A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IICap. 3
Primeira Parte · O Fim · Livro II · Capítulo 3

A virtude da piedade

Essência

A piedade não é o ato de ver, amar e buscar a Deus: é o hábito, a facilidade e a prontidão em fazê-lo. Tem corpo (todos os conhecimentos, virtudes e ações) e alma (a caridade). E é assunto da inteligência e da vontade, não do sentimento: o sentimento é bom criado e péssimo senhor.

O feixe que não se pode romper

Tal é a piedade. E o seu equilíbrio é delicado como o de um feixe atado:

As patologias da piedade
Mutilada e falsase rompo o feixe e retiro um dos elementos
Misturada e impurase introduzo nela um elemento estranho
Lânguida e enfermase um dos elementos enfraquece ou se deteriora
Dividida e desfeitase o laço entre os elementos se afrouxa ou se quebra

Ela deve, portanto, ser verdadeira, plena e forte, com cada elemento puro; una, com a união íntima e firme dos elementos; e crescente, até a consumação. Quando esse estado se constitui em mim, forma-se a virtude da piedade.

Facilidade e prontidão: a piedade é hábito

Não é o ato de ver, amar e buscar a Deus que constitui a piedade. A piedade é um hábito; e, como todo hábito, é uma facilidade, uma prontidão para os atos que lhe pertencem. É a facilidade e a prontidão em ver, amar e buscar a Deus em todas as coisas que constitui a piedade. A virtude da devoção, como lhe chama São Francisco de Sales, não consiste em guardar os mandamentos, mas em guardá-los com prontidão e boa vontade: uma virtude geral, oposta à preguiça espiritual, que nos faz prontos no serviço de Deus.

Enquanto não adquiro essa prontidão, não adquiri a virtude. E o capítulo se volta em oração: meu Deus, onde está em mim essa prontidão? Até quando, pobre filho do homem, serei tão pesado de coração? Quando dilatarás o meu coração, para eu correr pelo caminho dos teus mandamentos? Quem me dará asas como as da pomba, para voar e repousar em Deus?

A grande disposição: corpo e alma

Assim entendida, a piedade é o grande dever que resume todos os deveres e a grande virtude de onde fluem e para onde tendem todas as virtudes. As virtudes humanas da prudência, fortaleza, justiça e temperança, utilizadas pelas virtudes divinas da fé, esperança e caridade, condensam-se nela; e não só as virtudes: os conhecimentos da mente, as ações do corpo, todo movimento vital se centra e se une nessa disposição soberana. Por isso ela é proveitosa para tudo e tem as promessas da vida presente e da futura.

Como se dá essa reunião viva? A piedade é um todo uno: a totalidade mostra que tem um corpo, a unidade mostra que tem uma alma. O corpo da piedade são todos os membros da vida humana: cada conhecimento da mente, cada virtude do coração, cada ação das potências; não há manifestação da vida que não possa e não deva ser membro desse corpo. A alma desse corpo é a caridade divina, sua forma viva, seu princípio de animação sobrenatural. São Paulo, depois de aconselhar as diversas virtudes, termina: acima de tudo isso, tende a caridade, que é o vínculo da perfeição. Ela não é sozinha toda a perfeição, pois nunca vai sem as outras virtudes; mas é a alma que lhes dá vida.

Na sua unidade viva, a piedade não deixa perder-se um só fragmento da atividade humana: o sono como o alimento, o trabalho como a oração, um suspiro como um sorriso, tudo se enche de vida, de glória, de mérito e de eternidade. Fora da piedade, quanto desperdício.

A virtude da piedadeo conceito central do capítulo

O hábito da piedade: a facilidade e a prontidão em ver, amar e buscar a Deus em todas as coisas; um corpo feito de todos os atos da vida, animado pela caridade.

Assunto da inteligência, não do sentimento

Dos elementos da piedade resulta que ela é, antes de tudo, assunto da inteligência e da vontade. Começa na inteligência, continua pela vontade e termina na ação; tem o início na verdade, o centro e o ápice na caridade, o cumprimento na liberdade. É o exercício mais alto das faculdades do homem. Não é, portanto, um pequeno negócio de sentimento; é abuso de palavras dar o grande nome de piedade aos trejeitos afetados de tantas almas estreitas nos exercícios espirituais.

O sentimento e a imaginação são bons em si mesmos: essa parte inferior da alma é também um belo dom de Deus, chamada a embelezar o contorno duro do dever e a revesti-lo de atrativos puros. Têm lugar na piedade, e a graça utiliza todos os recursos naturais; suprimir a sua função normal seria ferir a natureza e estorvar a graça. Mas com uma condição: que não queiram tornar-se o principal ou o todo. As faculdades sensíveis são criadas de servir. Ser conduzido pelo sentimento é pôr o criado a governar a casa e fazer o senhor abdicar. Não é o sentimento que é mau; é a parte desordenada que se lhe atribui.

Quando o sentir desaparece

Em algumas almas a emoção é de tal modo o todo da piedade que, desaparecido o sentir, julgam ter perdido a devoção: não tenho mais piedade, já não sinto nada. Tinham apenas sentimento; ido ele, nada lhes resta, de fato. Mas não foi a piedade que perderam: nunca a tiveram. E este é justamente o momento de começar a tê-la: o maior estorvo se foi, o caminho que o sentimentalismo bloqueava está livre. Como se conhece pouco o que é a piedade, e como se está longe de suspeitar o que ela é na sua plenitude.

O sono como o alimento, o trabalho como a oração, um suspiro como um sorriso: na piedade, tudo se enche de glória e de eternidade.

Pontos-chave
A piedade é um feixe: mutilada sem um elemento, impura com elemento estranho, enferma se um enfraquece, desfeita se o laço se rompe.
Não é o ato, é o hábito: a facilidade e a prontidão em ver, amar e buscar a Deus em tudo.
São Francisco de Sales: a devoção não consiste em guardar os mandamentos, mas em guardá-los com prontidão e boa vontade.
O corpo da piedade são todos os atos da vida; a alma é a caridade, vínculo da perfeição; nada se desperdiça.
A piedade começa na inteligência e não no sentimento; o sentimento é bom criado, não pode governar a casa.
Quem "perde a devoção" quando o sentir seca nunca a teve; esse é o momento de começar a tê-la.
Termos
Virtude da piedade
o hábito adquirido da piedade: prontidão e facilidade nos seus atos, não os atos isolados.
Corpo e alma da piedade
o corpo: todos os conhecimentos, virtudes e ações da vida. A alma: a caridade, que os anima e une.
Sentimento
dom natural bom e útil, criado da inteligência e da vontade; desordena-se quando quer ser o principal ou o todo da piedade.

Super omnia autem haec, charitatem habete, quod est vinculum perfectionis.

Acima de tudo isto, porém, tende a caridade, que é o vínculo da perfeição.

Colossenses 3, 14
Para reter

Piedade é hábito, não ato nem emoção: prontidão em ver, amar e buscar a Deus em tudo. Corpo de todos os meus atos, alma de caridade.

Fonte · Primeira Parte, Livro II, capítulo 3
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