A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IICap. 1
Segunda Parte · O Caminho · Livro II · Capítulo 1 · Resumo

A ação divina

Essência

O capítulo abre com a imagem de São Francisco de Sales: há dois modos de ir a Deus, andando pela mão dele e sendo carregado nos seus braços. O Livro I tratou dos meus passinhos; este trata do colo. E daí sai a tese que dá o tom do Livro inteiro, incômoda de aceitar: o que faço de piedade prática é pouco diante da minha santificação, e o grande progresso acontece quando Deus me carrega. A ação dele é incessante, chega ao detalhe do fio de cabelo, e é de uma delicadeza calculada, porque só o autor do retrato tem perícia para retocá-lo. Tudo concorre, sem exceção, e a única coisa capaz de atravessar esse plano é a minha falta de correspondência.

há dois modos de ir a Deus: pela mão e nos braços
o Livro I era a mão; este é o colo
logo, o maior progresso não é obra minha
Deus age sem cessar e até no menor detalhe
com a delicadeza de quem pintou o retrato
e só a minha recusa atrapalha esse trabalho

Os dois modos de ir a Deus

O capítulo não começa por uma tese, e sim por uma citação longa do Tratado do Amor de Deus. Nela São Francisco de Sales explica a Teótimo que os filhos do Pai celeste podem ir até ele de duas maneiras: andando com os passos da própria vontade, conformada à dele, segurando com a mão da obediência a mão da intenção divina; ou então deixando-se simplesmente levar pelo beneplácito divino, como uma criancinha nos braços da mãe.

As duas maneiras, no vocabulário de São Francisco de Sales
Ele nos leva pela mãoquando nos faz caminhar no exercício das virtudes. Conduz e segura, mas quer que demos os nossos passinhos, isto é, que façamos o que podemos com o auxílio da graça. É a vontade significada, matéria do Livro I.
Ele nos carrega nos braçosdepois de nos ter levado pela mão, faz em nós uma obra na qual parece que não fazemos nada. É a vontade de beneplácito, matéria deste Livro.

A frase que fecha a citação é a que organiza a leitura do que vem a seguir: estudando a vontade revelada, vi como Deus quer que eu dê os meus passinhos; estudando a vontade de beneplácito, verei como ele me carrega nos braços.

O cuidado de Deus comigo

A segunda seção estabelece o fato antes de tirar consequências: Deus cuida de cada um. O argumento é o do Evangelho, e é a fortiori: se nem um pardal esquecido, quanto menos eu.

Nonne quinque passeres veneunt dipondio, et unus ex illis non est in oblivione coram Deo? Nolite ergo timere: multis passeribus pluris estis vos.

Não se vendem cinco pardais por dois asses? E nenhum deles está esquecido diante de Deus. Não temais, portanto: valeis mais do que muitos pardais.

São Lucas 12, 6-7 (Vulgata Clementina)

As imagens que o capítulo empilha para descrever esse cuidado são todas domésticas: a galinha com os pintos, o pastor com as ovelhas, a mãe com o filho. E é a última que a Escritura leva ao extremo, porque é a única que pode falhar.

Numquid oblivisci potest mulier infantem suum, ut non misereatur filio uteri sui? Et si illa oblita fuerit, ego tamen non obliviscar tui.

Pode uma mulher esquecer-se do seu menino, a ponto de não se compadecer do filho do seu ventre? E, ainda que ela se esquecesse, eu não me esquecerei de ti.

Isaías 49, 15 (Vulgata Clementina)

Dessa vontade sempre ocupada com a minha santificação decorre o primeiro dado prático do Livro: há tanto a fazer na minha alma que Deus trabalha nela sem cessar. Não sou eu quem trabalha sozinho para a glória dele com o auxílio da graça; é muito mais ele quem trabalha em mim para a sua própria glória, e ele trabalha em mim sem mim, e às vezes contra mim.

A inversão que o capítulo opera

Aqui está a passagem que custa a ser aceita, e que é o motivo de este Livro existir. Depois de todo o Livro anterior sobre o dever, a fidelidade e a execução, o que eu faço de piedade prática é declarado pouco diante da minha santificação. Não é por aí que faço grande progresso: por aí eu dou os meus passinhos, muito pequenos de fato, e que me adiantam pouco.

