A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IICap. 1
Primeira Parte · O Fim · Livro II · Capítulo 1

Minhas obrigações

Essência

Não se pode construir sem princípios: a vida, feita para a eternidade, funda-se em princípios imutáveis. A obra é de Deus e a Sua ação tem a primazia; a mim cabe cooperar. Dessa cooperação nascem três deveres que são um só: a inteligência deve ver a Deus (verdade), a vontade deve amá-lo (caridade), a ação deve servi-lo (liberdade).

a vida se constrói para a eternidade
sobre princípios imutáveis
a ação de Deus tem a primazia
a minha coopera: conhecer, querer, fazer

Não se pode construir sem princípios

Não se pode construir sem princípios. A minha vida deve ser construída para a eternidade, e por isso precisa estar fundamentada em princípios imutáveis: o que se destina a durar para sempre não pode apoiar-se no que muda. Esses princípios são os que o Livro I estabeleceu, as relações essenciais do homem com Deus e com as criaturas.

Além disso, toda construção implica uma ação, e essa ação deve manter-se direcionada pelas leis essenciais. Sei que a obra é de Deus e que a ação de Deus tem a primazia; mas cabe a mim cooperar com essa ação. É dessa cooperação que nascem as minhas obrigações: se a construção é divina, o operário que sou não trabalha por conta própria, e o seu trabalho tem regras.

Uma obrigação tripla e una

Que deveres decorrem, para mim, desses grandes princípios? Para agir, preciso conhecer, querer e fazer: conhecer, querer e fazer são os três elementos de um ato humano completo. Tenho, portanto, uma obrigação ao mesmo tempo tripla e una: tripla, porque toca a inteligência, a vontade e as ações; una, porque essas três coisas não se devem separar. O capítulo percorre as três, e dá a cada uma o seu nome próprio:

a inteligência conhece: verdade
a vontade ama: caridade
a ação serve: liberdade

A inteligência deve ver a Deus: a verdade

A inteligência é o primeiro princípio dos atos humanos: vê o que se deve fazer e julga se os meios são proporcionados ao fim. Fui feito para a glória de Deus, e as criaturas são os instrumentos postos nas minhas mãos: eis o grande princípio. Que obrigação prática essa verdade impõe à minha mente? A de ver Deus como o propósito essencial e único da minha vida: tê-lo diante dos olhos, saber e lembrar que a sua glória é o grande fim que deve dominar, inspirar e dirigir toda a conduta. E a de considerar as criaturas como aquilo que realmente são, meios de glorificar a Deus: diante de cada uma, saber em que ela pode servir à glória de Deus, e em que medida é útil ou nociva a esse fim. Ver Deus em todas as coisas, ver todas as coisas segundo Deus e para Deus: eis o dever absoluto da minha mente.

Esse dever tem um nome: a verdade. Deus é a verdade substancial, e as coisas só são verdadeiras na medida em que se conformam às ideias divinas. Ter a verdade é ver Deus e as ideias de Deus: vê-lo em si mesmo, aqui na claridade nublada da fé, no céu nos esplendores da glória; e vê-lo nas coisas, porque o lado inteiramente verdadeiro das criaturas é o que glorifica o seu Autor. A verdade cresce em mim na medida em que a minha mente entra na visão de Deus.

A vontade deve amar a Deus

A vontade é determinada pela inteligência, segundo o velho adágio da filosofia: ninguém deseja o que não conhece. Mas não é determinada à força: posso conhecer e não querer. Por isso há um dever também para a vontade. E qual é o ato próprio da vontade?

O amorconceito para reter

O que é próprio da vontade é amar. E o objeto direto do amor é o bem: de tal forma que o amor não é outra coisa senão a vontade do bem.

