A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
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Segunda Parte · O Caminho · Capítulo preliminar

A vontade de Deus

Essência

Sabido o fim, falta o caminho, e ele é um só, como um só é o fim: a vontade de Deus. A razão é simples. Entre as criaturas, umas servem ao meu fim e outras o atrapalham, e é preciso escolher; se escolho por conta própria, escolho pelos meus gostos, e ponho-me outra vez antes de Deus. Só quem fez a criatura sabe o que há dentro dela. O capítulo apresenta então o reino dos céus e as suas duas entradas, e sobretudo as duas vontades de Deus, que são como as suas duas mãos: uma traça as regras e contém, a outra age dentro e anima. Da distinção entre elas nasce a divisão dos três Livros que se seguem.

o fim já é conhecido: falta o caminho
e o caminho é a vontade de Deus
que se manifesta por duas mãos
a que traça as regras e a que anima por dentro
e delas saem os três Livros desta Parte

Quem deve traçar o caminho

As meditações da Primeira Parte mostraram a finalidade da vida, o quanto o divino é anterior ao humano, o quanto Deus tem direito de possuir-me, o quanto os seus direitos precedem os meus interesses. É preciso agora ver como Deus exerce esses direitos de autoridade sobre a minha conduta, como a sua vontade deve reger a minha.

E há uma razão de método para que seja ele a traçar o caminho. Entre a variedade das criaturas, umas são úteis ao meu fim, outras nocivas, e umas mais úteis que outras: há escolha a fazer. Se quiser fazê-la por mim mesmo, só poderei fazê-la segundo os meus gostos e as minhas ideias, e isso é desordem nova: eu antes de Deus, o mal que se quer evitar a todo custo. Além disso, que sei eu do que há dentro das criaturas? Quem as fez é que sabe o que elas têm, e cabe a ele determinar de quais devo usar para a sua glória.

O reino dos céus

Nem todo o que diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus. Convém então perguntar que reino é esse. O reino dos céus é o reino do louvor de Deus: é próprio do céu manifestar a glória divina, e onde ressoam os louvores de Deus, ali está o reino.

Ele começa nesta terra, nas almas e na Igreja, e continua nos esplendores eternos, onde tem a sua plenitude. E a entrada nele é o começo do louvor: quando começo a glorificar a Deus, entro no reino, e cada novo modo de glorificá-lo é como uma nova entrada, ou melhor, a entrada numa nova morada, pois na casa do Pai há muitas moradas.

As duas entradas

Entrar e ser entrado
Eu entro nelequando procuro a glória de Deus; assim começo já aqui a viver o céu, porque começo a cantar essa glória
Ele entra em mimquando recebo os dons de Deus; eis que o reino de Deus está dentro de vós, e por isso peço no Pai-Nosso que venha a nós o vosso reino

E como se dá essa entrada? Não é pela oração. A oração não é o caminho: mais adiante se verá que é um meio, e um grande meio, mas um meio que só serve a quem está no caminho. Fora dele, quem toma o meio e diz Senhor, Senhor, não entrará.

Non omnis qui dicit mihi, Domine, Domine, intrabit in regnum cælorum: sed qui facit voluntatem Patris mei, qui in cælis est, ipse intrabit in regnum cælorum.

Nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse entrará no reino dos céus.

Mateus 7, 21

As duas vontades de Deus

O caminho, portanto, é um só, e é preciso conhecê-lo para percorrê-lo. A vontade de Deus é única, e no entanto, como diz São Francisco de Sales, embora a divina Majestade tenha uma só e simplicíssima vontade, nós a chamamos por nomes diferentes conforme os meios pelos quais a conhecemos, e essa variedade indica também os modos diversos pelos quais devemos conformar-nos a ela.

As duas mãos de Deuso conceito central do capítulo

Com uma das mãos Deus traça as regras do que devo fazer, estabelece as margens e mantém aberto o canal que deve dirigir, proteger e conter o meu movimento vital: é a parte fixa, o elemento estático. Com a outra ele age dentro de mim, suscitando e animando, imprimindo o impulso de um movimento sobrenatural: é a parte móvel, o elemento dinâmico.

