A piedade passiva
Aqui a segunda metade do Livro começa, e a pergunta muda de lado: já não é o que Deus faz, e sim o que me cabe. A resposta é que a correspondência direta ao beneplácito não está na ação, está na aceitação, que é o que abre caminho. E a aceitação tem um objeto preciso: não se aceita a coisa em si, a consolação ou a prova, e sim a operação de Deus dentro dela, porque apegar-se ao instrumento é justamente o estorvo. O capítulo depois desarma o mal-entendido óbvio, que seria transformar a aceitação em agitação: não se trata de fazer atos sem parar, e sim de repousar, porque a agitação é uma das duas grandes enfermidades humanas. E fecha com a definição formal: piedade passiva é disposição de receptividade espiritual.
Manter o caminho aberto
A pergunta que abre o capítulo é a segunda das duas que a abertura do Livro anunciou: o que devo fazer para corresponder a essa vontade que opera tão misericordiosamente em mim? E a resposta já vem separando as duas piedades. À vontade revelada respondo direta e formalmente dando os passinhos da piedade ativa; ao beneplácito, deixando-me carregar nos braços de Deus.
O que é, então, manter o caminho aberto para ele? Por um lado, é fazer o que ele pede pela vontade revelada, dando-lhe a parte de ação que espera de mim. E a razão é evidente por duas vias: se não faço o que Deus pede, corto-me da ação dele, porque estou em oposição a ele; e se faço, fico por isso mesmo largamente aberto às operações ulteriores do seu beneplácito.
Aqui está a frase que impede que este Livro seja lido como dispensa da piedade ativa, e vale guardá-la ao lado da inversão do capítulo 1. O efeito mais santificante da piedade ativa é justamente este: tornar a alma acessível às influências divinas, dando entrada livre aos impulsos inspiradores e vivificantes da graça. Ela não é o motor, mas é o que destranca a porta.
Mas a primeira abertura não é minha
Dito isso, o capítulo corrige a impressão que acabou de deixar, e é nessa correção que a doutrina se assenta. A minha ação não precede a de Deus. Logo, a primeira e principal abertura não é feita pela minha ação, e sim pela minha aceitação.
Deixar o caminho livre para Deus, aceitar a sua ação, não lhe negar nada. A minha parte é passiva: limita-se a aceitar, a ceder, a deixar-me levar e conduzir, a adorar e a agradecer. Deus me carrega nos braços, e eu adormeço neles com toda a confiança.
E a disposição única e essencial recebe um nome, com quatro exclusões que valem mais que a definição: submissão amorosa, sem reserva, sem ansiedade, sem curiosidade e sem murmúrio, a toda a ação de Deus, a toda a sua vontade, a todo o seu beneplácito.
Reconhecer, acolher, submeter-se
Como se dá essa aceitação? O capítulo a reparte pelas três potências, e cada uma tem o seu verbo.
E vem então a precisão mais importante do capítulo, aquela que liga esta seção ao capítulo anterior. O que se deve reconhecer, acolher e aceitar não é a coisa em si, não é a consolação, a luz ou a prova. A coisa é apenas instrumento de Deus, e o capítulo 4 mostrou que é exatamente o apego ao instrumento que se torna estorvo.
| Aceitar a coisa em si | Aceitar a operação de Deus nela |
|---|---|
| Tomar a consolação pela consolação é consumir-se no que apenas diverte. | Aceitar a operação divina na consolação é receber impulso para crescer. |
| Submeter-se à prova por ela mesma é condenar-se a ser esmagado. | Aceitar a operação divina na prova é receber o mesmo impulso. |
Daí a formulação que o capítulo dá por conclusão: o que deve ser aceito na coisa, e aquilo a que se deve aderir em tudo, é a ação de Deus. Os acontecimentos providenciais devem ser reconhecidos, acolhidos e sofridos como operações divinas.
Segue-se uma proporção que o capítulo enuncia sem atenuar: na medida em que alguém se torna insensível ao humano, torna-se mais vivo ao divino. E ela se aplica às três potências: a inteligência que sabe deixar as criaturas atrás chega a entrever a ideia do Criador no que lhe acontece; o coração que quer libertar-se das afeições naturais chega a saborear os desejos de Deus nas circunstâncias; e até os sentidos, endurecidos tanto à alegria quanto à dor, sentem que estão sob uma operação que purifica e dá vida.
A aceitação simples
Nem sempre é necessário ter vista clara dos desígnios de Deus e dar-se conta das suas razões. Muitas vezes ele se agradará de as revelar, mas também age sem dizer por quê. Nesse caso basta saber que ele age conforme a sua ideia e o seu desejo, e ceder à ação dele pura e simplesmente porque é dele.
Que ele faça como lhe parecer bem, segundo o seu desejo atual e a sua ideia eterna: aceito qualquer ação dele, unicamente porque vem dele e vai para ele.