Ora, o que é o bem? É Deus. E o capítulo o diz em três títulos, que convém guardar de cor:

O que é o bem? É Deus
Bem soberanoprincípio de todo bem
Bondade supremafonte primária de toda bondade
Amor essencialfonte de todo amor verdadeiro

O dever da vontade se deduz daí: estimar, apreciar e amar a glória de Deus como o meu único bem essencial, nada amar acima dela, nada contra ela, nada fora dela; sentir que nela está o meu tudo, e que sem ela tudo me é nada. E amar nas criaturas, antes de tudo, o que nelas é essencial: o meio de obter o meu tudo. A medida do meu amor e a causa da minha preferência devem ser exatamente a medida em que elas me ajudam a glorificar a Deus. Quando a vontade se apega antes de tudo ao que nas criaturas conduz a Deus, está na plenitude do seu dever; e essa plenitude tem o nome que São João dá ao próprio Deus.

A caridade

Deus é caridade, e quem permanece na caridade permanece em Deus, e Deus nele. O que é, pois, a caridade?

A caridadeconceito para reter

É Deus divinamente amado: amado em si mesmo, e amado nas criaturas.

Em si mesmo, antes de tudo: amado por ser quem é, o Bem soberano, a Bondade suprema, o Amor essencial. Que eu o ame em si mesmo e por si mesmo, aplique em amá-lo toda a força de querer do meu ser, nutra o coração da substância do seu amor. A caridade cresce em mim na medida em que o meu coração entra no amor de Deus.

Em seguida vêm as criaturas, amadas nele e em vista dele: no que Ele nelas realiza, e no que elas são e fazem por Ele. Quando em todas as coisas o meu coração procura e abraça o que contribui para a honra da santa bondade, tenho e conheço a caridade de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento.

E a caridade me faz entrar na plenitude de Deus e de todas as coisas. As coisas só têm a sua plenitude na glória de Deus, pois o que lhes dá realidade, essência e individualidade é o que nelas conduz a Deus; a terra tem a sua plenitude na posse de Deus, está cheia do seu louvor. Essa plenitude, é a caridade que a abraça, amando em tudo somente o que leva à glória divina; e assim alcança a realidade de todas as coisas. Eis por que o amor é o cumprimento da lei.

A ação deve servir a Deus

Da vontade deve resultar a ação; e a ação procura, escolhe, utiliza e executa. Devo, pois, antes de tudo, procurar a glória de Deus, a Ele servir, e me servir das coisas em vista d’Ele. E o que quer dizer servir a Deus?

Servir a Deusconceito para reter

Aplicar e direcionar ao seu culto as minhas forças de agir; consagrar-lhe os esforços e os movimentos; dirigir a Ele as ocupações e o trabalho, de modo que nada em mim fique fora do seu serviço, segundo o caráter e a medida da minha vocação.

E servir-me de todas as coisas para Deus: buscar, escolher e usar as criaturas na medida em que ajudam a glorificá-lo, nem mais, nem menos. Não tenho outra razão essencial para procurar as criaturas, nem outra razão essencial para deixá-las de lado. Posso, sem dúvida, buscar as que me trazem satisfação e evitar as que me causam incômodo: a máquina não dispensa o seu óleo, e um pouco de alegria deve lubrificar o mecanismo das faculdades. Mas devo fazê-lo apenas subsidiariamente, em conformidade com o grande negócio e em vista dele. Jamais a minha satisfação ou o meu prazer deve ser a regra ou a finalidade primeira das minhas ações.

O capítulo então condensa tudo numa regra, que convém ter à mão:

A regra das minhas ações
Agirsegundo a glória de Deus
Preferiro que melhor contribui para ela
Pôr em segundo planoo que lhe for menos útil
Afastaro que a possa impedir

Se cumpro essa regra, as minhas obras são perfeitas e os meus caminhos retos; sou então um justo, pois é ao justo que Deus conduz pelos caminhos retos.

