A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro ICap. 9
Segunda Parte · O Caminho · Livro I · Capítulo 9 · Resumo

O espírito de piedade

Essência

O resumo do Livro cabe numa frase: o que importa ver, amar e seguir na lei não é a lei, e sim a vontade de que ela é expressão. E a razão é decisiva. A união com Deus é união de vontades, de modo que eu o encontro onde a vontade dele está, e não onde eu gostaria que estivesse. Por isso ele está presente na obrigação que me pressiona agora, por mais comum ou rude que seja o trabalho, perto, atrás de um véu fino; e a alma de olhos embotados, que só vê a obrigação material, vai procurá-lo noutro lugar, em alguns exercícios de devoção, e não o encontra ali, porque ali não está a sua vontade.

na lei, o que importa é a vontade que ela exprime
e a união com Deus é união de vontades
logo, encontro-o onde a vontade dele está
inclusive na obrigação mais rude, atrás de um véu fino
e ali está também a sua graça

O encontro divino

Afinal, o que mais importa ver, amar e seguir na lei não é a lei em si, mas a vontade de que ela é a expressão. É isso que se deve ver, amar e buscar: se vejo isso, vejo tudo; se não vejo isso, não vejo nada. Se me apego diretamente à vontade de Deus, chego diretamente ao meu fim.

A união é de vontadeso conceito central do capítulo

A união da minha alma com Deus é união moral, isto é, união de vontades. Encontro-o quando a minha vontade se encontra com a dele, e uno-me a ele quando a minha vontade se une à sua. Onde eu não vejo a sua vontade, não me uno a ele; e, no que toca à minha união com ele, Deus só está, quanto a mim, onde está a sua vontade.

E qual é o meu fim? Ir a Deus e unir-me a ele, para glorificá-lo e ser feliz. É nesse encontro da alma com Deus que se acham a glória dele e a minha felicidade. Mas onde se encontra Deus? Onde está a sua vontade.

O homem animal, porque não entende o que é o Espírito de Deus, vê apenas o lado material das suas obrigações, e a alma, absorvida por esse lado, é afastada de Deus. Seja qual for a ocupação que Deus me pede, ainda que a mais comum, e o trabalho o mais rude, Deus está ali, porque ali está a sua vontade. Está ali, bem perto, transparente atrás de um véu fino.

A alma de olhos embotados não o vê: vê só a obrigação material, que lhe ocupa e prende o olhar. E quando deseja encontrá-lo, volta-se para outro lado, a ver se o acha em alguns exercícios de devoção. E ali não o encontra, porque ali não está a sua vontade: ela só está na obrigação que pressiona no momento.

Atravessar o véu

Quando tenho uma obrigação a cumprir, se eu soubesse olhar através do véu, não iria procurar Deus longe, quando ele estava ali diante de mim, bem perto. Se olhasse com mais cuidado, se tentasse ver atrás do véu, veria Deus ali, chamando-me: vem, ele diz, estou aqui, a minha vontade está aqui, a minha graça está aqui.

Nota bene

A razão dessa última frase é o que torna o capítulo praticamente decisivo: a graça está onde está a vontade. Buscar Deus fora do dever presente não é apenas procurá-lo onde ele não está; é procurar auxílio onde o auxílio não foi prometido.

Quando entendo assim as minhas obrigações, mergulho no cumprimento do dever para mergulhar inteiramente em Deus. Que cegueira a minha, não te ver em cada obrigação que me impões. Há um véu sobre os nossos corações; mas, quando nos convertermos ao Senhor, o véu será tirado.

Cum autem conversus fuerit ad Dominum, auferetur velamen.

Mas, quando se converter ao Senhor, o véu será tirado.

2 Coríntios 3, 16
Pontos-chave
O que importa ver, amar e seguir na lei não é a lei, mas a vontade que ela exprime.
Se vejo isso, vejo tudo; se não vejo isso, não vejo nada.
Apegar-se diretamente à vontade de Deus é chegar diretamente ao fim.
A união com Deus é união moral, isto é, união de vontades.
No que toca a essa união, Deus só está, quanto a mim, onde está a sua vontade.
O homem animal só vê o lado material da obrigação, e por isso se afasta.
Na ocupação mais comum e no trabalho mais rude Deus está, atrás de um véu fino.
Quem o procura em exercícios de devoção escolhidos por si não o acha, porque ali não está a sua vontade.
Atrás do véu ele chama: estou aqui, a minha vontade está aqui, a minha graça está aqui.
A graça está onde está a vontade: procurá-lo fora do dever é procurar auxílio onde ele não foi prometido.
Entendida assim a obrigação, mergulhar no dever é mergulhar em Deus.
Termos
O espírito de piedade
ver na lei a vontade de que ela é expressão, e apegar-se a essa vontade e não à forma exterior.
União moral
a união com Deus é união de vontades; encontro-o quando a minha se encontra com a dele.
O véu fino
a obrigação material que esconde e ao mesmo tempo mostra a presença divina na tarefa do momento.
O homem animal
aquele que, não entendendo o Espírito de Deus, vê só o lado material do que lhe é pedido.
Para reter

Este capítulo reduz o Livro a um só gesto: atravessar a lei até a vontade que a habita. Como a união com Deus é união de vontades, ele está exatamente onde a sua vontade está, isto é, na obrigação que me pressiona agora, e não na devoção que eu escolheria. E a consequência mais prática está na frase sobre a graça: ela acompanha a vontade, de modo que quem procura Deus fora do dever presente procura também socorro onde não lhe foi prometido.

Fonte · Segunda Parte, Livro I, capítulo 9
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Conclusões práticas