A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IVCap. 3
Primeira Parte · O Fim · Livro IV · Capítulo 3 · Via unitiva · 4º grau de piedade

Do que a perfeição se reveste

Essência

A morte das satisfações não é como a do corpo: para o corpo a ressurreição é adiada até o fim dos tempos, mas as satisfações ressuscitam à medida que morrem, transfiguradas na glória de Deus. Por isso o santo nunca fica sem satisfação, e o plano original, glória de Deus em primeiro lugar e felicidade do homem em segundo, jamais é lesado: perdemos o humano para achar o divino. Despojado o homem velho, é preciso revestir o novo, retomando afeições, agora porque agradam a Deus. E porque os graus são degraus, não se sobe a um sem passar pelos anteriores, o que tem consequência prática na direção das almas.

morremos todos os dias, e as satisfações ressurgem já
o santo nunca fica sem satisfação
perde-se o humano para encontrar o divino
despojado o velho, reveste-se o homem novo
e sobe-se por degraus, sem pular nenhum

Morro cada dia

A morte das nossas satisfações não é bem como a morte do corpo. Morremos todos os dias, e isso vale tanto para os corpos quanto para as satisfações: dia após dia caem alguns fragmentos, até que o último resto do muro de separação se desfaça.

Quotidie morior.

Cada dia eu morro.

1 Coríntios 15, 31

Só que há uma diferença capital. Para o corpo, a ressurreição é diferida e se dará no fim dos tempos, de uma só vez; quanto às satisfações, à medida que morrem, já ressuscitam na glória de Deus. Esquecendo a própria satisfação e imolando-a a essa glória, o santo a reencontra transfigurada e purificada nela mesma.

O santo nunca fica sem satisfaçõeso conceito central do capítulo

O plano original, que põe a glória de Deus em primeiro lugar e a felicidade do homem em segundo, nunca é lesado. Esquecimento de si, ódio de si, aniquilamento e morte são apenas a transformação da morte em vida, e a absorção da morte na vitória.

Quem quiser salvar a sua vida a perderá, e quem a perder por causa de Cristo a encontrará. É preciso perder tudo para achar tudo, porque só se pode achar o que se perdeu: perdemos o humano para achar o divino.

A renovação

São Francisco de Sales adverte que é impossível permanecer muito tempo nesse estado de nudez, despojado de toda espécie de afeições. Por isso, como observa o Apóstolo, depois de tirar as vestes do homem velho é preciso pôr as do homem novo, isto é, as de Jesus Cristo.

Tendo renunciado a tudo, e até às afeições pelas virtudes, de modo a não querer nem umas nem outras senão na medida em que o beneplácito de Deus nos leve, é preciso revestir logo várias afeições, e talvez as mesmas a que renunciamos; mas revesti-las não porque nos agradem, nos sejam úteis, honrosas e próprias a satisfazer o amor-próprio, e sim porque agradam a Deus, servem à sua honra e se destinam à sua glória.

Assim, todos os dias o nosso homem exterior se corrompe, e no entanto o interior se renova.

Licet is qui foris est noster homo corrumpatur, tamen is qui intus est renovatur de die in diem.

Ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior se renova de dia em dia.

2 Coríntios 4, 16

Subir por degraus

Que coisa alta é este grau, e quão perfeito é preciso ser para alcançá-lo. Perfeito mesmo: é necessário ter percorrido o caminho da perfeição, ao menos no sentido explicado no Livro III, para chegar a estas regiões. E a observação vale em geral: os graus da piedade se erguem um acima do outro como degraus, e não se sobe a um mais alto sem ter passado pelos que estão abaixo.

A ordem que não se pula
Do primeiro ao segundonão se firma na fuga do pecado venial quem não se fortaleceu antes contra o mortal
Do segundo ao terceironão se evitam habitualmente as imperfeições enquanto não se evitam os pecados veniais
Do terceiro ao quartonão se chega a este grau sem ter percorrido o caminho da perfeição

Isso não impede duas coisas. O grau superior começa a formar-se enquanto o anterior atinge a sua perfeição, e nos graus inferiores praticam-se, por vezes, atos próprios dos superiores: um pecador pode sair da sua condição infeliz por um ato digno do mais alto grau. Mas, em geral, só se alcança um estado percorrendo os degraus que a ele conduzem.