Os nomes das duas
A vontade reveladaas leis, as regras, as indicações e as instituições, que servem para dirigir e conter a ação; chama-se assim porque põe ao longo do caminho os sinais que indicam a linha a seguir
A vontade de beneplácitoas disposições da Providência, as inspirações e os bons impulsos, a ação íntima de Deus; chama-se assim porque nessa ação vivificadora Deus manifesta livremente as complacências da sua bondade misericordiosa
Nota bene

Uma diferença de tradução que convém guardar: onde a edição brasileira diz vontade revelada, a tradução inglesa diz vontade significada. É a mesma coisa, e o segundo nome explica melhor a razão do primeiro, já que se trata de sinais postos no caminho.

As duas habitações do Espírito Santo

No fundo, essas duas manifestações da vontade divina são a dupla habitação do Espírito Santo prometida pelo Senhor à sua Igreja. A vontade é o atributo que se apropria ao Espírito Santo, e ao anunciar a sua missão o Senhor disse: o Espírito da Verdade permanecerá convosco e estará em vós.

Permanecer convosco e estar em vós
Permanecerá convoscoa habitação na casa, que é a Igreja: presença pública, exterior e oficial, pela qual o Espírito da Verdade mantém as leis e dirige as pessoas que são intérpretes das leis de Deus
Estará em vósa habitação íntima e pessoal do Espírito de santidade, agindo na alma e nela produzindo a misteriosa efervescência da vida eterna

De um lado, portanto, um poder regulador, que me apresenta a forma exterior daquilo que devo fazer; do outro, um movimento impulsionador, que me anima interiormente. De um lado a autoridade social, destinada a conter; do outro, a ação individual, destinada a vivificar. De um lado o corpo, do outro a alma da vida cristã.

A união das duas

Essas duas mãos de Deus, essas duas entradas do reino, não poderiam estar separadas na formação da minha vida. A minha atividade deve ser, ao mesmo tempo, contida por um lado e impulsionada pelo outro, pelo Espírito de Deus.

Enquanto as regras da vontade revelada, estáveis, fixas e firmes, servem de molde exterior, as operações vivas, dinâmicas e variadas da vontade de beneplácito animam, apertam, transformam a massa e a fazem adaptar-se aos contornos do molde.

Assim se combinam as duas mãos de Deus, para limitar e para excitar o meu movimento.

A divisão desta Parte

Temos, portanto, três coisas: as regras exteriores da minha ação para Deus, os segredos interiores da ação de Deus em mim, e a combinação viva desses dois elementos formadores da minha vida. Daí as três perguntas que se seguem.

Três perguntas, três Livros
Quais são as regras traçadas para a minha ação pela vontade revelada?Livro I · A vontade revelada
Em que medida a ação do soberano beneplácito age em minha vida?Livro II · A vontade de beneplácito
Como essas duas ações se combinam e se unem?Livro III · Cooperação das duas vontades

Quando eu souber qual deve ser a minha ação, qual é a ação de Deus, e qual deve ser a união das duas, conhecerei então o meu caminho, aquele pelo qual a alma se eleva até a glorificação do seu Criador.

Nota bene

O autor faz aqui uma ressalva que vale para a leitura inteira desta Parte. Se a clareza obriga a separar as três ideias, disso não se segue que a vontade revelada possa ser considerada independentemente da vontade de beneplácito, porque na realidade viva da caminhada elas estão unidas como o vapor aos canos que o contêm, ou como o rio ao leito onde corre. Nem se deve concluir que a piedade ativa e a piedade passiva sejam dois estados sucessivos da alma: são dois fatores de um mesmo movimento. Estudam-se em separado por método de análise, e a síntese viva vem no terceiro Livro.

