A ação divina
O capítulo abre com a imagem de São Francisco de Sales: há dois modos de ir a Deus, andando pela mão dele e sendo carregado nos seus braços. O Livro I tratou dos meus passinhos; este trata do colo. E daí sai a tese que dá o tom do Livro inteiro, incômoda de aceitar: o que faço de piedade prática é pouco diante da minha santificação, e o grande progresso acontece quando Deus me carrega. A ação dele é incessante, chega ao detalhe do fio de cabelo, e é de uma delicadeza calculada, porque só o autor do retrato tem perícia para retocá-lo. Tudo concorre, sem exceção, e a única coisa capaz de atravessar esse plano é a minha falta de correspondência.
Os dois modos de ir a Deus
O capítulo não começa por uma tese, e sim por uma citação longa do Tratado do Amor de Deus. Nela São Francisco de Sales explica a Teótimo que os filhos do Pai celeste podem ir até ele de duas maneiras: andando com os passos da própria vontade, conformada à dele, segurando com a mão da obediência a mão da intenção divina; ou então deixando-se simplesmente levar pelo beneplácito divino, como uma criancinha nos braços da mãe.
A frase que fecha a citação é a que organiza a leitura do que vem a seguir: estudando a vontade revelada, vi como Deus quer que eu dê os meus passinhos; estudando a vontade de beneplácito, verei como ele me carrega nos braços.
O cuidado de Deus comigo
A segunda seção estabelece o fato antes de tirar consequências: Deus cuida de cada um. O argumento é o do Evangelho, e é a fortiori: se nem um pardal esquecido, quanto menos eu.
Nonne quinque passeres veneunt dipondio, et unus ex illis non est in oblivione coram Deo? Nolite ergo timere: multis passeribus pluris estis vos.
Não se vendem cinco pardais por dois asses? E nenhum deles está esquecido diante de Deus. Não temais, portanto: valeis mais do que muitos pardais.
As imagens que o capítulo empilha para descrever esse cuidado são todas domésticas: a galinha com os pintos, o pastor com as ovelhas, a mãe com o filho. E é a última que a Escritura leva ao extremo, porque é a única que pode falhar.
Numquid oblivisci potest mulier infantem suum, ut non misereatur filio uteri sui? Et si illa oblita fuerit, ego tamen non obliviscar tui.
Pode uma mulher esquecer-se do seu menino, a ponto de não se compadecer do filho do seu ventre? E, ainda que ela se esquecesse, eu não me esquecerei de ti.
Dessa vontade sempre ocupada com a minha santificação decorre o primeiro dado prático do Livro: há tanto a fazer na minha alma que Deus trabalha nela sem cessar. Não sou eu quem trabalha sozinho para a glória dele com o auxílio da graça; é muito mais ele quem trabalha em mim para a sua própria glória, e ele trabalha em mim sem mim, e às vezes contra mim.
A inversão que o capítulo opera
Aqui está a passagem que custa a ser aceita, e que é o motivo de este Livro existir. Depois de todo o Livro anterior sobre o dever, a fidelidade e a execução, o que eu faço de piedade prática é declarado pouco diante da minha santificação. Não é por aí que faço grande progresso: por aí eu dou os meus passinhos, muito pequenos de fato, e que me adiantam pouco.
O meu grande progresso se faz quando Deus me carrega nos braços. É a ação do seu beneplácito o meio principal do meu progresso interior. Aqui já não há os meus passinhos, e sim as grandes passadas do próprio Deus. Ele me carrega muito mais do que eu caminho.
Convém ler esta seção junto com a advertência da abertura do Livro, sob pena de tirar dela o contrário do que ela diz. Pouco não é nada. O capítulo não dispensa os passinhos, nem sugere que a piedade ativa seja etapa vencida: diz que ela é desproporcional ao resultado, e que quem mede o próprio adiantamento pelo que consegue fazer está medindo a parte menor. A conclusão prática não é parar de andar; é parar de contar apenas os próprios passos.
O afresco
A parábola central do capítulo é a de um afresco esplêndido que foi coberto de reboco. Um acidente feliz faz o reboco cair, e a pintura reaparece em toda a sua beleza. Só que restam manchas por toda parte, restos de reboco agarrados aos detalhes. Quem vai tirá-las? Quem vai retocar o desenho e devolver-lhe o frescor? É preciso um artista com a perícia de quem o desenhou, pois qualquer outro arriscaria estragar o quadro com os seus retoques.
