Do que a perfeição se reveste
A morte das satisfações não é como a do corpo: para o corpo a ressurreição é adiada até o fim dos tempos, mas as satisfações ressuscitam à medida que morrem, transfiguradas na glória de Deus. Por isso o santo nunca fica sem satisfação, e o plano original, glória de Deus em primeiro lugar e felicidade do homem em segundo, jamais é lesado: perdemos o humano para achar o divino. Despojado o homem velho, é preciso revestir o novo, retomando afeições, agora porque agradam a Deus. E porque os graus são degraus, não se sobe a um sem passar pelos anteriores, o que tem consequência prática na direção das almas.
Morro cada dia
A morte das nossas satisfações não é bem como a morte do corpo. Morremos todos os dias, e isso vale tanto para os corpos quanto para as satisfações: dia após dia caem alguns fragmentos, até que o último resto do muro de separação se desfaça.
Quotidie morior.
Cada dia eu morro.
Só que há uma diferença capital. Para o corpo, a ressurreição é diferida e se dará no fim dos tempos, de uma só vez; quanto às satisfações, à medida que morrem, já ressuscitam na glória de Deus. Esquecendo a própria satisfação e imolando-a a essa glória, o santo a reencontra transfigurada e purificada nela mesma.
O plano original, que põe a glória de Deus em primeiro lugar e a felicidade do homem em segundo, nunca é lesado. Esquecimento de si, ódio de si, aniquilamento e morte são apenas a transformação da morte em vida, e a absorção da morte na vitória.
Quem quiser salvar a sua vida a perderá, e quem a perder por causa de Cristo a encontrará. É preciso perder tudo para achar tudo, porque só se pode achar o que se perdeu: perdemos o humano para achar o divino.
A renovação
São Francisco de Sales adverte que é impossível permanecer muito tempo nesse estado de nudez, despojado de toda espécie de afeições. Por isso, como observa o Apóstolo, depois de tirar as vestes do homem velho é preciso pôr as do homem novo, isto é, as de Jesus Cristo.
Tendo renunciado a tudo, e até às afeições pelas virtudes, de modo a não querer nem umas nem outras senão na medida em que o beneplácito de Deus nos leve, é preciso revestir logo várias afeições, e talvez as mesmas a que renunciamos; mas revesti-las não porque nos agradem, nos sejam úteis, honrosas e próprias a satisfazer o amor-próprio, e sim porque agradam a Deus, servem à sua honra e se destinam à sua glória.
Assim, todos os dias o nosso homem exterior se corrompe, e no entanto o interior se renova.
Licet is qui foris est noster homo corrumpatur, tamen is qui intus est renovatur de die in diem.
Ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior se renova de dia em dia.
Subir por degraus
Que coisa alta é este grau, e quão perfeito é preciso ser para alcançá-lo. Perfeito mesmo: é necessário ter percorrido o caminho da perfeição, ao menos no sentido explicado no Livro III, para chegar a estas regiões. E a observação vale em geral: os graus da piedade se erguem um acima do outro como degraus, e não se sobe a um mais alto sem ter passado pelos que estão abaixo.
Isso não impede duas coisas. O grau superior começa a formar-se enquanto o anterior atinge a sua perfeição, e nos graus inferiores praticam-se, por vezes, atos próprios dos superiores: um pecador pode sair da sua condição infeliz por um ato digno do mais alto grau. Mas, em geral, só se alcança um estado percorrendo os degraus que a ele conduzem.
O capítulo tira daqui uma consequência prática para a direção das almas. Cada grau tem os seus deveres e as suas luzes próprias, e impor a alguém deveres acima do seu estado é expor-se a erros graves. O exemplo dado é o voto do mais perfeito, que não deve ser permitido a uma alma na qual o estado de perfeição ainda não esteja solidamente estabelecido.
O voto do mais perfeito e as ninharias
Segue uma observação importante de Santa Teresa. Quem se obriga pelo voto do mais perfeito não deve deter-se em pequenos nadas e nas minúcias da vida, perguntando a cada instante em qual desses detalhes está a maior glória de Deus. Isso seria pueril e ridículo, e tornaria a vida cheia de inquietação, sujeita a escrúpulos e ilusões. Não se trata, diz ela, de correr atrás de lagartixas.
O que está em causa é uma grande disposição da alma: estabelecer-se num grande esquecimento de si, num grande desprezo do que é criado, num imenso desejo da glória de Deus. E então, fidelidade simples e constante nas coisas pequenas, e escolha generosa do mais perfeito nas circunstâncias de alguma importância.
Quanto ao resto, a luz é proporcional aos deveres. Uma alma nos graus inferiores, sem luz correspondente ao seu estado, cairá facilmente em ilusões ao procurar o mais perfeito, e daí virão exageros e escrúpulos. Quem chegou a esta altura não teme esses recifes, porque tem luz bastante para desviar-se deles, e de longe distingue o que é grande do que é pequeno. Feliz quem sabe contentar-se com a luz de Deus, contar com ela e abrir os olhos aos seus raios à medida que crescem.
A própria Santa Teresa, na prática, modificou o seu voto de modo a considerar como mais perfeito apenas aquilo que o confessor lhe confirmasse como tal: o modo mais seguro de cortar cerce as inquietações e os escrúpulos.
Depois do despojamento vem o revestimento, e é aqui que o capítulo desfaz a impressão de que a santidade seria uma vida sem satisfação alguma. As satisfações morrem e ressurgem no mesmo movimento, purificadas, e as afeições são retomadas, agora porque agradam a Deus. Fica também a regra que protege contra o exagero: sobe-se por degraus, cada grau tem a sua luz, e o mais perfeito se escolhe nas coisas de alguma importância, não nas lagartixas.