O meu grande progresso se faz quando Deus me carrega nos braços. É a ação do seu beneplácito o meio principal do meu progresso interior. Aqui já não há os meus passinhos, e sim as grandes passadas do próprio Deus. Ele me carrega muito mais do que eu caminho.

Nota bene

Convém ler esta seção junto com a advertência da abertura do Livro, sob pena de tirar dela o contrário do que ela diz. Pouco não é nada. O capítulo não dispensa os passinhos, nem sugere que a piedade ativa seja etapa vencida: diz que ela é desproporcional ao resultado, e que quem mede o próprio adiantamento pelo que consegue fazer está medindo a parte menor. A conclusão prática não é parar de andar; é parar de contar apenas os próprios passos.

O afresco

A parábola central do capítulo é a de um afresco esplêndido que foi coberto de reboco. Um acidente feliz faz o reboco cair, e a pintura reaparece em toda a sua beleza. Só que restam manchas por toda parte, restos de reboco agarrados aos detalhes. Quem vai tirá-las? Quem vai retocar o desenho e devolver-lhe o frescor? É preciso um artista com a perícia de quem o desenhou, pois qualquer outro arriscaria estragar o quadro com os seus retoques.

A leitura da parábolao que cada peça representa

O afresco é a minha alma, retrato em que Deus pintou a sua própria imagem. O reboco é o pecado original, e depois o pecado mortal, que cobriram a imagem e destruíram a semelhança. A queda do reboco é o Batismo, e mais tarde a Penitência, que trazem de volta os traços. As manchas que restam são os detalhes viciados que sobrevivem ao perdão. E o artista é Deus, único capaz de retocar sem estragar.

A conclusão é uma reserva, no sentido jurídico da palavra: Deus reserva para si o direito de fazer esse retoque. Ninguém senão Deus pode tocar a alma; só quem a fez pode restaurá-la. É a razão de fundo pela qual a parte principal da obra não pode ser minha.

Tudo concorre, sem exceção

Para saber o modo geral dessa ação, basta a palavra de São Paulo. E o capítulo insiste que a expressão é absoluta, não retórica.

Diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum, iis qui secundum propositum vocati sunt sancti.

Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, os que segundo o seu desígnio são chamados a ser santos.

Romanos 8, 28 (Vulgata Clementina)

Todas as coisas quer dizer todos os detalhes dos movimentos do mundo, físicos e morais, e as influências exercidas por todos os seres, anjos, homens, animais ou plantas, sobre os menores desenvolvimentos da minha vida física, moral, intelectual e sobrenatural. Deus age por todos esses instrumentos, e a razão é simples: se as criaturas são instrumentos meus, muito mais são instrumentos dele.

Para saber até onde vai esse concurso, basta cruzar aquele texto com outro do Evangelho. A queda de um fio de cabelo não ocupa lugar nenhum na minha vida, e é justamente por isso que ela serve de medida: até esse acontecimento, com o qual não me importo, é objeto do cuidado de Deus.

Et capillus de capite vestro non peribit.

E nem um fio de cabelo da vossa cabeça perecerá.

São Lucas 21, 18 (Vulgata Clementina)

Vem então a descrição do modo, e é o que há de mais fino no capítulo. Deus se serve de tudo para purificar e dilatar a alma, e procede com uma delicadeza medida: dá sempre o toque certo, no momento feliz e da maneira mais feliz. Se aceito a sua ação, ele avança depressa e multiplica os toques; se o repilo, retira-se com suavidade, espera com paciência e volta noutra hora e de outro modo. Ora usa de doçura, ora de rigor.

A conveniência admirável da obra de Deus

A última seção reúne os atributos dessa ação. Deus sabe adaptar-se a todos os estados da alma, usar todos os meios possíveis, escolher o momento feliz e tomar os melhores caminhos. E não se distrai nem descuida.

Ecce non dormitabit neque dormiet, qui custodit Israel.

Eis que não dormitará nem dormirá aquele que guarda Israel.

