A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IIICap. 6
Primeira Parte · O Fim · Livro III · Capítulo 6 · Em que ponto estou · Individualmente

O estado da minha alma

Essência

Sabido o que é a perfeição, resta a pergunta incômoda: onde estou eu. A resposta se colhe examinando o motivo habitual do agir, e o que se encontra é o eu em primeiro lugar. A regra universal dos meus juízos, das minhas afeições e das minhas ações é a utilidade humana; da utilidade divina das coisas quase nada sei. O mal não está em considerar o meu interesse, que pode e muitas vezes deve unir-se à glória de Deus, mas em deixá-lo tornar-se dominante e permanecer puramente humano. E nem a vida espiritual escapa: julgo os meus exercícios pela consolação que me dão.

qual é o motivo habitual do meu agir
a regra dos meus juízos é a utilidade humana
as máximas do Evangelho julgam os meus gostos
o meu interesse não é incompatível com a glória de Deus
mas nos exercícios de piedade também busco a mim mesmo

Onde estou

E agora, em que ponto está a minha alma quanto à perfeição? Não vivo em desordem constante? Não é a minha vida uma subversão perpétua da ordem? Consideremos: qual é o meu motivo habitual de agir? Não é, antes de tudo e demasiado, o eu? Qual é o primeiro objeto dos meus pensamentos, a tendência preferida das minhas afeições, o móvel preponderante das minhas ações? Não sou eu mesmo, o meu prazer, a minha conveniência, o meu interesse, o meu humor, o meu gosto? Sempre o eu, o eu por toda parte?

E falo do bem que faço ou julgo fazer, pois aqui não se trata de pecado formal. Nessa parte que é de longe a maior da minha vida, porque ocupa quase todo o meu tempo, nessa sucessão contínua de ações indiferentes ou boas que forma o tecido dos meus dias, o que habitualmente olho em primeiro lugar sou eu; o que busco sou eu. Ordinariamente tomo a precedência sobre Deus, e o meu prazer vem antes da sua glória. Tal é o instinto da nossa natureza decaída.

Se aquilo que eu tinha por bom em mim, e que talvez julgasse louvável com demasiada pressa, não passa de coisa suja, que devo ser eu diante de Deus quando a isso se acrescenta a infecção de tantos pecados?

A utilidade humana

A regra da utilidade humanao conceito central do capítulo

Deveria ser regra da minha vida ver, amar e buscar a utilidade divina antes da humana, e subordinar esta àquela. Na prática, o meu interesse humano é a regra universal, constante, primeira e instintiva dos meus juízos, das minhas afeições e das minhas ações, porque é o que vejo com clareza, com facilidade e em toda parte.

Quando foi que levei em conta a utilidade divina das coisas, e a sua eficácia em promover a vida divina na alma? Que sei eu disso? Em que criatura estou acostumado a ver, amar e buscar primeiro a glória de Deus?

A mesma regra, em três lugares
Nos juízosjulgo acontecimentos, pessoas e coisas boas ou más pelo proveito humano que encontro neles
Nas afeiçõesamo ou detesto conforme a satisfação que me trazem
Nas açõesbusco ou evito conforme o prazer ou o desgosto, o proveito ou o dano humano

Na vida ordinária

Se eu tivesse a coragem de confrontar os meus juízos, os meus gostos e os meus hábitos com as máximas do Evangelho, achá-los-ia de acordo com elas? A pobreza, a mansidão, as lágrimas, a fome e a sede de justiça, a misericórdia, o amor da paz, as perseguições, as calúnias e a maledicência, tudo o que está nas bem-aventuranças do Salvador, é chamado pelo mundo desgraça ou loucura. A minha linguagem e a minha conduta estão realmente mais de acordo com Nosso Senhor do que com o mundo?

Quanto ao amor dos inimigos, das cruzes e das privações, ao gosto de uma vida escondida, simples e sóbria; quanto à confiança na Providência, à eficácia da oração, ao proveito do jejum, da renúncia e da esmola; numa palavra, quanto aos conselhos evangélicos, sou digno de ser chamado discípulo de Jesus?

Nas vicissitudes de cada dia, gerais ou particulares, até que ponto procuro e estou pronto a olhar o progresso do reino de Deus em mim e nos homens? Porque é nisso que está a grande significação do que acontece: assim o veem Deus e os homens de Deus. Mas como estou longe dos pensamentos de Deus, e como estou longe dos pensamentos dos homens de Deus. O mundo dos homens está bastante aberto diante de mim; o mundo de Deus está demasiado fechado para mim.

O interesse de Deus e o meu não são incompatíveis

Uma vez mais: o mal não está em eu pensar nos meus interesses e considerar a utilidade humana das coisas. A minha satisfação, mesmo a satisfação instrumental, pode muito bem unir-se à glória de Deus, e muitas vezes deve unir-se a ela.

Nunca me direi isto o bastante: para a sua glória e para a minha felicidade nele, Deus quer que eu cresça, e que desenvolva para ele a minha mente, o meu coração e os meus sentidos. E para crescer, quer que eu use de instrumentos, quer que eu use do prazer nas coisas criadas. Não há, portanto, incompatibilidade entre a minha satisfação e a sua glória: uma não exclui a outra, uma chama pela outra. Mas a satisfação não deve tornar-se dominante, nem permanecer puramente humana.

