O estado deste mal
Onde está a sede do mal? Não apenas na parte inferior da alma, tiranizada pelas paixões, nem só na vontade, que flutua e cede; ela está mais acima, na inteligência, que não vê ou vê mal. Como os sentimentos dependem das ideias e as ações dos sentimentos, uma inteligência viciada vicia tudo o que vem depois. Daí a crítica aos livros de piedade que só movem a sensibilidade: querem curar pela emoção um mal que está no entendimento. E daí a conclusão: a primeira necessidade é retificar as ideias sobre mim, sobre as criaturas e sobre o uso que devo fazer delas.
O centro do mal
À luz destes princípios posso analisar melhor o mal da minha vida. Ele não está apenas na parte inferior da alma, onde ela sofre a tirania das paixões que reclamam satisfações desregradas. Ali há sem dúvida muitas perturbações e muitas feridas, que me fazem gemer amargamente com São Paulo: infeliz de mim, quem me livrará deste corpo de morte? O mal está ali, mas encontra-se ainda mais acima.
Também a vontade está doente. Cheia de flutuações e de fraqueza, não sabe apoiar-se em Deus; entregue a si mesma, não tem energia bastante para resistir aos apelos perversos da natureza, e a sua covardia provoca muitas quedas. O mal está ali também, mas está ainda mais acima.
A inteligência é talvez a mais atingida das três. Ela não vê, ou vê mal. E quando não vejo ou vejo mal, de que me servem a vontade e a sensibilidade, senão para me arrastar pelas direções falsas que a mente lhes dá? E se um cego guia outro cego, ambos caem na cova.
Não ver ou ver mal
O mal mais profundo está no entendimento e nas ideias, porque julgo as coisas do ponto de vista do meu interesse ou do meu prazer. É essa a luz em que as vejo; e porque assim as vejo, assim as estimo e assim ajo.
A minha ação está viciada e a minha vontade está viciada, e isso sobretudo porque a minha inteligência está viciada. As minhas ações dependem dos meus sentimentos, e os meus sentimentos das minhas ideias; e desde que as ideias estão erradas, os sentimentos e as ações estão errados.
Quase todos os nossos defeitos, diz o padre Surin, nascem da perversidade dos nossos juízos e do fato de não referirmos as coisas criadas ao seu primeiro princípio, como deveríamos fazer sendo filhos de Deus. E Santo Agostinho observa que o caminho da justiça é o nosso caminho, e que sem luz não há como não tropeçar nele: por isso a nossa primeira obra neste caminho é poder ver, e nele a grande coisa é ver.
Se ver é a grande necessidade, se ver é a grande obra, então não ver é a grande desgraça, e ver mal é o grande perigo. Portanto o meu maior mal é não ver, ou ver mal.
O valor dos livros sentimentais
Posso agora avaliar os livros de piedade que pululam por toda parte, cuja habilidade inteira consiste em mover a nossa sensibilidade. Curar a alma pela emoção, quando o grande mal está na inteligência, é como tentar curar uma tísica esfregando um pouco de pomada no pé. A isso se reduz o valor de tais livros. Quem nos devolverá a devoção fundada na teologia das grandes idades de fé?
Pollien vai mais longe e pergunta se a produção copiosa de livros de devoção sentimental não é praga tão desastrosa quanto a da literatura impura. Porque os livros impuros só alcançam quem já se arrasta no lodo, ao passo que os livros de devoção se dirigem a almas mais altas, que Deus chama para elevar as outras; ao abaixar e ressecar a vida espiritual dessas almas, impedem-nas de elevar-se, e por elas o dano atinge todos os que deveriam ser atraídos. O sentimentalismo na piedade explica o materialismo na sociedade, e há muito que aprender no avanço paralelo dessas duas literaturas.
A crítica não recai sobre o afeto na vida espiritual, que a tradição sempre teve por bom e necessário, e sim sobre a piedade que se alimenta apenas de emoção. O critério do capítulo é de ordem, não de desprezo: o sentimento acompanha, mas não governa a casa, como já se dissera a respeito da virtude da piedade no Livro II.
Os dogmas fazem as nações
A frase é de Bonald, e é das suas observações mais profundas. E se os dogmas fazem as nações, também fazem os homens. Nunca deixarei de dizer e de pensar, diz outro pensador, de Maistre, que o valor de um homem depende da sua crença. O valor do homem depende de fato das suas ideias, e ele é aquilo que pensa. É o enfraquecimento da verdade que faz desaparecer a santidade entre os homens.
Daí que a minha necessidade primeira e mais urgente seja retificar as minhas ideias a respeito de mim, das criaturas e do uso que devo fazer delas. Enquanto elas não forem corrigidas, nada será restaurado em mim; enquanto os meus esforços não incidirem diretamente sobre este ponto, permanecerão estéreis.
É a fé que purifica o coração. A fé é a visão da verdade; a verdade é a glória de Deus vista em todas as coisas.
E a verdade é o elemento primeiro que dirige a piedade. Quando eu tiver esta visão clara, habitual e dominante, o meu coração em breve estará purificado e a minha vida será devota.
Infelix ego homo, quis me liberabit de corpore mortis huius?
Infeliz de mim, quem me livrará deste corpo de morte?
O capítulo localiza a doença: ela desce da inteligência para o sentimento e daí para o ato, e não o contrário. Por isso a devoção que só aquece a sensibilidade não cura, e por isso a reforma começa por retificar as ideias sobre mim, sobre as criaturas e sobre o uso delas. A fé, entendida como visão habitual da glória de Deus em tudo, é o que purifica o coração.