A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IICap. 2
Segunda Parte · O Caminho · Livro II · Capítulo 2 · Resumo

Sua finalidade

Essência

Se Deus age em mim, não age por agir: a ação tem efeito porque tem finalidade. E a finalidade se desdobra em dois níveis que convém não confundir. Há uma ideia eterna, que é a mesma do primeiro dia e governou a minha criação, que eu viva por ele, para ele e nele; e há, em cada acontecimento, um desejo particular, que é assentar no edifício da minha vida exatamente a pedra que o plano pede agora. Deus conhece o estado atual da obra e o que falta nela, e age em cada evento conforme a docilidade ou a resistência que encontra. Daí o verbo do Salmo, que o capítulo toma como título: ipse faciet, ele mesmo fará.

Deus não age por agir: a ação tem finalidade
em si ela é passageira, como um relâmpago
mas dentro dela há um germe de eternidade
porque a ideia que a move é eterna
e em cada evento há um desejo particular
que é assentar a pedra de que o plano precisa hoje

A ação de Deus não é jogo

O capítulo começa reconhecendo que já é muito ter intuições que fazem pressentir a ação de Deus nos acontecimentos de fora e de dentro. Mas é possível e é bom entrar mais fundo, e o primeiro passo é negativo: se Deus age em mim, não é pelo simples gosto de agir. A ação dele não é jogo passageiro e sem fruto: ela é destinada a produzir efeito, e produz efeito porque tem finalidade.

Em si mesma, no entanto, ela é transitória. Alguns toques de Deus são como relâmpagos, e os que duram mais tempo têm um alvo. A minha vida é uma sucessão ininterrupta de ocorrências que mudam sem cessar, e é nelas que a ação do beneplácito se desenrola a meu respeito. Daí a primeira obrigação, que é de flexibilidade: tenho de me ajustar a uma ação fugitiva, mutável e múltipla, aprendendo a conhecê-la, a reconhecê-la, a acolhê-la e a submeter-me a ela.

A ideia é eterna

Mas devo parar nesse lado transitório? Não. O que passa, passa, e passa para ir à eternidade. Além do lado temporal existe o eterno, e nessa ação que passa como o tempo em que acontece há um germe de eternidade. Porque quando age, Deus sempre tem um desejo e uma ideia: age porque é impelido pelo desejo de realizar a ideia. Se quero acompanhar a ação dele, convém saber que desejo o move; e para chegar ao desejo é preciso chegar ao que ele pensa. A ideia é o que é eterno.

A ideia eterna a meu respeitoa mesma que governou a minha criação

Que eu viva: viva por ele, para ele e nele. Isto é, que eu cresça até a plena medida de conhecimento, de amor e de ser para a qual fui criado, e segundo a qual ele quer que eu o glorifique no corpo dos eleitos e encontre a felicidade nele mesmo. A ideia é realizar essa construção do meu ser na caridade, formando o todo uno e vivo que se chama piedade.

Nota bene

Não é ideia nova: é a mesma do capítulo preliminar da Primeira Parte, onde o fim da criação foi estabelecido. O que este capítulo acrescenta é a permanência, e ela é absoluta. Em nenhum instante, e em nenhuma das suas operações a meu respeito, ele se desvia dessa ideia, cuja realização persegue por todos os meios e em cada encontro que tem comigo.

O desejo é de hoje

A ideia é geral, porque abrange a vida toda e compreende o plano inteiro; é ela que inspira, dirige e encadeia os acontecimentos da existência. Mas no detalhe, em cada evento e em cada momento, há um desejo particular, e é ele que determina e marca a extensão da ação especial de Deus naquela hora.

O desejo é assentar no edifício da minha vida a pedra que ali é necessária naquele momento, a pedra que o plano exige conforme o estado atual da construção.

Que pedra pode ser, conforme a faculdade
Na inteligênciauma visão a ser corrigida, ou criada, ou completada
No coraçãoum hábito a emendar ou a extirpar, uma virtude a despertar ou a fortalecer
Nos sentidosuma purificação a fazer, ou uma energia a ser exercida

E Deus conhece bem o estado atual da minha piedade e o que falta nela: vê o que deve ser feito e o que pode ser feito. Os santos usam uma palavra forte para descrever o que se segue disso, e o capítulo a adota: ele anseia, quer, e é atormentado pelo desejo de levar a sua obra à conclusão. Impelido por esse anseio, age em cada acontecimento, procedendo conforme a maleabilidade ou a resistência que eu lhe ofereço.

