A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro ICap. 6
Primeira Parte · O Fim · Livro I · Capítulo 6

O uso das criaturas

Essência

As criaturas, isto é, tudo o que não é Deus, foram-me dadas como instrumentos: existem para a glória de Deus e, por dom do seu amor, servem ao mesmo tempo à minha felicidade, aqui e na eternidade.

não tenho a vida em mim mesmo
as criaturas são postas ao meu dispor
como instrumentos da glória de Deus
e, por acréscimo, da minha felicidade

Das relações com Deus às relações com as criaturas

Os cinco primeiros capítulos fixaram as noções primeiras das minhas relações com Deus:

O que os capítulos 1 a 5 fixaram
1
A glória de Deuso fim essencial
2
A minha felicidade n’Elefim anexado ao primeiro
3
A união com Eleo modo mais alto e perfeito de o glorificar
4
A subordinação da felicidade à sua honraa ordem dessa união

Resta agora olhar as minhas relações essenciais com as demais criaturas, nos seus princípios gerais.

O ponto de partida é a minha indigência. Não posso, por mim mesmo, manter a existência que Deus me deu: vindo do nada, ao nada retornaria por conta própria. Só Deus tem a vida em si mesmo; nem o meu corpo nem a minha alma têm em si os meios da própria subsistência, e precisam buscá-los fora de si, nas outras criaturas. Por isso elas foram postas à minha disposição.

O que se entende por criaturas

Por criaturas entende-se aqui, universalmente, tudo o que não é Deus, tudo o que foi criado, e não só tudo o que foi feito, mas tudo o que acontece dia a dia:

Criaturas, em sentido absoluto
As coisas espirituaisa graça, as virtudes, os sacramentos, a Igreja
As coisas materiaiso alimento, o mundo vegetal, o mundo animal, toda a criação
Os acontecimentos de cada diafísicos no curso do mundo, morais na conduta dos homens, divinos na intervenção da graça

A palavra nunca será empregada no sentido restrito que o uso popular lhe dá, o de designar apenas os seres materiais. Nesse sentido amplo e absoluto, ela designa tudo o que está entre Deus e mim, tudo o que é e tudo o que se passa ao meu redor, em mim, por mim ou contra mim. É preciso reter esse alcance, porque a palavra voltará a cada passo: nela se resume tudo o que pode servir à minha alma e ao meu corpo.

Instrumentos

As criaturas estão ao meu dispor, Deus mas deu. Para quê? Seria, no fundo, para mim mesmo? Ele as criou antes de tudo para si; se me dá o uso delas, não pode ser principalmente para mim, e sim essencialmente para Ele. Estão ao meu uso em vista do fim único de todas as coisas, a glória de Deus. Ele mas deu como deu a Israel as terras das nações e os trabalhos dos povos, para que guardassem os seus mandamentos e buscassem a sua lei (Salmo 104, 44 e 45).

O que são então as criaturas para mim, na realidade?

Criaturaso conceito central do capítulo

Meios e instrumentos para procurar a glória de Deus, feitos, ordenados e dados primariamente para essa obra.

Em última instância, não me foram dadas nem para elas mesmas, nem para mim, mas para a glória de Deus. É isto que devo meditar com diligência, até o compreender com clareza.

Como se usa um instrumento

Se as criaturas são instrumentos, devo usá-las como se usam os instrumentos. E como se usam? Para a obra para a qual foram feitos: a faca para cortar, os óculos para ver, o carro para transportar. A ninguém de juízo ocorre ver com uma faca ou cortar com um carro; só os loucos e as crianças, que ignoram o que é um instrumento, lhe dão um uso disparatado.

E não basta não desviar o instrumento do seu fim: usa-se dele na medida, nem mais nem menos, em que serve a esse fim. Tal é a natureza do instrumento, e tal é o modo de o usar.

