O purgatório
Nada de impuro entra no céu, e a purificação descrita nos capítulos anteriores é condição prévia da entrada: o que não se fizer aqui será feito no purgatório. Daí o assombro do capítulo, porque não se trata apenas dos pecados nem apenas das imperfeições, mas de todo o humano e de toda aderência fora de Deus. A distinção que ordena tudo é esta: na obra interior correm juntas duas coisas, a purificação e a glorificação, e nesta vida elas nunca se separam. A morte interrompe a segunda para sempre e deixa a primeira continuar, e é por isso que o purgatório purifica sem acrescentar mérito algum: sai-se dele com o mesmo que se levou.
Nada de impuro entra no céu
Toda aquela purificação da natureza humana, a transferência completa de mim mesmo ao governo do amor do Filho de Deus, deve estar operada e cumprida em mim antes que eu entre no céu. Ninguém entrará lá enquanto essa obra não estiver acabada. O que não foi feito neste mundo será feito no purgatório, ao menos se a obra já tiver começado, porque o pecado mortal permanece eternamente despojo do inferno.
Non intrabit in eam aliquod coinquinatum.
Não entrará nela coisa alguma manchada.
A carne e o sangue não herdarão o reino de Deus, nem a corrupção herdará a incorrupção, diz São Paulo: é preciso que o corruptível se revista de incorrupção e o mortal de imortalidade. E São João da Cruz diz o mesmo do outro lado: enquanto não estiver inteiramente purificada, a alma não pode possuir Deus na terra pela transformação de amor, nem no céu pela visão beatífica. Se nesta vida Deus não consuma com a alma a união que se chama matrimônio místico sem que o humano tenha sido totalmente aniquilado, como consumaria sem isso a união eterna da glória?
Que será, então, o purgatório?
O capítulo detém-se aqui num espanto que vale a pena acompanhar devagar. Então as chamas terão de queimar tudo em mim? Não só os meus pecados, não só as minhas imperfeições, mas também todo o humano, todo o criado, toda aderência que esteja fora de Deus? Terão de operar a transformação completa do meu ser?
E vem a comparação que dá a medida: se mesmo nos santos, ainda neste mundo, essas operações são tão longas e dolorosas, se são precisas tantas cruzes e tribulações, e se o despojamento deles me faz estremecer, que será o purgatório para mim?
Compreende-se então quão poucas almas entram diretamente no céu, e compreende-se também a doutrina da Igreja a respeito do purgatório e a insistência extraordinária com que ela nos manda rezar pelos mortos.
Purificação e glorificação
Quanto à purificação interior, todas as almas estarão no céu em pé de igualdade: nenhuma será mais pura que outra, porque todas hão de ser absolutamente puras. Sob esse aspecto, todos têm a mesma vocação e todos são chamados à mesma altura, e o mandamento de amar a Deus com todo o ser tem para mim a mesma largura absoluta que tem para os santos e para os anjos. O ex toto não conhece atenuação: nem mancha, nem imperfeição, nem grão de poeira pode restar na minha alma, tanto quanto na de um anjo.
Na subida pelos cinco graus da piedade correm duas partes: uma negativa, que é a purificação, e outra positiva, que é a glorificação, isto é, o crescimento das capacidades divinas e dos méritos eternos. Durante esta vida mortal elas nunca se separam: toda purificação vem acompanhada de expansão da alma e de aumento de méritos.
O que sei e o que não sei
Os cinco graus se caracterizam pelo progresso da purificação interior, e essa eu posso medir. Mas a medida em que a alma cresce em capacidade e em mérito é segredo de Deus. Sei de que misérias me despojo; não sei que riquezas estou adquirindo. Qual a altura de virtude alcançada, qual a extensão dos méritos, que lugar terei no céu: são mistérios que só me serão revelados na claridade da vida futura.
Me oportet operari opera eius qui misit me, donec dies est: venit nox, quando nemo potest operari.
Importa que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; vem a noite, em que ninguém pode trabalhar.
Uma obra para, a outra continua
Das duas obras que correm juntas durante a vida terrena, uma para instantânea e absolutamente na morte, e é a glorificação; a outra, se necessário, continua para além do túmulo até o seu acabamento, e é a purificação. As suas operações se cumprem num lugar determinado pela justiça misericordiosa do supremo Juiz, e por isso esse lugar recebeu o nome de purgatório.
E aqui está a nota mais séria do capítulo. O que ali se passa é uma purificação inteiramente estéril, sem aumento algum de mérito ou de ser, sem outro benefício além da própria purificação. O purgatório me levará ao grau de pureza absoluta exigido para comparecer diante de Deus, e ao sair dele terei o mesmo grau de mérito que tinha ao entrar.
É por essa esterilidade que o capítulo insiste no acordo a fazer ainda no caminho, antes que o adversário me entregue ao juiz e o juiz ao oficial, e eu seja lançado na prisão de onde não sairei enquanto não pagar o último ceitil. A comparação evangélica não descreve castigo arbitrário: descreve uma dívida que se paga sem lucro nenhum, quando ainda era possível ganhar tanto pelo caminho da santidade.
Que loucura seria condenar-me a essa reclusão rigorosa e a essa expiação improdutiva, quando ainda me é possível ganhar tanto tornando me mais santo.
O capítulo tira uma consequência prática de tudo o que veio antes. Como a pureza exigida para ver a Deus é absoluta e igual para todos, a purificação que não se fizer aqui se fará depois; e como a glorificação para na morte, o que se faz depois não acrescenta nada. Daí o argumento, que não é de medo, e sim de economia espiritual: o mesmo despojamento que aqui aumenta a glória, ali apenas paga a dívida.