O estado de perfeição
Ao falar em estado de perfeição é preciso distinguir dois sentidos que a mesma expressão carrega: o estado externo, que é uma organização de meios ordenada a facilitar a subida, e o estado interno, que é a perfeição efetivamente adquirida. As ordens religiosas realizam o primeiro, e por isso se chamam institutos de perfeição: quem se obriga por compromissos duradouros constitui-se nele. O segundo não está firmado enquanto não houver facilidade e prontidão em ver, amar e buscar a Deus primeiro, a ponto de preferir morrer a cometer uma imperfeição voluntária. Ao fim, a distinção que Santo Tomás faz entre a perfeição do bispo, que é ativa, e a do religioso, que é recebida.
Uma advertência de leitura, para que os degraus não se embaralhem. A perfeição de que este capítulo trata é a do grau estudado no Livro III, aquele que remove a preferência humana, e não os cumes de que falam os capítulos anteriores. É por isso que a tradução inglesa traz este capítulo e o seguinte no fim do Livro III; a edição brasileira os coloca aqui, junto ao tratamento dos estados, e a concordância entre as duas edições está anotada na abertura do Livro.
O estado externo
Uma organização de meios exteriores ordenada à realização mais pronta e mais plena da perfeição interior. É o que realizam as ordens religiosas, em condições tão diversas quanto as suas vocações, e por isso se chamam institutos de perfeição.
As ordenações e práticas de culto e de disciplina estão nelas organizadas com o fim especial de facilitar às almas escolhidas a subida rumo à restauração total da vida. E quem vem submeter-se por compromissos duradouros a essas ordenações, de culto quanto a Deus e de disciplina quanto a si, constitui-se por isso mesmo nesse estado.
É estado, porque os compromissos o estabelecem numa posição permanente. E é de perfeição, porque tudo na sua condição, os votos e a regra, lhe impõe e lhe facilita o progresso rumo à plena restauração da honra de Deus.
O estado interno
O estado interno é a perfeição adquirida, a realização prática do esquema inteiro da vida ascética: a alma vivendo habitual e universalmente, na mente, no coração e nos sentidos, na visão, no amor e na busca de Deus em primeiro lugar. É a piedade chegada ao fim da sua segunda etapa.
Mas ele não está firmado em mim enquanto não houver facilidade e prontidão nisso, e enquanto eu não fizer com desembaraço os sacrifícios necessários para manter a minha satisfação constantemente no seu lugar. E não está completo nem acabado enquanto eu não me sentir disposto a sacrificar a própria vida antes de cometer uma imperfeição voluntária.
Antes morrer do que buscar-me voluntariamente diante de Deus, mesmo na menor coisa: esta é a linguagem da perfeição.
A perfeição religiosa
É ao estado interno que o religioso se obriga a tender pelos votos. Eliminar pouco a pouco a imperfeição, manter decididamente a glória de Deus em primeiro lugar, amá-la e buscá-la primeiro em todas as coisas, e nunca permitir que a própria satisfação lhe usurpe o lugar: tal é o propósito da vida religiosa.
As vias mais altas não caem sob a obrigação dos votos do mesmo modo. Sem dúvida, quem traz no coração a subida misteriosa não porá limite à sua carreira, como Deus não põe limite aos seus apelos e à sua graça, e entrará de bom grado nos caminhos mais estreitos se for convidado. Mas importa antes de tudo medir de relance o caminho que tem a correr e considerar o fim a que deve tender, e esse fim é a perfeição.
A perfeição do bispo e a do sacerdote
Segundo Santo Tomás, é neste estado que os bispos devem estar estabelecidos, porque receberam o magistério da perfeição. Neles a perfeição há de estar em estado ativo: não basta que sejam perfeitos, devem ser propagadores da perfeição, tendo por ofício conduzir outros a ela.
E é o estado que convém ao sacerdote, não por causa das obrigações essenciais impostas pela ordenação ou pelo ofício, e sim por causa dos atos sagrados que cumpre, pois, para cumpri-los dignamente, deve possuir a perfeição interior.
Estote ergo vos perfecti, sicut et Pater vester cælestis perfectus est.
Sede vós, pois, perfeitos, como também o vosso Pai celeste é perfeito.
O capítulo separa duas coisas que a linguagem corrente mistura: estar num estado de perfeição, no sentido de ter abraçado uma condição de vida ordenada a ela, e ter a perfeição. A primeira se contrai por compromisso; a segunda se mede pela facilidade em manter Deus no primeiro lugar e pela disposição de morrer antes de uma imperfeição voluntária. E a distinção final ainda separa quem recebe de quem transmite: no religioso a perfeição é recebida, no bispo é ofício.