A liberdade

Sou justo, e sou também livre. Quando vejo em cada instrumento o que me ajuda a ir a Deus, e o meu amor se apega a isso, consigo usar cada coisa na medida em que serve à glória de Deus, que é a única coisa que considero e amo soberanamente. Mas chegar a esse ponto supõe uma grande liberdade. As palavras "nem mais, nem menos" indicam bem o grau de liberdade que a minha ação deve atingir.

Devo dominar os meus instrumentos a ponto de poder tomá-los, usá-los e largá-los livremente, conforme a utilidade: utilizar cada coisa exatamente até onde é ou pode ser proveitosa à glória de Deus, sem que os meus gostos me façam ultrapassar a medida, nem as minhas aversões me impeçam de alcançá-la; empregar o útil enquanto é útil, deixar o contrário enquanto é contrário; não permitir que nenhuma preferência ou repugnância da natureza modifique de fato a minha ação. Isso é ter a liberdade grande, soberana e real dos filhos de Deus; e é a essa liberdade de ação que sou chamado.

E o capítulo se fecha com a frase que resume tudo: se a minha mente estiver na verdade, o meu coração na caridade e as minhas ações na liberdade, então terei cumprido todas as obrigações da minha vida.

As três obrigaçõeso conceito central do capítulo

A mente na verdade, o coração na caridade, as ações na liberdade: quem realiza as três numa só vida cumpre todas as obrigações da existência.

Se a minha mente estiver na verdade, o coração na caridade e as ações na liberdade, terei cumprido todas as obrigações da minha vida.

Pontos-chave
A vida se constrói para a eternidade e por isso se funda em princípios imutáveis; a obra é de Deus, com primazia da Sua ação, e a mim cabe cooperar.
Conhecer, querer e fazer são os três elementos do ato humano completo; a obrigação é tripla e una.
A inteligência deve ver Deus em todas as coisas e as coisas segundo Deus: isso é estar na verdade.
Ninguém deseja o que não conhece; mas posso conhecer e não querer: por isso há um dever também para a vontade.
O amor é a vontade do bem; e o bem é Deus: Bem soberano, Bondade suprema, Amor essencial.
A caridade é Deus divinamente amado: em si mesmo antes de tudo, e nas criaturas, amadas nele e em vista dele.
Servir a Deus é aplicar ao seu culto as forças de agir; a satisfação própria jamais é a regra primeira das ações.
A regra das ações: agir segundo a glória, preferir o que mais contribui, pôr em segundo plano o menos útil, afastar o que impede; quem a cumpre é justo.
Nem mais, nem menos: o grau de liberdade da ação; a liberdade soberana e real dos filhos de Deus.
Termos
Verdade
ver Deus em si mesmo e nas coisas; as coisas só são verdadeiras enquanto conformes às ideias divinas.
O amor
o ato próprio da vontade; a vontade do bem: amar não é outra coisa senão querer o bem.
O bem
Deus: Bem soberano (princípio de todo bem), Bondade suprema (fonte primária de toda bondade), Amor essencial (fonte de todo amor verdadeiro).
Caridade
Deus divinamente amado em si mesmo e nas criaturas, amadas nele e em vista dele, no que Ele nelas realiza e no que elas são e fazem por Ele.
Servir a Deus
aplicar e direcionar ao culto de Deus as forças de agir, consagrando-lhe esforços, ocupações e trabalho, segundo a medida da vocação.
Liberdade
o domínio dos instrumentos: tomar, usar e largar cada coisa conforme a utilidade divina, nem mais, nem menos, sem que gosto ou repugnância desviem a medida.

In libertatem gloriae filiorum Dei.

Para a liberdade da glória dos filhos de Deus.

Romanos 8, 21
Para reter

Três deveres numa só vida: ver a Deus (verdade), amá-lo como o Bem soberano (caridade), servi-lo nem mais nem menos (liberdade). O amor é a vontade do bem, e o bem é Deus.

Fonte · Primeira Parte, Livro II, capítulo 1
← Anterior
Abertura do Livro II
Próximo →
A essência da piedade