O uso das criaturas
As criaturas, isto é, tudo o que não é Deus, foram-me dadas como instrumentos: existem para a glória de Deus e, por dom do seu amor, servem ao mesmo tempo à minha felicidade, aqui e na eternidade.
Das relações com Deus às relações com as criaturas
Os cinco primeiros capítulos fixaram as noções primeiras das minhas relações com Deus:
Resta agora olhar as minhas relações essenciais com as demais criaturas, nos seus princípios gerais.
O ponto de partida é a minha indigência. Não posso, por mim mesmo, manter a existência que Deus me deu: vindo do nada, ao nada retornaria por conta própria. Só Deus tem a vida em si mesmo; nem o meu corpo nem a minha alma têm em si os meios da própria subsistência, e precisam buscá-los fora de si, nas outras criaturas. Por isso elas foram postas à minha disposição.
O que se entende por criaturas
Por criaturas entende-se aqui, universalmente, tudo o que não é Deus, tudo o que foi criado, e não só tudo o que foi feito, mas tudo o que acontece dia a dia:
A palavra nunca será empregada no sentido restrito que o uso popular lhe dá, o de designar apenas os seres materiais. Nesse sentido amplo e absoluto, ela designa tudo o que está entre Deus e mim, tudo o que é e tudo o que se passa ao meu redor, em mim, por mim ou contra mim. É preciso reter esse alcance, porque a palavra voltará a cada passo: nela se resume tudo o que pode servir à minha alma e ao meu corpo.
Instrumentos
As criaturas estão ao meu dispor, Deus mas deu. Para quê? Seria, no fundo, para mim mesmo? Ele as criou antes de tudo para si; se me dá o uso delas, não pode ser principalmente para mim, e sim essencialmente para Ele. Estão ao meu uso em vista do fim único de todas as coisas, a glória de Deus. Ele mas deu como deu a Israel as terras das nações e os trabalhos dos povos, para que guardassem os seus mandamentos e buscassem a sua lei (Salmo 104, 44 e 45).
O que são então as criaturas para mim, na realidade?
Meios e instrumentos para procurar a glória de Deus, feitos, ordenados e dados primariamente para essa obra.
Em última instância, não me foram dadas nem para elas mesmas, nem para mim, mas para a glória de Deus. É isto que devo meditar com diligência, até o compreender com clareza.
Como se usa um instrumento
Se as criaturas são instrumentos, devo usá-las como se usam os instrumentos. E como se usam? Para a obra para a qual foram feitos: a faca para cortar, os óculos para ver, o carro para transportar. A ninguém de juízo ocorre ver com uma faca ou cortar com um carro; só os loucos e as crianças, que ignoram o que é um instrumento, lhe dão um uso disparatado.
E não basta não desviar o instrumento do seu fim: usa-se dele na medida, nem mais nem menos, em que serve a esse fim. Tal é a natureza do instrumento, e tal é o modo de o usar.
Para Deus
Todas as criaturas, no que me diz respeito, são essencialmente instrumentos ordenados à santificação do nome de Deus: este é o seu destino essencial. Nada entra em contato com a minha vida senão para esse fim mais alto. As relações que dependem da minha vontade livre e as que os acontecimentos me impõem, tudo o que toca a minha alma e o meu corpo, a inteligência, o coração e os sentidos, por meio de anjos e homens, dos animais e das plantas, dos elementos e dos astros, tudo deve desenvolver a minha vida segundo Deus e para Deus, e aumentar em mim a sua santa glória.
A minha vida deve ser como uma lira afinada para ecoar um hino ao louvor do seu Criador. Os contatos com as criaturas ferem as cordas, uma após outra, para fazê-las ressoar segundo os desígnios do seu Autor. Os encontros que escolho, como os que sofro, devem produzir essa harmonia.
Para mim
Junto a esse primeiro serviço, o da sua glória, Deus ordenou nas criaturas um segundo serviço, o da minha felicidade. Ele não quis gozar sozinho da sua glória: o seu amor quis fazer-me entrar na participação dos seus bens, e assim as criaturas, instrumentos da sua glória, tornam-se ao mesmo tempo instrumentos da minha satisfação. Toda criatura diz primeiro: glória a Deus; e depois: paz ao seu servo. Torno-me, deste modo, associado de Deus, participante dos benefícios da vasta obra da criação.
Participante? Mais que isso: os benefícios são todos meus. É assim, escreve São Francisco de Sales, que Deus reparte conosco a sua benignidade: dá-nos os frutos dos seus benefícios e reserva para si a honra e o louvor deles. E Santo Agostinho: Deus não precisa do nosso serviço; nós é que precisamos do seu governo. Ele é o nosso único e verdadeiro Senhor justamente porque o servimos sem que Ele ganhe nada com isso, sendo todo o ganho nosso e da nossa salvação. Eis a maravilha do seu amor: fez todas as coisas para a sua glória e para o meu serviço.
Aqui e na eternidade
Deus quer que eu cresça neste mundo, para aumentar a minha capacidade de o glorificar na eternidade; e as criaturas são ordenadas a trazer-me esse crescimento. Ora, cada acréscimo traz consigo um gozo, porque um ser goza na medida do seu acabamento. Toda criatura que completa o meu ser para Deus e segundo Deus traz, portanto, uma porção proporcional de felicidade: alegrias verdadeiras, profundas e substanciais, ainda que parciais, porque o meu crescimento divino se faz por graus.
E ao fim virá a grande alegria, a felicidade eterna, a imensidade de bem-aventurança para a qual me prepara a obra que os instrumentos de Deus realizam em mim. As criaturas trazem-me, pois, alguma felicidade verdadeira já neste mundo, e preparam-me para a satisfação infinita da salvação eterna. O capítulo fecha num suspiro: ó Bondade divina, se eu te conhecesse! Ó Amor, se eu te amasse!
Toda criatura diz primeiro: glória a Deus; e depois: paz ao seu servo.
Et dedit illis regiones gentium, et labores populorum possederunt: ut custodiant justificationes ejus, et legem ejus requirant.
E deu-lhes as terras das nações, e possuíram os trabalhos dos povos, para que guardassem os seus preceitos e buscassem a sua lei.
As criaturas são instrumentos: primeiro para a glória de Deus, e, por dom do seu amor, para a minha felicidade.