Sua finalidade
Se Deus age em mim, não age por agir: a ação tem efeito porque tem finalidade. E a finalidade se desdobra em dois níveis que convém não confundir. Há uma ideia eterna, que é a mesma do primeiro dia e governou a minha criação, que eu viva por ele, para ele e nele; e há, em cada acontecimento, um desejo particular, que é assentar no edifício da minha vida exatamente a pedra que o plano pede agora. Deus conhece o estado atual da obra e o que falta nela, e age em cada evento conforme a docilidade ou a resistência que encontra. Daí o verbo do Salmo, que o capítulo toma como título: ipse faciet, ele mesmo fará.
A ação de Deus não é jogo
O capítulo começa reconhecendo que já é muito ter intuições que fazem pressentir a ação de Deus nos acontecimentos de fora e de dentro. Mas é possível e é bom entrar mais fundo, e o primeiro passo é negativo: se Deus age em mim, não é pelo simples gosto de agir. A ação dele não é jogo passageiro e sem fruto: ela é destinada a produzir efeito, e produz efeito porque tem finalidade.
Em si mesma, no entanto, ela é transitória. Alguns toques de Deus são como relâmpagos, e os que duram mais tempo têm um alvo. A minha vida é uma sucessão ininterrupta de ocorrências que mudam sem cessar, e é nelas que a ação do beneplácito se desenrola a meu respeito. Daí a primeira obrigação, que é de flexibilidade: tenho de me ajustar a uma ação fugitiva, mutável e múltipla, aprendendo a conhecê-la, a reconhecê-la, a acolhê-la e a submeter-me a ela.
A ideia é eterna
Mas devo parar nesse lado transitório? Não. O que passa, passa, e passa para ir à eternidade. Além do lado temporal existe o eterno, e nessa ação que passa como o tempo em que acontece há um germe de eternidade. Porque quando age, Deus sempre tem um desejo e uma ideia: age porque é impelido pelo desejo de realizar a ideia. Se quero acompanhar a ação dele, convém saber que desejo o move; e para chegar ao desejo é preciso chegar ao que ele pensa. A ideia é o que é eterno.
Que eu viva: viva por ele, para ele e nele. Isto é, que eu cresça até a plena medida de conhecimento, de amor e de ser para a qual fui criado, e segundo a qual ele quer que eu o glorifique no corpo dos eleitos e encontre a felicidade nele mesmo. A ideia é realizar essa construção do meu ser na caridade, formando o todo uno e vivo que se chama piedade.
Não é ideia nova: é a mesma do capítulo preliminar da Primeira Parte, onde o fim da criação foi estabelecido. O que este capítulo acrescenta é a permanência, e ela é absoluta. Em nenhum instante, e em nenhuma das suas operações a meu respeito, ele se desvia dessa ideia, cuja realização persegue por todos os meios e em cada encontro que tem comigo.
O desejo é de hoje
A ideia é geral, porque abrange a vida toda e compreende o plano inteiro; é ela que inspira, dirige e encadeia os acontecimentos da existência. Mas no detalhe, em cada evento e em cada momento, há um desejo particular, e é ele que determina e marca a extensão da ação especial de Deus naquela hora.
O desejo é assentar no edifício da minha vida a pedra que ali é necessária naquele momento, a pedra que o plano exige conforme o estado atual da construção.
E Deus conhece bem o estado atual da minha piedade e o que falta nela: vê o que deve ser feito e o que pode ser feito. Os santos usam uma palavra forte para descrever o que se segue disso, e o capítulo a adota: ele anseia, quer, e é atormentado pelo desejo de levar a sua obra à conclusão. Impelido por esse anseio, age em cada acontecimento, procedendo conforme a maleabilidade ou a resistência que eu lhe ofereço.
Vale reparar na dupla condicional escondida na última frase. Deus vê o que deve ser feito, e vê o que pode ser feito, e as duas coisas não coincidem. O que as separa é a resistência, e é sobre ela que o capítulo termina lamentando: se ele fosse sempre livre para encontrar em mim a sua satisfação.
Ipse faciet
A última seção não tem título em português: tem duas palavras de latim, tiradas do Salmo, e o capítulo se detém no verbo.
Revela Domino viam tuam, et spera in eo, et ipse faciet.
Entrega ao Senhor o teu caminho, espera nele, e ele mesmo agirá.
Ele fará. O verbo é absoluto e não tem objeto que lhe estreite o alcance ou lhe limite a aplicação. Ele fará, não isto ou aquilo, não agora ou em outra hora, mas tudo e sempre: tudo, isto é, toda a sua obra, que é dele, na plenitude que lhe convém. E a obra dele, a sua obra própria, é a vida: a vida vem dele, e é a vida que ele fará acontecer.
Depois o capítulo se demora no pronome. Ele fará ele mesmo: ocupar-se-á disso, tomará a coisa como sua, levará ao cabo, começando e completando. Tem a ideia, tem o desejo, e age. E a prova de quanto essa operação é poderosa, quando não se lhe opõe estorvo, é a vida dos santos.
Guardar a distinção entre a ideia e o desejo, porque ela muda o modo de olhar o dia. A ideia é eterna e não muda: é a mesma do primeiro dia, que eu viva por ele, para ele e nele. O desejo é de hoje e muda a cada acontecimento: é a pedra de que a obra precisa agora. Olhar o que está acontecendo como pedra, e não como acidente, é o que este capítulo pede. E guardar a frase incômoda que está no meio: Deus vê o que deve ser feito e o que pode ser feito, e o que separa as duas coisas é a resistência que eu ofereço.