O esquema da Segunda Parte

Livro IA vontade revelada
  1. Fixando as leis da minha ação
  2. Correspondência da minha ação a essas leis pela piedade ativa
Livro IIA vontade de beneplácito
  1. Ação de Deus na construção da minha vida
  2. Correspondência a essa ação pela piedade passiva
Livro IIICooperação das duas vontades
  1. Combinação da ação de Deus com a minha
  2. Modo de união da piedade passiva à piedade ativa, formando a piedade viva e completa

O esquema do Livro I

O primeiro Livro considera duas coisas: onde e como essa vontade se manifesta, e como devo responder a ela. De um lado os sinais da vontade divina; do outro, a piedade ativa.

Manifestada por Deus nos
  • 1 Mandamentos e conselhos
  • 2 Deveres de estado
Seguida pelo homem, em todos os estados
  • 3 As obrigações gerais
  • 4 As obrigações especiais
  • 5 O amor ao dever
  • 6 A execução do dever
Nos estados particulares
  • 7 A piedade sacerdotal
  • 8 A piedade religiosa
Resumo
  • 9 O espírito de piedade
  • 10 Conclusões práticas
Pontos-chave
Conhecido o fim, falta o caminho, e ele é um só: a vontade de Deus.
Há escolha a fazer entre as criaturas, e escolher por conta própria seria pôr-me outra vez antes de Deus.
Só quem fez a criatura sabe o que há nela, e por isso cabe a ele determinar de quais devo usar.
O reino dos céus é o reino do louvor de Deus, e começa aqui, nas almas e na Igreja.
A entrada no reino é o começo do louvor, e cada novo modo de glorificar é entrada numa nova morada.
Há duas entradas: eu entro nele quando procuro a sua glória, e ele entra em mim quando recebo os seus dons.
A entrada não se faz pela oração: ela é meio, e grande meio, mas só serve a quem está no caminho.
A vontade de Deus é uma só, e recebe nomes diversos conforme os meios pelos quais a conhecemos.
Com uma das mãos Deus traça as regras e contém: é a vontade revelada, o elemento fixo.
Com a outra ele age dentro e anima: é a vontade de beneplácito, o elemento móvel.
As duas são a dupla habitação do Espírito Santo: permanecerá convosco, na Igreja, e estará em vós, na alma.
De um lado a autoridade social, que contém; do outro a ação individual, que vivifica.
As regras são o molde exterior; as operações vivas amassam e fazem a massa adaptar-se ao molde.
Três perguntas ordenam esta Parte: as regras da minha ação, a ação de Deus em mim, e a união das duas.
A separação é de análise: na vida real as duas vontades andam juntas, como o rio e o leito onde corre.
A piedade ativa e a passiva não são estados sucessivos, e sim dois fatores de um mesmo movimento.
Termos
O caminho
a vontade de Deus, único percurso que leva ao fim, porque só ela sabe o que há nas criaturas e o que serve à sua glória.
O reino dos céus
o reino do louvor de Deus; começa nas almas e na Igreja e tem a sua plenitude nos esplendores eternos.
Vontade revelada
as leis, regras e instituições que dirigem e contêm a ação; a mão de Deus que traça o leito. A tradução inglesa a chama vontade significada.
Vontade de beneplácito
as disposições da Providência, as inspirações e os impulsos interiores; a mão de Deus que anima o movimento.
Piedade ativa e piedade passiva
as duas correspondências, uma às leis e outra à ação divina; não são estados sucessivos, e sim fatores de um só movimento.

Fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.

Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.

Mateus 6, 10, a petição que resume esta Parte inteira
Para reter

A Segunda Parte começa fechando uma porta: não sou eu que traço o caminho, porque escolher pelos meus gostos seria repetir a desordem que a Primeira Parte desmontou. O caminho é a vontade de Deus, e ela chega até mim por duas mãos. Uma dá a forma exterior, as leis e os deveres, e contém; a outra age por dentro, pela Providência e pelas inspirações, e anima. Separá-las serve à análise, nunca à vida, porque uma é o leito e a outra é o rio.

Fonte · Segunda Parte, capítulo preliminar
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