A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IIICap. 8
Primeira Parte · O Fim · Livro III · Capítulo 8 · Em que ponto estou · Por que

O estado deste mal

Essência

Onde está a sede do mal? Não apenas na parte inferior da alma, tiranizada pelas paixões, nem só na vontade, que flutua e cede; ela está mais acima, na inteligência, que não vê ou vê mal. Como os sentimentos dependem das ideias e as ações dos sentimentos, uma inteligência viciada vicia tudo o que vem depois. Daí a crítica aos livros de piedade que só movem a sensibilidade: querem curar pela emoção um mal que está no entendimento. E daí a conclusão: a primeira necessidade é retificar as ideias sobre mim, sobre as criaturas e sobre o uso que devo fazer delas.

o mal está na sensibilidade, mas não só nela
está também na vontade fraca, e ainda mais acima
a sede mais profunda é a inteligência que não vê
ideias erradas geram sentimentos e atos errados
a primeira obra é retificar as ideias

O centro do mal

À luz destes princípios posso analisar melhor o mal da minha vida. Ele não está apenas na parte inferior da alma, onde ela sofre a tirania das paixões que reclamam satisfações desregradas. Ali há sem dúvida muitas perturbações e muitas feridas, que me fazem gemer amargamente com São Paulo: infeliz de mim, quem me livrará deste corpo de morte? O mal está ali, mas encontra-se ainda mais acima.

Também a vontade está doente. Cheia de flutuações e de fraqueza, não sabe apoiar-se em Deus; entregue a si mesma, não tem energia bastante para resistir aos apelos perversos da natureza, e a sua covardia provoca muitas quedas. O mal está ali também, mas está ainda mais acima.

A inteligência é talvez a mais atingida das três. Ela não vê, ou vê mal. E quando não vejo ou vejo mal, de que me servem a vontade e a sensibilidade, senão para me arrastar pelas direções falsas que a mente lhes dá? E se um cego guia outro cego, ambos caem na cova.

Os três lugares do mal, do mais raso ao mais fundo
A sensibilidadetiranizada pelas paixões que pedem satisfações desregradas; muitas feridas, mas não é a sede
A vontadeflutuante e fraca, não se apoia em Deus e cede por covardia; o mal está aqui, e ainda mais acima
A inteligêncianão vê ou vê mal; sendo a que dirige, é a mais atingida e a raiz das outras duas

Não ver ou ver mal

A sede do malo conceito central do capítulo

O mal mais profundo está no entendimento e nas ideias, porque julgo as coisas do ponto de vista do meu interesse ou do meu prazer. É essa a luz em que as vejo; e porque assim as vejo, assim as estimo e assim ajo.

A minha ação está viciada e a minha vontade está viciada, e isso sobretudo porque a minha inteligência está viciada. As minhas ações dependem dos meus sentimentos, e os meus sentimentos das minhas ideias; e desde que as ideias estão erradas, os sentimentos e as ações estão errados.

Quase todos os nossos defeitos, diz o padre Surin, nascem da perversidade dos nossos juízos e do fato de não referirmos as coisas criadas ao seu primeiro princípio, como deveríamos fazer sendo filhos de Deus. E Santo Agostinho observa que o caminho da justiça é o nosso caminho, e que sem luz não há como não tropeçar nele: por isso a nossa primeira obra neste caminho é poder ver, e nele a grande coisa é ver.

Se ver é a grande necessidade, se ver é a grande obra, então não ver é a grande desgraça, e ver mal é o grande perigo. Portanto o meu maior mal é não ver, ou ver mal.

O valor dos livros sentimentais

Posso agora avaliar os livros de piedade que pululam por toda parte, cuja habilidade inteira consiste em mover a nossa sensibilidade. Curar a alma pela emoção, quando o grande mal está na inteligência, é como tentar curar uma tísica esfregando um pouco de pomada no pé. A isso se reduz o valor de tais livros. Quem nos devolverá a devoção fundada na teologia das grandes idades de fé?