Salmo 120, 4 (Vulgata Clementina)

Ele traçou o plano da minha vida e conduz a sua execução sem interrupção, sem jamais ser desviado por coisa alguma, a não ser pela minha falta de correspondência, que contraria a sua obra e os seus desígnios. Vale reter a exceção, porque ela é a única: no capítulo inteiro, a única coisa capaz de atravessar o trabalho de Deus sou eu.

O capítulo termina olhando para o dia em que os bastidores forem abertos. Aqui embaixo Deus mostra pouco, e como que a contragosto, os segredos da sua ação; os meus olhos são embotados demais para ver por baixo da superfície, e enxergo quase só aparências que me enganam e parecem incoerentes, porque desconheço a origem, a ordem e a finalidade delas. Contemplar em detalhe como tudo concorreu para a minha santificação será uma das delícias do céu e um dos temas do louvor eterno.

Nota bene

A ressalva final é a que impede que essa espera vire desculpa para não olhar. Se a plenitude da luz fica reservada para o último dia, ainda assim Deus quer revelar desde já, na medida do que o meu progresso exigir, alguns mistérios da sua ação. E revela-os para que eu corresponda a eles: devo, portanto, estar à espreita, para pôr a minha ação em harmonia com a dele.

Pontos-chave
Há dois modos de ir a Deus: andando pela mão dele e sendo carregado nos seus braços.
Pela mão é o exercício das virtudes, e é a vontade significada, matéria do Livro I.
Nos braços é a obra em que parece que não fazemos nada, e é o beneplácito, matéria deste Livro.
Deus cuida de cada um: nem um pardal está esquecido diante dele.
Ainda que a mãe se esquecesse do filho, ele não se esquece.
Há tanto a fazer na minha alma que ele trabalha nela sem cessar.
Ele trabalha em mim sem mim, e às vezes contra mim.
A piedade prática é pouco diante da santificação: por ela dou apenas os meus passinhos.
O grande progresso se faz quando Deus me carrega: são as passadas dele, não as minhas.
A alma é um afresco em que Deus pintou a sua imagem; o pecado a cobriu de reboco.
O Batismo e a Penitência derrubam o reboco, mas restam manchas nos detalhes.
Só o autor do retrato tem perícia para retocá-lo, e ele reserva esse direito para si.
Todas as coisas concorrem, e a expressão é absoluta: todos os seres e todos os detalhes.
Se as criaturas são instrumentos meus, muito mais são instrumentos de Deus.
Até a queda de um fio de cabelo é objeto do seu cuidado.
Ele dá sempre o toque certo, no momento feliz e da maneira mais feliz.
Se aceito, ele multiplica os toques; se repilo, retira-se e volta de outro modo.
Nada desvia a execução do seu plano, exceto a minha falta de correspondência.
Aqui embaixo vejo quase só aparências incoerentes, porque desconheço a origem e o fim delas.
Mas ele revela desde já o que o meu progresso exigir, e revela para que eu corresponda.
Termos
Os meus passinhos
a expressão de São Francisco de Sales para o que faço com o auxílio da graça no exercício das virtudes; verdadeiros, necessários, e pequenos.
Ser carregado nos braços
a obra que Deus faz em mim e na qual pareço não fazer nada; é o meio principal do progresso interior.
O afresco
a alma como retrato da imagem de Deus, coberta pelo pecado, descoberta pelo Batismo, e ainda manchada nos detalhes.
A reserva do artista
só quem fez o retrato pode retocá-lo sem estragá-lo; por isso ninguém senão Deus toca a alma.
A conveniência da ação divina
a adaptação exata de cada toque ao estado da alma, ao momento e ao modo; e a paciência de recuar e voltar quando é repelido.
Para reter

O capítulo inteiro se apoia na imagem dos braços, e é dela que sai a tese difícil: a maior parte da minha santificação não é obra minha, e quem mede o próprio adiantamento pelo que consegue fazer está contando a parte menor. Guardar junto disso as duas cláusulas que impedem a leitura preguiçosa. A primeira é o afresco: Deus reserva para si o retoque porque só ele tem perícia, não porque a minha parte seja dispensável. A segunda é a exceção do fim: nada desvia o plano dele, a não ser a minha falta de correspondência. Sou pouco no trabalho e decisivo no estorvo.

Fonte · Segunda Parte, Livro II, capítulo 1
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