O crescimento
Eliminado o pecado mortal, a alma volta à ordem e percorre a primeira etapa da ascensão, o despertar. Começa então a segunda, o crescimento, cujo mal a combater já não é a exclusão de Deus, e sim a dominação do humano sobre o divino. Esta etapa tem dois nomes conforme o lado que se olhe: vida ascética, pelo esforço humano de desprender-se, e via iluminativa, pelos dons divinos que infundem na alma as luzes eternas. A dominação tem dois graus, o pecado venial e a imperfeição, e é a eliminação desse duplo mal que ocupa todo o Livro III.
Onde a alma já chegou
A eliminação do pecado mortal restabelece na alma as bases da ordem e traz de volta à vida, à família e ao Pai do céu. Quando a alma está forte o bastante para manter-se habitualmente em estado de graça, a sua vida é fundamentalmente cristã: está superado o grau mais negro da desordem, a exclusão da glória divina, e percorrida a primeira etapa da ascensão, o despertar, que é o reencontro com Deus.
Começa então a segunda etapa, a do crescimento. O mal a combater já não é a exclusão, e sim a dominação do humano sobre o divino: o caráter enganoso de certas preferências terrenas que dominam e, por isso mesmo, perturbam e diminuem a glória divina.
Dois nomes para a mesma etapa
Esta parte do percurso recebe dois nomes, conforme o lado que se olhe. Chamá-la vida ascética, que quer dizer práticas de vida, é considerar sobretudo o lado humano, o esforço de desprender-se do humano e buscar o divino por penitência e oração. Chamá-la via iluminativa é pôr a ênfase no lado divino, nos dons que infundem na alma as luzes eternas.
A escolha do nome não muda a coisa nomeada. O propósito aqui não é medir o esforço humano nem definir os dons divinos, as duas forças que juntas impulsionam a vida, mas acompanhar a vida em si mesma, nas suas paradas e nos seus avanços.
O mal deste livro
Do ponto de vista do que impede a vida de avançar, esta etapa chama-se dominação do humano; do ponto de vista do que a impulsiona, chama-se crescimento. São o mesmo trecho do caminho, visto pelo obstáculo ou pela força.
O caráter enganoso de certas preferências terrenas que dominam e, por isso mesmo, perturbam e diminuem a glória divina. Tem dois graus, o pecado venial e a imperfeição, e o crescimento consiste em eliminar esse duplo mal.
A dominação tem dois graus, o pecado venial e a imperfeição. O crescimento consistirá, portanto, na eliminação desse duplo mal, e é esse mal e essa eliminação o objeto deste Livro Terceiro.
O plano do livro
Nove capítulos, repartidos entre o segundo e o terceiro graus da piedade. O primeiro fecha a fuga do pecado venial; os oito seguintes tratam da imperfeição, primeiro no mal que ela é, depois no bem que a corrige, e por fim na reparação.
Nota do editor. A tradução inglesa dá onze capítulos a este livro, porque nela «O estado de perfeição» e «A perfeição e o sacrifício» fecham o Livro III. A edição brasileira, seguida aqui, transfere os dois para o Livro IV, onde se tratam do quarto grau da piedade. Fora isso, a correspondência é exata. Pela mesma razão, o capítulo 5 daqui, chamado «Perfection» na inglesa, trata na edição brasileira da retidão da vida.
Concordância entre as duas edições
A divisão seguida aqui é a da edição brasileira. Para quem consulta a tradução inglesa, que é a fonte de texto deste caderno, vale a equivalência abaixo: do capítulo 6 em diante há dois números de diferença, porque os dois capítulos da perfeição saíram daqui para o Livro IV.
Vencida a exclusão, resta a dominação: as preferências terrenas que não expulsam Deus, mas o põem em segundo lugar. Ela tem dois graus, o pecado venial e a imperfeição, e eliminá-los é o que se chama crescimento, ou vida ascética pelo lado do esforço, ou via iluminativa pelo lado dos dons.