O gesto que o capítulo pede aqui é de cortesia antiga, beijar a mão e adorar os desígnios. E o que ele pede de negativo é mais exigente: deixá-lo livre para modificar a sua operação sem ser estorvado por nenhum apego meu a uma alegria, nem por nenhuma esquiva minha diante de um incômodo.
A paz na aceitação
Vem então a objeção prática, e o capítulo a formula ele mesmo: se Deus trabalha em mim sem cessar, devo fazer atos de aceitação sem cessar? A resposta é categórica: de modo algum. Em primeiro lugar porque seria impossível, já que, para responder com um ato de submissão a cada detalhe da ação divina, não bastaria cada respiração que eu dou.
Mas a razão de fundo é outra, e é a que interessa: sob o nome de aceitação não se deve reintroduzir a agitação humana, que é um dos grandes estorvos à ação de Deus. Deus ama a tranquilidade, e o lugar dele é na paz. O que a sua ação exige de mim é repouso.
Et factus est in pace locus eius.
E o lugar dele foi posto na paz.
A imagem que fecha o argumento é a do capítulo 1, retomada agora do lado de quem é carregado: a criança que a mãe leva nos braços precisa remexer-se para continuar ali?
A incapacidade de ficar quieto, confiado nas mãos de Deus. O capítulo descreve o círculo em que ela se fecha: mesmo quando o que se pede é repouso, a pessoa começa a investigar o que deve fazer para conseguir repouso, e passa a fazer esforços para alcançá-lo. E a observação final desmonta o círculo: o único modo conhecido de conseguir repouso é não começar a se inquietar.
Os mestres da mística dizem que é preciso adormecer no beneplácito divino, e o capítulo empresta ao Salmo a frase que descreve esse sono.
In pace in idipsum dormiam et requiescam; quoniam tu, Domine, singulariter in spe constituisti me.
Em paz dormirei e repousarei, porque tu, Senhor, me estabeleceste singularmente na esperança.
Repouso em Deus, e não em mim
O capítulo se apressa a distinguir, porque a palavra repouso é perigosa. Trata-se de repouso em Deus, na ação de Deus, na vida de Deus. Não é o repouso descuidado, ocioso, egoísta e amigo do prazer, em mim mesmo e nas criaturas, aquele que não quer fazer nada e se esquiva da atividade. Esse é desordem, e é a outra forma da enfermidade humana.
| O que é | O que produz | |
|---|---|---|
| Repouso fora de Deus | ócio em si mesmo e nas criaturas, esquiva da atividade | é desperdício de vida |
| Repouso em Deus | abertura e confiança, aceitação verdadeira | é a primeira condição da vida, que se compõe essencialmente de repouso e movimento |
A alma que se abre e confia é penetrada por Deus, que a anima com o seu sopro, a enche da sua vida, põe em movimento todas as suas molas, a guia, a sustenta e a faz produzir atos verdadeiros de santidade. É a condição para que valha a exigência de São João:
Qui dicit se in ipso manere, debet, sicut ille ambulavit, et ipse ambulare.
Quem diz que permanece nele deve também andar como ele andou.
E a última imagem do capítulo é industrial, o que nele é raro e por isso mesmo eficaz. A alma que repousa de verdade em Deus é como uma máquina cuja torneira está inteiramente aberta: o vapor entra, circula e põe tudo em movimento. Quando eu me agito, ou quando repouso fora de Deus, a torneira fecha; ele fica à porta da minha alma, a ação dele não entra, e o seu desejo e a sua ideia não se realizam.
A definição
A seção final dá a definição formal, que é o que este capítulo devia à obra inteira.
Uma disposição de receptividade espiritual, que torna a alma acessível às influências divinas, para que ela seja animada e conduzida pelas operações do beneplácito divino a fazer as obras que pertencem à vida sobrenatural.
Vale notar o que a definição contém, porque desmente a leitura preguiçosa da palavra passiva: ela termina em fazer obras. A receptividade não é o fim, é a condição. E o capítulo remete ao Livro seguinte, onde se verá como essa passividade conduz à verdadeira atividade, e como uma e outra compõem uma só piedade.
Três coisas deste capítulo mudam a prática. A primeira é o objeto da aceitação: não se aceita a consolação nem a prova, e sim a operação de Deus dentro delas, porque aderir ao instrumento é justamente o estorvo que o capítulo anterior descreveu. A segunda é a advertência contra transformar aceitação em esforço: não há atos a multiplicar, e nem a respiração bastaria; o que se pede é repouso, e o único modo de alcançá-lo é não começar a se inquietar. A terceira é o fim da definição, que desmente a palavra: a receptividade não termina em si mesma, termina em fazer obras. Piedade passiva é a torneira aberta, não a máquina parada.