segundo Deus em justiça e santidade verdadeira.
Fecha-se o Livro III com o diagnóstico invertido em programa: o problema não é ignorar que tudo deve ser feito para Deus, e sim não ver isso de modo habitual. Um ato não desfaz um hábito, e por isso a intenção da manhã ajuda sem bastar. O que se busca é que a piedade se torne instinto, como hoje é a busca de si; a alma magnetizada aponta para Deus sem precisar pensá-lo. Os meios virão na Terceira Parte.