A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IVCap. 8
Primeira Parte · O Fim · Livro IV · Capítulo 8 · Resumo · A unidade

A unidade

Essência

Começa o resumo de toda a Primeira Parte, e o primeiro fruto do princípio que a governa é a unidade. Espírito de fé, amor de Deus, zelo, pureza de intenção, conformidade, humildade, abnegação e mortificação são conclusões desse único princípio, e quem chega à sua luz plena recebe a chave de toda a doutrina espiritual. Da unidade nascem a simplicidade, que desfaz o emaranhado das práticas devocionais, e a força, porque a fraqueza vem da divisão. E o capítulo desce ao diagnóstico: três lutas dividem o homem, com Deus, com os outros e consigo mesmo, e nada há em nós que dê unidade, porque o pensamento de Deus virou apenas mais um fragmento entre outros.

um só princípio governa toda a vida espiritual
dele nasce a unidade de pensamento e de esforço
da unidade nascem simplicidade e força
a fraqueza, ao contrário, vem da divisão
e a divisão tem três frentes dentro de nós

Um princípio, e tudo o mais decorre

É no primeiro princípio da criação que está o fundamento real da vida espiritual, e sobre ele repousa inteiro o edifício da santidade. Tanto as consequências últimas do heroísmo mais perfeito quanto os primeiros passos da fuga do pecado são conclusões desse princípio. É o centro de tudo, e a ele se reduzem todas as verdades, mesmo as que parecem mais fundamentais.

Não custa ver que o espírito de fé, o amor de Deus, o zelo, a pureza de intenção, a conformidade com a vontade divina, a humildade, a abnegação e a mortificação são conclusões ou aplicações desse único princípio.

Quem chega à luz plena desta verdade, que é mãe e mestra de todas as outras, parece ter subido ao alto do monte de Deus, e dessa altura começa a compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade. Nenhuma outra verdade é tão geral, tão universal e tão central: ela dá a chave de toda a doutrina espiritual. Sem ela, fico preso a alguma verdade particular, mais ou menos importante, que nunca poderá ser o todo da minha vida interior.

Ut possitis comprehendere cum omnibus sanctis, quæ sit latitudo, et longitudo, et sublimitas, et profundum.

Para que possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade.

Efésios 3, 18

O primeiro fruto: a unidade

Unidadeo conceito central do capítulo

Unidade de pensamento, de aspiração, de esforço, de vida inteira, porque toda ela se dirige a um só fim. É o primeiro fruto colhido do princípio único.

A simplicidade

A unidade gera simplicidade, porque unidade de vista implica unidade de caminho e de meios. Desaparecem assim as complicações múltiplas das práticas devocionais e os detalhes incoerentes e fatigantes dos exercícios, em cujo labirinto a alma não encontra direção, luz nem vida.

Como é complicada uma piedade mal instruída, e como é simples a verdadeira.

A força

O mais belo fruto da unidade é a força, porque a grande fonte da fraqueza interior é a perturbação e a divisão. Todo reino dividido contra si mesmo será devastado. A alma dispersa entre mil inquietações dos sentidos consome as suas forças no varejo e as desperdiça; concentradas na unidade e em Deus, que força não têm.

Omne regnum in seipsum divisum desolabitur.

Todo reino dividido contra si mesmo será devastado.

Lucas 11, 17

Nenhuma potência se compara à de uma alma unificada na visão, no amor e na busca de Deus. Primeiro vem a força inicial que nasce da simples reunião de todas as potências: quando a inteligência, a vontade, as paixões e as forças do corpo se concentram e como que se comprimem sobre o mesmo objeto, nenhum poder terreno se lhe compara. E quando essa força é reforçada pela de Deus, porque concentrando-se em Deus o homem adquire a força de Deus, já não espanta o ascendente prodigioso dos santos, nem a potência da sua oração e da sua ação.

Buscai o Senhor e sede fortalecidos; buscai sempre a sua face. Buscai a Deus, e a vossa alma viverá.

A divisão

Não é preciso procurar mais longe a espantosa fraqueza do bem entre nós. Se é verdade dizer que a força dos maus é a fraqueza dos bons, de onde vem essa fraqueza? Da divisão e da falta de unidade.

E não apenas da divisão que separa um homem de outro, impedindo qualquer unidade de vista, coesão de vontade e concentração de esforço. Essa é apenas produto de outra, mais profunda e mais lamentável: a divisão que existe no fundo de cada alma.

Nota bene

A frase que se segue é uma das mais impressionantes do Livro, e vale como método de leitura do mundo: muitas vezes basta entrar no estado interior de uma só alma para avaliar o estado da sociedade, porque o estado geral da sociedade é apenas a reprodução exterior, em esfera mais baixa, do que se passa na região mais alta da piedade.

As três lutas

Contra Deus

Considerei a minha alma, e que encontrei nela? Os meus gostos e caprichos como regra prática dos meus pensamentos, das minhas decisões e da minha conduta. Ora, o que me convém não é a regra que Deus segue no governo do universo, e por esse fato estou dividido de Deus no pensamento, na vontade e na ação.

Contra os outros

O que me convém também não é a regra dos meus semelhantes. Cada um tem os seus caprichos e as suas ideias, e se cada um encontra em si mesmo a sua regra, o resultado é divisão universal de pensamento, de resolução e de esforço.