Pollien vai mais longe e pergunta se a produção copiosa de livros de devoção sentimental não é praga tão desastrosa quanto a da literatura impura. Porque os livros impuros só alcançam quem já se arrasta no lodo, ao passo que os livros de devoção se dirigem a almas mais altas, que Deus chama para elevar as outras; ao abaixar e ressecar a vida espiritual dessas almas, impedem-nas de elevar-se, e por elas o dano atinge todos os que deveriam ser atraídos. O sentimentalismo na piedade explica o materialismo na sociedade, e há muito que aprender no avanço paralelo dessas duas literaturas.

Nota bene

A crítica não recai sobre o afeto na vida espiritual, que a tradição sempre teve por bom e necessário, e sim sobre a piedade que se alimenta apenas de emoção. O critério do capítulo é de ordem, não de desprezo: o sentimento acompanha, mas não governa a casa, como já se dissera a respeito da virtude da piedade no Livro II.

Os dogmas fazem as nações

A frase é de Bonald, e é das suas observações mais profundas. E se os dogmas fazem as nações, também fazem os homens. Nunca deixarei de dizer e de pensar, diz outro pensador, de Maistre, que o valor de um homem depende da sua crença. O valor do homem depende de fato das suas ideias, e ele é aquilo que pensa. É o enfraquecimento da verdade que faz desaparecer a santidade entre os homens.

Daí que a minha necessidade primeira e mais urgente seja retificar as minhas ideias a respeito de mim, das criaturas e do uso que devo fazer delas. Enquanto elas não forem corrigidas, nada será restaurado em mim; enquanto os meus esforços não incidirem diretamente sobre este ponto, permanecerão estéreis.

É a fé que purifica o coração. A fé é a visão da verdade; a verdade é a glória de Deus vista em todas as coisas.

E a verdade é o elemento primeiro que dirige a piedade. Quando eu tiver esta visão clara, habitual e dominante, o meu coração em breve estará purificado e a minha vida será devota.

Pontos-chave
O mal não está só na sensibilidade tiranizada pelas paixões, ainda que ali haja muitas feridas.
Também a vontade está doente: flutuante, sem apoio em Deus, cede por covardia.
A sede mais profunda é a inteligência, que não vê ou vê mal, e por isso desvia as outras potências.
Julgo as coisas pela luz do meu interesse e do meu prazer, e conforme as vejo, assim as estimo e ajo.
As ações dependem dos sentimentos, e os sentimentos das ideias: ideias erradas viciam tudo.
Padre Surin: quase todos os defeitos nascem da perversidade dos juízos e de não referir o criado ao seu princípio.
Santo Agostinho: sem luz tropeça-se no caminho; a primeira obra é ver.
Livros que só movem a sensibilidade tratam pela emoção um mal que está no entendimento.
O dano é maior porque atinge almas altas, chamadas a elevar as outras: o sentimentalismo na piedade explica o materialismo na sociedade.
Bonald e de Maistre: os dogmas fazem as nações, e o valor do homem depende da sua crença.
A necessidade primeira é retificar as ideias sobre mim, sobre as criaturas e sobre o uso delas.
Termos
A ordem das potências
sensibilidade, vontade e inteligência; o mal está nas três, mas a raiz é a última, que dirige as outras.
Não ver ou ver mal
julgar as coisas pela luz do interesse e do prazer próprios; é o maior mal, porque vicia sentimento e ação.
A devoção sentimental
a piedade que se sustenta pela emoção; trata o sintoma e deixa intacta a sede do mal.
A fé
a visão da verdade, isto é, da glória de Deus vista em todas as coisas; elemento primeiro que dirige a piedade.

Infelix ego homo, quis me liberabit de corpore mortis huius?

Infeliz de mim, quem me livrará deste corpo de morte?

Romanos 7, 24
Para reter

O capítulo localiza a doença: ela desce da inteligência para o sentimento e daí para o ato, e não o contrário. Por isso a devoção que só aquece a sensibilidade não cura, e por isso a reforma começa por retificar as ideias sobre mim, sobre as criaturas e sobre o uso delas. A fé, entendida como visão habitual da glória de Deus em tudo, é o que purifica o coração.

Fonte · Primeira Parte, Livro III, capítulo 8
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