Aos padres
O capítulo final aplica o princípio a um paradoxo conhecido: por que o ministério, que é todo espiritual, acaba afastando o sacerdote de Deus? A resposta recusa o modo habitual de tratar a questão. Não há reconciliação a fazer entre os exercícios de piedade e o ministério, porque eles não são inimigos; o que existe é um inimigo comum que se mete entre os dois e mata ambos, a busca de si e o olhar posto na criatura. Restabelecida a unidade, a oração alimenta o ministério e o ministério acende a oração, como se via nos santos, que passavam de um ao outro sem transição.
O duelo entre o ministério e os exercícios
Não é estranho paradoxo que um sacerdote seja atrapalhado na vida interior pelo trabalho do ministério? O ministério é essencialmente espiritual, trata apenas das coisas de Deus e das que levam a Deus. O dia inteiro entregue a ele, o sacerdote está ocupado com obra sobrenatural, e o efeito normal disso deveria ser uni-lo profunda e constantemente a Deus. Como acontece, então, que o mantenha à distância? Porque é impossível disfarçar que esse é o resultado comum demais hoje.
De onde vem esse antagonismo, quase um duelo de morte entre a piedade e o ministério, um matando o outro? Como podem contradizer-se duas coisas tão parecidas? Os conselhos se repetem ano após ano sobre essa questão capital sem chegar a conclusão satisfatória: recomenda-se ao sacerdote repartir cuidadosamente a parte de cada um e não deixar que um invada o domínio do outro. Nada é tão instável quanto esse equilíbrio artificial, porque repousa em convenção, não em princípio.
O que ele busca
Indo à raiz, não há reconciliação a estabelecer entre duas coisas que são absolutamente parecidas. Não seria mais sábio procurar um inimigo comum, que se mete entre elas, as divide e mata as duas? Porque o ministério não está em melhor situação que os exercícios: quando um sofre, o outro sofre junto.
Quando o olhar não é bastante simples, Deus já não é visto tão claramente nas almas, nem as almas em Deus, e a própria ideia da salvação a procurar assume um aspecto utilitário e humano, misturado a vantagens temporais cuja direção acaba apontando para a criatura.
Certamente o sacerdote não pode ficar alheio aos interesses do crescimento humano, já que a sua função é ordená-los a Deus, e não deve ignorar aquilo que tem de dirigir. Mas que tome cuidado, ao ocupar-se disso, para não acabar orientado para a criatura em vez de dirigir a criatura a Deus. Desde o momento em que olho para a criatura, é de espantar que eu ache o que estou procurando? Buscai e achareis.
Vem aqui uma observação de linguagem que denuncia o problema. Diz-se que os retiros servem para dar corda, e a expressão é significativa: quem precisa ser periodicamente montado de novo é porque está fora do caminho. Se estivéssemos na via única, não haveria corda a dar, apenas subida a fazer.
Destruir o inimigo comum
Não há reconciliação a fazer entre os exercícios de piedade e o ministério, porque eles não são inimigos: um não vive à custa do outro, nem precisa ser sacrificado ao outro. O que os mata é a busca de si e o olhar posto na criatura, e é isso que deve ser eliminado.
Haja unidade dentro; olhai para Deus, amai a Deus, buscai a Deus e a sua glória antes de tudo, tanto no ministério quanto nos exercícios. Quando se chega ao centro, vê-se como tudo converge para lá. O ministério fortalecerá os exercícios, e os exercícios estimularão o ministério: serão atos diversos da mesma obra.
Em vez de ser puxada em direções opostas, a alma passará de um ao outro sem choque, sem esforço e sem distração no sentido próprio da palavra. A oração será alimentada pelo ministério e o ministério aceso pela oração, e Deus será visto e achado tanto num quanto na outra.
Centro e circunferência
Portanto: olhar mais a Deus nas almas e mais as almas em Deus; buscar menos a própria satisfação; repousar em Deus, não em si nem nas criaturas. Ali está o centro, e para ele convergem todos os pontos do círculo. Esse único ponto é o vínculo de todos os demais; assim que se deixa o centro, acaba-se a união e a concentração.
Também na piedade há um só centro, um só ponto que atrai tudo, une tudo e liga tudo: a vista pura e simples de Deus e da sua glória. Se permaneço nesse ponto, a multiplicidade infinita dos pontos da circunferência, isto é, as inquietações múltiplas da criatura, termina toda em Deus. Nada me afasta dele, tudo me traz de volta.
Permanecei, permanecei no centro: então o ministério terá o mesmo efeito que a oração, cada ocupação externa será tão santificante quanto ela, e a alma será levada a Deus nas duas asas do trabalho e da oração.
Foi assim que os santos entenderam a coisa. Viam-se passar sem transição alguma da oração à ação e da ação à oração, quase sem diferença entre uma e outra, porque nas duas encontravam Deus: buscado e achado na sucessão necessária das ocupações diversas, mas na unidade de um só olhar.
A exortação
O capítulo termina em apelo direto. Sacerdotes de Deus, vede e ouvi: ali está o segredo da vossa força, o tesouro do vosso poder. Sede unidos e unificados em Deus, e nada poderá resistir-vos, porque tudo o que nasceu de Deus vence o mundo, e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé.
Hæc est victoria quæ vincit mundum, fides nostra.
Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.
Contra uma só alma unificada em Deus o mundo inteiro nada pode; sozinha, ela é mais forte que o mundo, e diante dela toda potência é impotente. Aprende onde está a sabedoria, onde está a força, onde está a inteligência, para saberes onde está a longura dos dias, o alimento da alma, a vitória e a paz.
A conclusão da Primeira Parte
Com este capítulo fecha-se o Livro IV e, com ele, a Primeira Parte, o Fim. O autor a remata com uma página de São Paulo, e é dela que se tiram as últimas palavras desta metade da obra. A Segunda Parte, o Caminho, começará perguntando quem há de traçar o caminho, e responderá que é a vontade de Deus.
Eis, diz ele, o que São Paulo chama o alvo da nossa vocação superior em Jesus Cristo, e só me resta lançar-me nessa carreira à maneira do grande Apóstolo: o que era para mim lucro, isso considerei perda por causa de Cristo, e tudo tenho por perda diante do conhecimento excelente de Jesus Cristo meu Senhor.
Unum autem: quæ quidem retro sunt obliviscens, ad ea vero quæ sunt priora extendens meipsum, ad destinatum persequor, ad bravium supernæ vocationis Dei in Christo Jesu.
Mas uma coisa faço: esquecendo o que fica para trás e lançando-me ao que está adiante, corro para o alvo, para o prêmio da vocação superior de Deus em Cristo Jesus.
E a nota final é de humildade, não de conquista: não que eu já tenha alcançado, nem que já seja perfeito, mas prossigo. Irmãos, não julgo tê-lo alcançado; uma coisa, porém, faço, esquecendo o que fica para trás, que é o secundário, e estendendo-me ao que está adiante, que é o principal.
O capítulo aplica ao sacerdote o que o Livro inteiro demonstrou, e por isso serve de fecho. O conflito entre oração e trabalho é falso: os dois adoecem juntos porque têm o mesmo inimigo, que é buscar-se a si mesmo. A solução não está em repartir horas, e sim em recuperar o centro, e o sinal de que se chegou lá é este: passar da oração à ação sem sentir a transição, porque em ambas se acha a mesma coisa. Assim se fecha a Primeira Parte, e o Apóstolo dá a última palavra: não que eu já tenha alcançado, mas prossigo.