Contra mim mesmo

E o que me convém não é sequer a regra da minha própria vida, porque os meus gostos são instáveis: os caprichos do momento não duram, as necessidades do corpo não são as da alma, as manifestações da paixão se cruzam e se multiplicam sem fim. Além disso, os caprichos me lançam para fora de mim, atrás da criatura e das suas divergências infinitamente multiplicadas.

A alma se esvai por todos os poros: é um fole cheio de furos, um poço que verte por todas as pedras, uma máquina desregulada em cada peça. Estou dividido e em luta comigo mesmo.

Nada que dê unidade

Onde está o pensamento de Deus para governar e concentrar todas essas ideias? O amor de Deus para governar todas essas afeições? A busca de Deus para governar todas essas ações? O pensamento, o amor e a busca de Deus não passam de um pequeno setor, que ocupa o seu lugar entre os demais fragmentos que compõem a vida, e que trabalha e luta com eles, sem ser muito mais do que eles. Isto é divisão sem fim, e multiplicação da fraqueza até o último grau.

Díptico em estilo de manuscrito iluminado. À esquerda, sob o título Deus como centro, uma roseira de medalhões, o estudo, a família, o trabalho, o pão, a oração e a esmola, dispostos em torno de Cristo entronizado, de quem partem raios de ouro que unem todas as cenas; embaixo, um homem ajoelhado contempla o conjunto, e a legenda diz unidade, simplicidade, força. À direita, sob o título Deus como uma parte, as mesmas cenas aparecem em fragmentos de pedra rachada, dispersos e ligados por cordas emaranhadas que um homem de costas tenta segurar; a oração é apenas mais um dos fragmentos, do mesmo tamanho dos outros, e a legenda diz divisão, dispersão, fraqueza.
Os dois estados que este capítulo compara. À esquerda, o mesmo material da vida ordenado em torno de um só centro; à direita, o mesmo material, e o pensamento de Deus reduzido a um fragmento entre os demais, do tamanho deles, disputando espaço com eles.
Ilustração do oratório · clique para ampliar
O que a divisão produz
Em cada umdesunião e impotência, com esforços que não rendem sobre si mesmo
Em todoso mesmo estado, porque o de todos é apenas o de cada um reproduzido
A queixafaço muitos esforços e ando sempre para trás; trabalha-se muito pela sociedade, e ela recua todos os dias

E o capítulo termina em súplica: ó piedade, unidade divina, devolve-nos os degraus ascendentes da vida, e cumpra-se em mim e em todos a promessa do profeta, que a glória de Deus recolha, restaure e contenha na unidade toda a nossa vida.

Pontos-chave
O primeiro princípio da criação é o fundamento real da vida espiritual, e nele repousa todo o edifício.
Tanto o heroísmo mais alto quanto a simples fuga do pecado são conclusões desse princípio.
Fé, amor, zelo, pureza de intenção, conformidade, humildade e mortificação são aplicações dele.
Chegar à sua luz plena é subir ao alto do monte e receber a chave de toda a doutrina espiritual.
Sem ele, prende-se a alma a alguma verdade particular, que nunca poderá ser o todo da vida interior.
O primeiro fruto é a unidade: de pensamento, de aspiração, de esforço e de vida.
A unidade gera simplicidade, e com ela caem as complicações das práticas devocionais.
Como é complicada uma piedade mal instruída, e como é simples a verdadeira.
O mais belo fruto é a força, porque a fraqueza interior nasce da divisão.
Concentradas as potências sobre o mesmo objeto, nenhum poder terreno se compara.
Concentrando-se em Deus, o homem adquire a força de Deus: daí o ascendente dos santos.
A fraqueza do bem vem da divisão entre os homens, e esta, da divisão dentro de cada alma.
Basta entrar no interior de uma só alma para avaliar o estado da sociedade.
Primeira luta: o que me convém não é a regra de Deus.
Segunda luta: o que me convém não é a regra dos outros, e daí a divisão universal.
Terceira luta: os meus gostos são instáveis, e a alma se esvai como fole furado.
Nada dá unidade enquanto o pensamento de Deus for apenas mais um fragmento entre outros.
Termos
Unidade
o primeiro fruto do princípio único: um só fim governando pensamento, afeto e ação.
Simplicidade
a consequência da unidade: um só caminho e poucos meios, contra o emaranhado da devoção mal instruída.
Força
o efeito da concentração das potências num só objeto, reforçada pela força de Deus.
Divisão
a fonte da fraqueza; começa dentro da alma e se reproduz na sociedade.
As três lutas
a divisão com Deus, com os semelhantes e consigo mesmo, todas nascidas de tomar o próprio gosto por regra.
Para reter

Este capítulo é o resumo da Primeira Parte pelo lado da causa: tudo o que se estudou até aqui decorre de um princípio só, e é por isso que a vida espiritual bem entendida é simples. O que rouba força não é a falta de esforço, e sim a divisão, que começa em tomar o próprio gosto por regra e se ramifica em três frentes. A fórmula a guardar: a alma dividida gasta as forças no varejo; concentrada em Deus, recebe a força de Deus.

Fonte · Primeira Parte, Livro IV, capítulo 8
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