Suas formas
A obra de Deus tem duas operações simultâneas, despojar o humano e revestir o divino, e ele não pode pôr uma sem tirar a outra. Para fazê-lo usa as criaturas que me tocam, e por mais variadas que sejam as impressões elas se reduzem quase sempre a duas: o sofrimento e a consolação, que ele alterna e combina como alterna sol e chuva. E a intenção por trás das duas é uma só, porque ele não consola para me distrair nem faz sofrer para me torturar: não age como criança nem como carrasco, age como Pai. Quer libertar-me, e essa é a razão dos sofrimentos; quer animar-me, e essa é a razão das consolações. Donde a frase mais difícil do capítulo: Deus nunca me ama mais do que quando me manda o sofrimento.
Despojar e revestir
O capítulo retoma o que a Primeira Parte estabeleceu: para que a vida se desenvolva em mim há duas coisas a fazer, sair da morte e ir para a vida, isto é, eliminar o mal pela purificação e construir o bem pela glorificação do meu ser. Logo, Deus tem duas operações simultâneas a conduzir até que a obra esteja concluída: despojar-me do humano e revestir-me do divino. E vale reter a impossibilidade: ele não pode revestir um sem despojar o outro.
Quando as rodas de uma máquina estão incrustadas ou enferrujadas, é preciso limpar: retirar, desprender, purificar. Depois, quando o metal está limpo e brilhante, aplica-se a quantidade devida de óleo, para que as rodas girem com facilidade e rapidez. O prazer nas criaturas enferrujou as rodas das minhas faculdades, e a adesão a elas fez a alma grudar-se; há limpeza a fazer. Só então vem o óleo da suavidade, que dá desembaraço de movimento e força para avançar.
E as duas operações têm de alcançar todas as faculdades e tocar o meu ser em cada ponto, até que a vida esteja completamente acabada e finalmente realizada.
Consolações e provações
Para esse trabalho duplo Deus se serve dos instrumentos que tem à mão, e todas as criaturas que entram em contato comigo são manejadas por ele para essa obra. Os contatos são inúmeros e variam ao infinito, porque o procedimento divino é diversíssimo conforme as almas e conforme o estado delas. Mas como os toques do Artista eterno e os golpes dos seus instrumentos não têm outro objetivo último que libertar e dar impulso, as impressões recebidas pela alma se reduzem quase universalmente a duas: o sofrimento e a consolação.
Há criaturas de que ele se serve para me provar, desapegando-me delas, e há outras que ele me dá para consolação e encorajamento. E ele alterna e combina os dois modos, misturando mais ou menos tristeza com alegria, prolongando um prazer ou um sofrimento, substituindo um pelo outro, assim como no mundo material faz o sol suceder à chuva e a calma à tempestade.
O capítulo já anuncia aqui os dois capítulos seguintes. No quarto se verá que as operações divinas são quase sempre uma alternância de dons que consolam, iluminam e inflamam, e de privações que desolam, cegam e tiram a força. E no oitavo se verá o mistério mais delicioso de todos, a doçura que brota da amargura, o mel na boca do leão.
De comedente exivit cibus, et de forti egressa est dulcedo.
Do que devorava saiu comida, e do forte saiu doçura.
A intenção de Deus
Por que, então, os instrumentos de Deus produzem em mim uns a dor e outros a doçura? A resposta do capítulo passa primeiro por duas negativas, e elas são o coração da coisa. Ele não manda a consolação com o propósito pueril de me divertir, nem manda o sofrimento com o propósito cruel de me torturar.
Deus não age como criança nem como carrasco. Age como Pai.
No fundo ele guarda um propósito do qual, como Pai, não pode afastar-se: quer ser Pai para mim em todas as coisas, isto é, quer dar-me a sua vida. E para me levar à vida, empenha-se em duas coisas ao mesmo tempo.
| Por quê | O que produz em mim | |
|---|---|---|
| Os sofrimentos | porque ele está empenhado em me libertar | desapegam das criaturas, na medida exata em que o desapego, a expiação e a reparação me são necessários |
| As consolações | porque ele está empenhado em me animar | apegam a Deus, na medida exata em que eu preciso de ânimo |
A medida é a parte que se costuma esquecer, e o capítulo a enuncia como intenção declarada: nenhuma criatura me inflige dor a não ser enquanto o desapego, a expiação e a reparação me são necessários, e nenhuma criatura me traz alegria a não ser enquanto eu preciso ser reanimado.
O que uma e outra produzem
Vem então a descrição dos efeitos, e a ressalva importa: isto vale numa alma em que as operações de Deus não encontrem demasiados estorvos voluntários.
Pertingens usque ad divisionem animae ac spiritus, compagum quoque ac medullarum, et discretor cogitationum et intentionum cordis.
Penetrando até a divisão da alma e do espírito, das juntas e das medulas, e discernindo os pensamentos e as intenções do coração.
O testemunho de amor
Na alegria não custa à natureza reconhecer um sorriso de Deus: a alma consolada pensa que ele está contente com ela, e ela está contente com ele. Que a consolação seja prova de amor, ninguém discute. Mas o sofrimento? É aqui que o capítulo faz a sua afirmação mais dura, e não a atenua.
Deus nunca me ama mais do que quando me manda o sofrimento.
E não deixa a frase solta: dá a razão, e a razão é tirada da experiência comum da amizade. Agradar e lisonjear não exigem nada além do que se pode pedir ao sentimento mais tolo. Mas dizer uma verdade dolorosa, dar uma notícia que arrasa, fazer uma advertência desagradável, pedir um sacrifício que parte o coração, e fazer tudo isso como amigo, porque a amizade dá não só o direito mas também a força de fazê-lo, essa é a última palavra da amizade.
O argumento é de simetria, e vale reconstruí-lo, porque é ele que sustenta a frase difícil. Entre amigos, o serviço que dói e é necessário é o ponto mais alto da afeição, e não o mais baixo. Se é assim entre nós, é assim com Deus: é o amor que o induz a me fazer sofrer, e o amor que o constrange a agir. A operação é necessária para a minha purificação e para a expansão da minha vida, e o amor dele nunca permitirá que eu me consuma longe dele sem que ele use de todos os meios para me fazer viver nele.
Duas coisas ficam deste capítulo, e a segunda é a que custa. A primeira é a medida: nada do que me acontece excede o que o desapego ou o ânimo exigem, de modo que tanto a dor quanto a alegria estão calibradas e nenhuma das duas é gratuita. A segunda é o argumento da amizade, que é o único modo honesto de aceitar a frase sobre o sofrimento. Não se trata de dizer que a dor é boa, e sim de reconhecer que lisonjear não exige amor nenhum, enquanto ferir por necessidade exige o direito e a força que só a amizade dá. É por aí que a frase para de soar cruel.