A unidade
Começa o resumo de toda a Primeira Parte, e o primeiro fruto do princípio que a governa é a unidade. Espírito de fé, amor de Deus, zelo, pureza de intenção, conformidade, humildade, abnegação e mortificação são conclusões desse único princípio, e quem chega à sua luz plena recebe a chave de toda a doutrina espiritual. Da unidade nascem a simplicidade, que desfaz o emaranhado das práticas devocionais, e a força, porque a fraqueza vem da divisão. E o capítulo desce ao diagnóstico: três lutas dividem o homem, com Deus, com os outros e consigo mesmo, e nada há em nós que dê unidade, porque o pensamento de Deus virou apenas mais um fragmento entre outros.
Um princípio, e tudo o mais decorre
É no primeiro princípio da criação que está o fundamento real da vida espiritual, e sobre ele repousa inteiro o edifício da santidade. Tanto as consequências últimas do heroísmo mais perfeito quanto os primeiros passos da fuga do pecado são conclusões desse princípio. É o centro de tudo, e a ele se reduzem todas as verdades, mesmo as que parecem mais fundamentais.
Não custa ver que o espírito de fé, o amor de Deus, o zelo, a pureza de intenção, a conformidade com a vontade divina, a humildade, a abnegação e a mortificação são conclusões ou aplicações desse único princípio.
Quem chega à luz plena desta verdade, que é mãe e mestra de todas as outras, parece ter subido ao alto do monte de Deus, e dessa altura começa a compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade. Nenhuma outra verdade é tão geral, tão universal e tão central: ela dá a chave de toda a doutrina espiritual. Sem ela, fico preso a alguma verdade particular, mais ou menos importante, que nunca poderá ser o todo da minha vida interior.
Ut possitis comprehendere cum omnibus sanctis, quæ sit latitudo, et longitudo, et sublimitas, et profundum.
Para que possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade.
O primeiro fruto: a unidade
Unidade de pensamento, de aspiração, de esforço, de vida inteira, porque toda ela se dirige a um só fim. É o primeiro fruto colhido do princípio único.
A simplicidade
A unidade gera simplicidade, porque unidade de vista implica unidade de caminho e de meios. Desaparecem assim as complicações múltiplas das práticas devocionais e os detalhes incoerentes e fatigantes dos exercícios, em cujo labirinto a alma não encontra direção, luz nem vida.
Como é complicada uma piedade mal instruída, e como é simples a verdadeira.
A força
O mais belo fruto da unidade é a força, porque a grande fonte da fraqueza interior é a perturbação e a divisão. Todo reino dividido contra si mesmo será devastado. A alma dispersa entre mil inquietações dos sentidos consome as suas forças no varejo e as desperdiça; concentradas na unidade e em Deus, que força não têm.
Omne regnum in seipsum divisum desolabitur.
Todo reino dividido contra si mesmo será devastado.
Nenhuma potência se compara à de uma alma unificada na visão, no amor e na busca de Deus. Primeiro vem a força inicial que nasce da simples reunião de todas as potências: quando a inteligência, a vontade, as paixões e as forças do corpo se concentram e como que se comprimem sobre o mesmo objeto, nenhum poder terreno se lhe compara. E quando essa força é reforçada pela de Deus, porque concentrando-se em Deus o homem adquire a força de Deus, já não espanta o ascendente prodigioso dos santos, nem a potência da sua oração e da sua ação.
Buscai o Senhor e sede fortalecidos; buscai sempre a sua face. Buscai a Deus, e a vossa alma viverá.
A divisão
Não é preciso procurar mais longe a espantosa fraqueza do bem entre nós. Se é verdade dizer que a força dos maus é a fraqueza dos bons, de onde vem essa fraqueza? Da divisão e da falta de unidade.
E não apenas da divisão que separa um homem de outro, impedindo qualquer unidade de vista, coesão de vontade e concentração de esforço. Essa é apenas produto de outra, mais profunda e mais lamentável: a divisão que existe no fundo de cada alma.
A frase que se segue é uma das mais impressionantes do Livro, e vale como método de leitura do mundo: muitas vezes basta entrar no estado interior de uma só alma para avaliar o estado da sociedade, porque o estado geral da sociedade é apenas a reprodução exterior, em esfera mais baixa, do que se passa na região mais alta da piedade.
As três lutas
Contra Deus
Considerei a minha alma, e que encontrei nela? Os meus gostos e caprichos como regra prática dos meus pensamentos, das minhas decisões e da minha conduta. Ora, o que me convém não é a regra que Deus segue no governo do universo, e por esse fato estou dividido de Deus no pensamento, na vontade e na ação.
Contra os outros
O que me convém também não é a regra dos meus semelhantes. Cada um tem os seus caprichos e as suas ideias, e se cada um encontra em si mesmo a sua regra, o resultado é divisão universal de pensamento, de resolução e de esforço.
Contra mim mesmo
E o que me convém não é sequer a regra da minha própria vida, porque os meus gostos são instáveis: os caprichos do momento não duram, as necessidades do corpo não são as da alma, as manifestações da paixão se cruzam e se multiplicam sem fim. Além disso, os caprichos me lançam para fora de mim, atrás da criatura e das suas divergências infinitamente multiplicadas.
A alma se esvai por todos os poros: é um fole cheio de furos, um poço que verte por todas as pedras, uma máquina desregulada em cada peça. Estou dividido e em luta comigo mesmo.
Nada que dê unidade
Onde está o pensamento de Deus para governar e concentrar todas essas ideias? O amor de Deus para governar todas essas afeições? A busca de Deus para governar todas essas ações? O pensamento, o amor e a busca de Deus não passam de um pequeno setor, que ocupa o seu lugar entre os demais fragmentos que compõem a vida, e que trabalha e luta com eles, sem ser muito mais do que eles. Isto é divisão sem fim, e multiplicação da fraqueza até o último grau.

E o capítulo termina em súplica: ó piedade, unidade divina, devolve-nos os degraus ascendentes da vida, e cumpra-se em mim e em todos a promessa do profeta, que a glória de Deus recolha, restaure e contenha na unidade toda a nossa vida.
Este capítulo é o resumo da Primeira Parte pelo lado da causa: tudo o que se estudou até aqui decorre de um princípio só, e é por isso que a vida espiritual bem entendida é simples. O que rouba força não é a falta de esforço, e sim a divisão, que começa em tomar o próprio gosto por regra e se ramifica em três frentes. A fórmula a guardar: a alma dividida gasta as forças no varejo; concentrada em Deus, recebe a força de Deus.