Para Deus

Todas as criaturas, no que me diz respeito, são essencialmente instrumentos ordenados à santificação do nome de Deus: este é o seu destino essencial. Nada entra em contato com a minha vida senão para esse fim mais alto. As relações que dependem da minha vontade livre e as que os acontecimentos me impõem, tudo o que toca a minha alma e o meu corpo, a inteligência, o coração e os sentidos, por meio de anjos e homens, dos animais e das plantas, dos elementos e dos astros, tudo deve desenvolver a minha vida segundo Deus e para Deus, e aumentar em mim a sua santa glória.

A minha vida deve ser como uma lira afinada para ecoar um hino ao louvor do seu Criador. Os contatos com as criaturas ferem as cordas, uma após outra, para fazê-las ressoar segundo os desígnios do seu Autor. Os encontros que escolho, como os que sofro, devem produzir essa harmonia.

Para mim

Junto a esse primeiro serviço, o da sua glória, Deus ordenou nas criaturas um segundo serviço, o da minha felicidade. Ele não quis gozar sozinho da sua glória: o seu amor quis fazer-me entrar na participação dos seus bens, e assim as criaturas, instrumentos da sua glória, tornam-se ao mesmo tempo instrumentos da minha satisfação. Toda criatura diz primeiro: glória a Deus; e depois: paz ao seu servo. Torno-me, deste modo, associado de Deus, participante dos benefícios da vasta obra da criação.

Participante? Mais que isso: os benefícios são todos meus. É assim, escreve São Francisco de Sales, que Deus reparte conosco a sua benignidade: dá-nos os frutos dos seus benefícios e reserva para si a honra e o louvor deles. E Santo Agostinho: Deus não precisa do nosso serviço; nós é que precisamos do seu governo. Ele é o nosso único e verdadeiro Senhor justamente porque o servimos sem que Ele ganhe nada com isso, sendo todo o ganho nosso e da nossa salvação. Eis a maravilha do seu amor: fez todas as coisas para a sua glória e para o meu serviço.

Aqui e na eternidade

Deus quer que eu cresça neste mundo, para aumentar a minha capacidade de o glorificar na eternidade; e as criaturas são ordenadas a trazer-me esse crescimento. Ora, cada acréscimo traz consigo um gozo, porque um ser goza na medida do seu acabamento. Toda criatura que completa o meu ser para Deus e segundo Deus traz, portanto, uma porção proporcional de felicidade: alegrias verdadeiras, profundas e substanciais, ainda que parciais, porque o meu crescimento divino se faz por graus.

E ao fim virá a grande alegria, a felicidade eterna, a imensidade de bem-aventurança para a qual me prepara a obra que os instrumentos de Deus realizam em mim. As criaturas trazem-me, pois, alguma felicidade verdadeira já neste mundo, e preparam-me para a satisfação infinita da salvação eterna. O capítulo fecha num suspiro: ó Bondade divina, se eu te conhecesse! Ó Amor, se eu te amasse!

Toda criatura diz primeiro: glória a Deus; e depois: paz ao seu servo.

Pontos-chave
Criaturas, em sentido absoluto: tudo o que não é Deus, coisas e acontecimentos, do espiritual ao material.
São meios e instrumentos, dados não para elas mesmas nem para mim, mas para a glória de Deus.
Um instrumento usa-se para o fim para que foi feito, e na medida em que serve a esse fim.
Ao serviço da glória, Deus uniu o serviço da minha felicidade: os frutos são meus, a honra é dele.
As criaturas dão alegrias verdadeiras já aqui, e preparam a felicidade eterna.
Termos
Criaturas
tudo o que não é Deus: os seres espirituais e materiais, e os acontecimentos de cada dia.
Uso das criaturas
o modo de me servir delas como instrumentos do fim único de todas as coisas, a glória de Deus.

Et dedit illis regiones gentium, et labores populorum possederunt: ut custodiant justificationes ejus, et legem ejus requirant.

E deu-lhes as terras das nações, e possuíram os trabalhos dos povos, para que guardassem os seus preceitos e buscassem a sua lei.

Salmo 104, 44 e 45
Para reter

As criaturas são instrumentos: primeiro para a glória de Deus, e, por dom do seu amor, para a minha felicidade.

Fonte · Primeira Parte, Livro I, capítulo 6
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