Nota bene

Vale reparar na dupla condicional escondida na última frase. Deus vê o que deve ser feito, e vê o que pode ser feito, e as duas coisas não coincidem. O que as separa é a resistência, e é sobre ela que o capítulo termina lamentando: se ele fosse sempre livre para encontrar em mim a sua satisfação.

Ipse faciet

A última seção não tem título em português: tem duas palavras de latim, tiradas do Salmo, e o capítulo se detém no verbo.

Revela Domino viam tuam, et spera in eo, et ipse faciet.

Entrega ao Senhor o teu caminho, espera nele, e ele mesmo agirá.

Salmo 36, 5 (Vulgata Clementina)

Ele fará. O verbo é absoluto e não tem objeto que lhe estreite o alcance ou lhe limite a aplicação. Ele fará, não isto ou aquilo, não agora ou em outra hora, mas tudo e sempre: tudo, isto é, toda a sua obra, que é dele, na plenitude que lhe convém. E a obra dele, a sua obra própria, é a vida: a vida vem dele, e é a vida que ele fará acontecer.

Depois o capítulo se demora no pronome. Ele fará ele mesmo: ocupar-se-á disso, tomará a coisa como sua, levará ao cabo, começando e completando. Tem a ideia, tem o desejo, e age. E a prova de quanto essa operação é poderosa, quando não se lhe opõe estorvo, é a vida dos santos.

Pontos-chave
Se Deus age em mim, não age pelo gosto de agir: a ação tem efeito porque tem finalidade.
Em si mesma ela é transitória: alguns toques são como relâmpagos.
A vida é uma sucessão ininterrupta de ocorrências em que o beneplácito se desenrola.
A minha obrigação diante disso é de flexibilidade: conhecer, reconhecer, acolher, submeter-me.
Não devo parar no lado transitório: nele há um germe de eternidade.
Quando age, Deus tem sempre um desejo e uma ideia, e age impelido pelo desejo de realizar a ideia.
A ideia é o que é eterno, e é a mesma que governou a minha criação.
A ideia é que eu viva: por ele, para ele e nele, até a plena medida para a qual fui criado.
Em nenhum instante e em nenhuma operação ele se desvia dessa ideia.
Mas em cada evento há um desejo particular, que mede a extensão da ação daquela hora.
O desejo é assentar a pedra que o plano pede conforme o estado atual da construção.
A pedra pode estar na inteligência, no coração ou nos sentidos.
Deus conhece o estado da minha piedade e o que falta nela.
Ele anseia e é atormentado pelo desejo de concluir a obra.
E age conforme a maleabilidade ou a resistência que encontra.
Ipse faciet: ele fará, e o verbo é absoluto, sem objeto que o limite.
Fará tudo e sempre, e a obra dele é a vida.
Fará ele mesmo: tem a ideia, tem o desejo, e age.
A prova do poder dessa operação é a vida dos santos.
Termos
A ideia
o desígnio eterno de Deus a meu respeito, geral porque abrange a vida inteira; é a mesma que governou a minha criação.
O desejo
a determinação particular daquela hora, que mede a extensão da ação divina em cada acontecimento.
A pedra
a imagem do que o desejo pretende assentar agora: a correção, o hábito, a virtude ou a purificação de que a obra precisa neste ponto.
Maleabilidade e resistência
o que separa, na prática, aquilo que deve ser feito daquilo que pode ser feito.
Ipse faciet
ele mesmo fará. Verbo sem objeto, no Salmo 36, 5: não isto ou aquilo, e sim tudo e sempre.
Para reter

Guardar a distinção entre a ideia e o desejo, porque ela muda o modo de olhar o dia. A ideia é eterna e não muda: é a mesma do primeiro dia, que eu viva por ele, para ele e nele. O desejo é de hoje e muda a cada acontecimento: é a pedra de que a obra precisa agora. Olhar o que está acontecendo como pedra, e não como acidente, é o que este capítulo pede. E guardar a frase incômoda que está no meio: Deus vê o que deve ser feito e o que pode ser feito, e o que separa as duas coisas é a resistência que eu ofereço.

Fonte · Segunda Parte, Livro II, capítulo 2
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