Nota bene

Esta é a distinção que impede o exame de degenerar em escrúpulo. O adversário não é o prazer nem o interesse legítimo, e sim a dominação: o prazer que deixa de ser instrumento e passa a ser fim, e o interesse que permanece fechado no humano em vez de subir à glória divina.

Na vida espiritual

E os meus caminhos são mais retos ao menos na região da vida espiritual? Aí sem dúvida busco um pouco mais os interesses de Deus. Mas quantas vezes são suplantados pelas vistas do interesse pessoal. Os meus exercícios de piedade parecem-me bons quando fico satisfeito com eles. Se o dia me deu muita satisfação, chamo-o bom; se não senti satisfação alguma, penso que algo vai mal. E o que me guia nesses juízos é a minha satisfação.

Procuro de bom grado a consolação na comunhão, na meditação e na oração, e isso está muito bem se nessa consolação busco meios de encorajar-me e de fortalecer-me nos meus deveres, pois a alma tem tanta necessidade de alegria para ser diligente no serviço de Deus. Mas a razão por que prefiro um exercício a outro é muitas vezes apenas o prazer que ele me dá, do qual me alimento e no qual repouso. Sou eu que vejo, amo e busco em tudo isso.

E quando vem a secura, tudo se perde, tudo fica vazio, os exercícios já não servem para nada, e eu presto menos ainda; abandono-os e desanimo. É assim que julgo até os meus exercícios de piedade: cheios demais de mim e faltos demais de Deus.

Nas outras obras sobrenaturais, nas do zelo ou da caridade, que lugar dou à consideração do bom conceito, ao desejo do louvor, à busca da gratidão, ao anseio de êxito. Não fico ordinariamente abatido e desanimado quando não colho essa messe? Não meço com demasiada facilidade o valor do meu trabalho pela satisfação que ele me traz? Não é o meu zelo proporcional à minha satisfação?

Se eu descesse ao fundo

A minha vida natural, a minha vida espiritual, quase tudo em mim é regido, dirigido e dominado pela minha própria satisfação. Que terrível seria o meu exame de consciência, se eu estivesse disposto a entrar nos detalhes íntimos dos meus pensamentos, dos meus gostos e das minhas ações. Como encontraria o maldito instinto da satisfação egoísta suplantando mais ou menos a glória de Deus em tudo, em toda parte e sempre. Nunca saberei quão profunda é a desordem da minha vida.

As duas perguntas, na ordem trocada
De que me serve isto para a glória de Deus?a pergunta que eu deveria fazer em tudo, e que faço tão raramente
De que me serve isto para o meu proveito ou o meu prazer?a pergunta que olho sempre em primeiro lugar, e que só deveria vir depois, como consequência ou meio

Eu em toda parte no primeiro lugar, Deus constantemente no segundo ou posto de lado. Terei alguma vez sabido o que significa perfeição?

Pontos-chave
A pergunta do capítulo é sobre o motivo habitual do agir, e a resposta encontrada é o eu.
Trata-se do bem que faço, não de pecado formal: a desordem está no tecido ordinário dos dias.
A utilidade humana é a regra universal e instintiva dos meus juízos, afeições e ações.
Da utilidade divina das coisas, a sua eficácia para a vida divina na alma, quase nada sei.
Confrontados com as bem-aventuranças, os meus gostos revelam-se mais do mundo do que do Evangelho.
O mal não está em considerar o meu interesse: satisfação e glória de Deus podem e devem unir-se.
O mal está em a satisfação tornar-se dominante e permanecer puramente humana.
Na vida espiritual julgo os exercícios pela consolação, e na secura abandono-os e desanimo.
No zelo e na caridade busco estima, louvor, gratidão e êxito, e meço a obra pelo gosto que me dá.
A pergunta a fazer primeiro é de que serve isto para a glória de Deus; a do meu proveito só depois.
Termos
Utilidade divina
o valor das coisas quanto à sua eficácia em promover a vida divina na alma; deveria ser a primeira regra.
Utilidade humana
o proveito, a conveniência e o prazer que as coisas trazem; regra legítima em segundo lugar, desordenada quando toma o primeiro.
Satisfação instrumental
o prazer usado como meio de crescimento para Deus; não é incompatível com a sua glória, e muitas vezes deve unir-se a ela.
Satisfação dominante
a que deixa de ser meio e se torna fim, permanecendo puramente humana: nisto está a desordem.
O critério da consolação
julgar bons os exercícios de piedade e os dias pela satisfação sentida; sinal de vida espiritual cheia de si.

Et facti sumus ut immundus omnes nos, et quasi pannus menstruatæ universæ justitiæ nostræ.

E todos nós ficamos como imundos, e todas as nossas justiças como pano manchado.

Isaías 64, 6
Para reter

O exame deste capítulo não recai sobre os pecados, e sim sobre o motivo do bem que faço: a utilidade humana é a régua universal dos meus juízos, gostos e obras, e a divina quase nunca me ocorre. A distinção que salva do escrúpulo é esta: o interesse legítimo não é inimigo da glória de Deus, mas não pode ser dominante nem ficar fechado no humano. Sinal claro de que ainda estou aquém: julgo a oração pela consolação que ela me dá.

Fonte · Primeira Parte, Livro III, capítulo 6
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