Nota bene

O capítulo tira daqui uma consequência prática para a direção das almas. Cada grau tem os seus deveres e as suas luzes próprias, e impor a alguém deveres acima do seu estado é expor-se a erros graves. O exemplo dado é o voto do mais perfeito, que não deve ser permitido a uma alma na qual o estado de perfeição ainda não esteja solidamente estabelecido.

O voto do mais perfeito e as ninharias

Segue uma observação importante de Santa Teresa. Quem se obriga pelo voto do mais perfeito não deve deter-se em pequenos nadas e nas minúcias da vida, perguntando a cada instante em qual desses detalhes está a maior glória de Deus. Isso seria pueril e ridículo, e tornaria a vida cheia de inquietação, sujeita a escrúpulos e ilusões. Não se trata, diz ela, de correr atrás de lagartixas.

O que está em causa é uma grande disposição da alma: estabelecer-se num grande esquecimento de si, num grande desprezo do que é criado, num imenso desejo da glória de Deus. E então, fidelidade simples e constante nas coisas pequenas, e escolha generosa do mais perfeito nas circunstâncias de alguma importância.

Quanto ao resto, a luz é proporcional aos deveres. Uma alma nos graus inferiores, sem luz correspondente ao seu estado, cairá facilmente em ilusões ao procurar o mais perfeito, e daí virão exageros e escrúpulos. Quem chegou a esta altura não teme esses recifes, porque tem luz bastante para desviar-se deles, e de longe distingue o que é grande do que é pequeno. Feliz quem sabe contentar-se com a luz de Deus, contar com ela e abrir os olhos aos seus raios à medida que crescem.

A própria Santa Teresa, na prática, modificou o seu voto de modo a considerar como mais perfeito apenas aquilo que o confessor lhe confirmasse como tal: o modo mais seguro de cortar cerce as inquietações e os escrúpulos.

Pontos-chave
Morremos todos os dias, e isso vale tanto para os corpos quanto para as satisfações.
A ressurreição do corpo é diferida; a das satisfações se dá à medida que elas morrem.
Imolada à glória de Deus, a satisfação é reencontrada transfigurada nessa mesma glória.
O santo nunca fica sem satisfações: o plano original nunca é lesado.
Esquecimento e aniquilamento de si são transformação da morte em vida.
Quem quer salvar a vida a perde: perde-se o humano para achar o divino.
Não se pode permanecer muito tempo despojado de toda afeição.
Depois de tirar as vestes do homem velho, revestem-se as do novo, e retomam-se afeições, agora por Deus.
O homem exterior se corrompe enquanto o interior se renova dia após dia.
Os graus são degraus: não se sobe a um sem ter passado pelos anteriores.
O grau superior começa a formar-se enquanto o anterior se aperfeiçoa.
Um pecador pode praticar um ato digno do mais alto grau, mas o estado se alcança pela escada.
Cada grau tem deveres e luzes próprios: impor deveres acima do estado expõe a erros graves.
Santa Teresa: não correr atrás de lagartixas; o que importa é uma grande disposição da alma.
Fidelidade simples nas coisas pequenas e escolha generosa nas de alguma importância.
A luz é proporcional aos deveres, e por isso quem está no alto não teme esses escrúpulos.
Teresa passou a considerar mais perfeito apenas o que o confessor lhe confirmasse.
Termos
Quotidie morior
a morte diária das satisfações, que caem em fragmentos até desfazer-se o muro de separação.
Ressurreição antecipada
ao contrário do corpo, cuja ressurreição é diferida, a satisfação imolada ressurge já, transfigurada na glória de Deus.
O homem novo
as afeições retomadas depois do despojamento, agora queridas porque agradam a Deus e servem à sua honra.
A escada dos graus
a ordem dos graus da piedade, que se sobem um a um, ainda que o superior comece a formar-se durante o anterior.
Luz proporcional aos deveres
a regra que explica por que buscar o mais perfeito fora do próprio estado gera ilusão e escrúpulo.
Para reter

Depois do despojamento vem o revestimento, e é aqui que o capítulo desfaz a impressão de que a santidade seria uma vida sem satisfação alguma. As satisfações morrem e ressurgem no mesmo movimento, purificadas, e as afeições são retomadas, agora porque agradam a Deus. Fica também a regra que protege contra o exagero: sobe-se por degraus, cada grau tem a sua luz, e o mais perfeito se escolhe nas coisas de alguma importância, não nas lagartixas.

Fonte · Primeira Parte, Livro IV, capítulo 3
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