O afresco é a minha alma, retrato em que Deus pintou a sua própria imagem. O reboco é o pecado original, e depois o pecado mortal, que cobriram a imagem e destruíram a semelhança. A queda do reboco é o Batismo, e mais tarde a Penitência, que trazem de volta os traços. As manchas que restam são os detalhes viciados que sobrevivem ao perdão. E o artista é Deus, único capaz de retocar sem estragar.
A conclusão é uma reserva, no sentido jurídico da palavra: Deus reserva para si o direito de fazer esse retoque. Ninguém senão Deus pode tocar a alma; só quem a fez pode restaurá-la. É a razão de fundo pela qual a parte principal da obra não pode ser minha.
Tudo concorre, sem exceção
Para saber o modo geral dessa ação, basta a palavra de São Paulo. E o capítulo insiste que a expressão é absoluta, não retórica.
Diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum, iis qui secundum propositum vocati sunt sancti.
Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, os que segundo o seu desígnio são chamados a ser santos.
Todas as coisas quer dizer todos os detalhes dos movimentos do mundo, físicos e morais, e as influências exercidas por todos os seres, anjos, homens, animais ou plantas, sobre os menores desenvolvimentos da minha vida física, moral, intelectual e sobrenatural. Deus age por todos esses instrumentos, e a razão é simples: se as criaturas são instrumentos meus, muito mais são instrumentos dele.
Para saber até onde vai esse concurso, basta cruzar aquele texto com outro do Evangelho. A queda de um fio de cabelo não ocupa lugar nenhum na minha vida, e é justamente por isso que ela serve de medida: até esse acontecimento, com o qual não me importo, é objeto do cuidado de Deus.
Et capillus de capite vestro non peribit.
E nem um fio de cabelo da vossa cabeça perecerá.
Vem então a descrição do modo, e é o que há de mais fino no capítulo. Deus se serve de tudo para purificar e dilatar a alma, e procede com uma delicadeza medida: dá sempre o toque certo, no momento feliz e da maneira mais feliz. Se aceito a sua ação, ele avança depressa e multiplica os toques; se o repilo, retira-se com suavidade, espera com paciência e volta noutra hora e de outro modo. Ora usa de doçura, ora de rigor.
A conveniência admirável da obra de Deus
A última seção reúne os atributos dessa ação. Deus sabe adaptar-se a todos os estados da alma, usar todos os meios possíveis, escolher o momento feliz e tomar os melhores caminhos. E não se distrai nem descuida.
Ecce non dormitabit neque dormiet, qui custodit Israel.
Eis que não dormitará nem dormirá aquele que guarda Israel.
Ele traçou o plano da minha vida e conduz a sua execução sem interrupção, sem jamais ser desviado por coisa alguma, a não ser pela minha falta de correspondência, que contraria a sua obra e os seus desígnios. Vale reter a exceção, porque ela é a única: no capítulo inteiro, a única coisa capaz de atravessar o trabalho de Deus sou eu.
O capítulo termina olhando para o dia em que os bastidores forem abertos. Aqui embaixo Deus mostra pouco, e como que a contragosto, os segredos da sua ação; os meus olhos são embotados demais para ver por baixo da superfície, e enxergo quase só aparências que me enganam e parecem incoerentes, porque desconheço a origem, a ordem e a finalidade delas. Contemplar em detalhe como tudo concorreu para a minha santificação será uma das delícias do céu e um dos temas do louvor eterno.
A ressalva final é a que impede que essa espera vire desculpa para não olhar. Se a plenitude da luz fica reservada para o último dia, ainda assim Deus quer revelar desde já, na medida do que o meu progresso exigir, alguns mistérios da sua ação. E revela-os para que eu corresponda a eles: devo, portanto, estar à espreita, para pôr a minha ação em harmonia com a dele.
O capítulo inteiro se apoia na imagem dos braços, e é dela que sai a tese difícil: a maior parte da minha santificação não é obra minha, e quem mede o próprio adiantamento pelo que consegue fazer está contando a parte menor. Guardar junto disso as duas cláusulas que impedem a leitura preguiçosa. A primeira é o afresco: Deus reserva para si o retoque porque só ele tem perícia, não porque a minha parte seja dispensável. A segunda é a exceção do fim: nada desvia o plano dele, a não ser a minha falta de correspondência. Sou pouco no trabalho e decisivo no estorvo.