O mal da imperfeição
Por que a imperfeição não é pecado? A razão se busca em três pontos, a bondade de Deus, a fragilidade do homem e a moralidade do ato, e não é possível ir muito além disso. Mas pecado e imperfeição são vizinhos próximos. E aqui está o que mais assusta: as ocasiões de evitar pecados são raras na vida, enquanto agir é incessante. Posso portanto evitar o pecado com bastante fidelidade e ainda assim viver em desordem contínua, subvertendo todos os dias a ordem que dá a Deus a precedência. Se a imperfeição já é isso, o que será o pecado.
Por que a imperfeição não é pecado
Por que e como não há ofensa formal contra a divina Majestade na imperfeição? Será porque Deus, na sua misericórdia, condescendendo com a minha fraqueza, não quis impor à pobre natureza decaída dificuldades acima das suas forças? Ele conhece o barro de que nos formou, e aquele que foi tão severo com os anjos pode ser tão misericordioso com os homens.
Ou será porque não há consentimento bastante no desvio da minha vontade? Estou cheio de impotência, e recebo de fora tantos apelos, e do encontro dos dois nascem tantos sobressaltos, distrações e cedências.
Ou ainda será porque este grau de desordem não afeta suficientemente a realidade do ato, de modo que ele vá a Deus, apesar de tudo, de algum modo, ainda que de maneira incompleta? Malgrado a mancha da imperfeição, o ato conserva substância e acidentes que o deixam em relação com a honra de Deus, e por isso não incorre na mácula nem na pena do pecado formal.
Deus, o homem, e o ato que põe o homem em relação com Deus. Fora destes três pontos é difícil levar a investigação adiante, e é neles que se pode encontrar a razão desta ausência de ofensa formal na desordem da imperfeição.
A sua vizinhança com o pecado
Seja como for, é fato que pecado e imperfeição são vizinhos muito próximos. De um lado, coisas más em si mesmas tornam-se simples imperfeições por falta de conhecimento ou de vontade. De outro, vemos na vida dos santos que Deus às vezes castiga infidelidades como se fossem pecados verdadeiros, ainda que fossem meras imperfeições numa alma comum.
Seriam pecados verdadeiros nos santos, sobretudo em razão da imensa luz que ilumina as suas almas? Pollien não decide a questão e diz simplesmente que não o sabe. Mas observa que o fato de Deus os punir com tanto rigor é bastante significativo.
A sua frequência
Daí que, ainda que eu chegue a evitar o pecado com bastante fidelidade, posso todavia viver em desordem quase contínua. Não cometerei pecados voluntários, ou serão muito poucos, e no entanto posso estar desconhecendo quase constantemente a ordem da minha criação. Já é coisa alta e rara evitar o pecado venial deliberado, e mesmo assim a minha vida pode transcorrer em desordem permanente.
Digo desordem contínua, porque na verdade as circunstâncias em que é preciso evitar um pecado são muito mais raras na vida do que aquelas em que devo praticar boas ações. O tecido ordinário da vida é feito de uma sucessão ininterrupta de atos honestos em si mesmos e naturalmente bons; as tentações a vencer e os pecados a evitar são relativamente muito menos numerosos. Não estou sempre diante de uma tentação ou de um pecado, mas estou sempre fazendo alguma coisa, com a mente, o coração ou o corpo. Quantos detalhes há num só dia; pensamentos, palavras e atos sucedem-se aos milhares.
Pois bem. Se nesse trabalho incessante que constitui a vida eu uso habitualmente das coisas primeiro para mim, detendo-me de algum modo em mim e no meu prazer, esquecendo mais ou menos de Deus e dando-lhe na prática o segundo lugar, então vivo em desordem contínua: a minha vida, sem ser pecado, é a subversão da ordem que dá a Deus a precedência.
O seu mal
Ainda sem pecado, a imperfeição inverte o plano de Deus na criação. Se ela é já esse desmoronamento da ordem estabelecida, quanto mais terrível deve ser o pecado, que ofende a Deus tão profundamente.
A imperfeição é mais uma vez o grande mal, o mal essencial, o mal que devo evitar ao extremo, ao preço do meu sangue e da minha vida. Se compreendi o desígnio da minha criação e o fim da minha vida, devo estar convencido disso, e quase esmagado ao pensá-lo. Porque, na verdade, que fiz eu até agora? Se bebi a iniquidade como água, não respirei a imperfeição como o ar? Não entra ela na minha alma como o ar entra nos pulmões, a cada respiração?
Santa Catarina de Gênova conta que um dia Deus lhe deu uma visão clara de si mesma, isto é, das suas inclinações más contrárias ao amor puro. E compreendeu que teria preferido não existir a ofender o amor de Deus, não só pelo menor pecado, mas até pelo menor defeito.
Nada jamais me fez sondar tão fundo a malícia do pecado.
Quanto magis abominabilis et inutilis homo, qui bibit quasi aquam iniquitatem?
Quanto mais abominável e inútil é o homem, que bebe como água a iniquidade?
A imperfeição não é pecado, mas é subversão do plano de Deus, e é contínua: a vida não é feita de tentações, e sim de milhares de atos honestos, e é neles que dou a mim mesmo a precedência. Daí o assombro do capítulo: se isto já é a inversão da ordem da criação, o que será o pecado, que ofende a Deus formalmente.