A ordem essencial da criação
O capítulo recapitula todo o Livro I numa escada de quatro degraus: a glória de Deus, a minha felicidade nela, os bens criados como instrumentos, o prazer que facilita o seu uso. Depois contempla essa ordem em duas direções: a minha grandeza, porque tudo é meu; e a minha grandeza maior, porque eu sou de Deus.
A recapitulação: os quatro degraus
Eis, então, a ordem essencial da criação, reunindo tudo o que os capítulos anteriores estabeleceram:
Tal é a ordem essencial da minha criação, tal a regra suprema da minha vida.
A escada de quatro degraus que resume o Livro I: a glória de Deus, a minha felicidade nela, os bens criados que servem às duas, e o prazer que facilita o serviço.
Quaerite primum regnum Dei
Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. O que são o reino de Deus e a sua justiça? A glória de Deus, e a minha felicidade nela: o fim, duplo e uno, para o qual a minha vida deve dirigir-se. Sou obrigado a tender para ele, pois o Senhor manda formalmente que o busque; e manda que o busque antes de tudo, em primeiro lugar. E não separa o reino da justiça, porque a minha felicidade está unida à imensidade da glória.
As outras coisas são meios, o múltiplo e o contingente, e devem servir ao fim. Santo Agostinho comenta: o reino e a justiça de Deus são o nosso bem, é a eles que devemos desejar, é por eles que devemos fazer tudo o que fazemos; mas esta vida é a batalha pela qual se abre caminho até aquele reino, e esta vida está sujeita a necessidades. Quanto a essas necessidades, diz o Senhor, tudo vos será dado em abundância; vós, buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça. Primeiro aquilo, depois isto: depois, não na ordem do tempo, mas na ordem da dignidade; aquilo é o meu bem, isto a minha necessidade; e a necessidade existe em vista do bem.
A minha grandeza: tudo é meu
Nessa ordem vejo a minha grandeza. Tudo é vosso, diz São Paulo: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes, as futuras; tudo é vosso, e vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus. Tudo é meu, neste mundo, na vida ou na morte, no tempo ou na eternidade; tudo é para mim. E o salmo pergunta com assombro: que é o homem, Senhor, para que o tenhas posto sobre as obras das tuas mãos? Tudo sujeitaste debaixo de seus pés. Eis a minha dignidade: fui posto acima de todas as coisas, dono de todas, senhor de todas. Deus criou tudo para mim e pôs tudo à minha disposição.
A grandeza maior: eu sou de Deus
E contudo esse é apenas o lado menor da minha grandeza. Eu sou de Deus, e sou para Deus: eis a minha verdadeira grandeza. Deus quer elevar-me a si, unir-me a si, fazer-me participar da sua glória. Fora de Deus, nada é grande o bastante para ser o meu fim. Ele mesmo está infinitamente acima de mim, e quer que eu suba até Ele na medida em que me for dado alcançá-lo. Aí está todo o objeto da minha vida: ir a Deus, usando as suas criaturas.
Como o homem é grande nos pensamentos de Deus, e como é pequeno nos seus próprios. Cumulado de todas essas honras, nunca as compreendeu: rebaixou-se ao nível das criaturas sem razão e tornou-se semelhante a elas. E quando eu enfim compreender a minha dignidade, saberei estimá-la o bastante para nunca mais rebaixá-la? Chamado a subir para Deus, como poderei descer ao nível do bruto?
Todo o objeto da minha vida: ir a Deus, usando as suas criaturas.
Quaerite ergo primum regnum Dei, et justitiam ejus: et haec omnia adjicientur vobis.
Buscai, pois, primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
Quatro degraus: a glória de Deus, a minha felicidade nela, as criaturas que servem, o prazer que facilita. Tudo é meu, mas eu sou de Deus.