A vontade de Deus
Sabido o fim, falta o caminho, e ele é um só, como um só é o fim: a vontade de Deus. A razão é simples. Entre as criaturas, umas servem ao meu fim e outras o atrapalham, e é preciso escolher; se escolho por conta própria, escolho pelos meus gostos, e ponho-me outra vez antes de Deus. Só quem fez a criatura sabe o que há dentro dela. O capítulo apresenta então o reino dos céus e as suas duas entradas, e sobretudo as duas vontades de Deus, que são como as suas duas mãos: uma traça as regras e contém, a outra age dentro e anima. Da distinção entre elas nasce a divisão dos três Livros que se seguem.
Quem deve traçar o caminho
As meditações da Primeira Parte mostraram a finalidade da vida, o quanto o divino é anterior ao humano, o quanto Deus tem direito de possuir-me, o quanto os seus direitos precedem os meus interesses. É preciso agora ver como Deus exerce esses direitos de autoridade sobre a minha conduta, como a sua vontade deve reger a minha.
E há uma razão de método para que seja ele a traçar o caminho. Entre a variedade das criaturas, umas são úteis ao meu fim, outras nocivas, e umas mais úteis que outras: há escolha a fazer. Se quiser fazê-la por mim mesmo, só poderei fazê-la segundo os meus gostos e as minhas ideias, e isso é desordem nova: eu antes de Deus, o mal que se quer evitar a todo custo. Além disso, que sei eu do que há dentro das criaturas? Quem as fez é que sabe o que elas têm, e cabe a ele determinar de quais devo usar para a sua glória.
O reino dos céus
Nem todo o que diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus. Convém então perguntar que reino é esse. O reino dos céus é o reino do louvor de Deus: é próprio do céu manifestar a glória divina, e onde ressoam os louvores de Deus, ali está o reino.
Ele começa nesta terra, nas almas e na Igreja, e continua nos esplendores eternos, onde tem a sua plenitude. E a entrada nele é o começo do louvor: quando começo a glorificar a Deus, entro no reino, e cada novo modo de glorificá-lo é como uma nova entrada, ou melhor, a entrada numa nova morada, pois na casa do Pai há muitas moradas.
As duas entradas
E como se dá essa entrada? Não é pela oração. A oração não é o caminho: mais adiante se verá que é um meio, e um grande meio, mas um meio que só serve a quem está no caminho. Fora dele, quem toma o meio e diz Senhor, Senhor, não entrará.
Non omnis qui dicit mihi, Domine, Domine, intrabit in regnum cælorum: sed qui facit voluntatem Patris mei, qui in cælis est, ipse intrabit in regnum cælorum.
Nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse entrará no reino dos céus.
As duas vontades de Deus
O caminho, portanto, é um só, e é preciso conhecê-lo para percorrê-lo. A vontade de Deus é única, e no entanto, como diz São Francisco de Sales, embora a divina Majestade tenha uma só e simplicíssima vontade, nós a chamamos por nomes diferentes conforme os meios pelos quais a conhecemos, e essa variedade indica também os modos diversos pelos quais devemos conformar-nos a ela.
Com uma das mãos Deus traça as regras do que devo fazer, estabelece as margens e mantém aberto o canal que deve dirigir, proteger e conter o meu movimento vital: é a parte fixa, o elemento estático. Com a outra ele age dentro de mim, suscitando e animando, imprimindo o impulso de um movimento sobrenatural: é a parte móvel, o elemento dinâmico.
Uma diferença de tradução que convém guardar: onde a edição brasileira diz vontade revelada, a tradução inglesa diz vontade significada. É a mesma coisa, e o segundo nome explica melhor a razão do primeiro, já que se trata de sinais postos no caminho.
As duas habitações do Espírito Santo
No fundo, essas duas manifestações da vontade divina são a dupla habitação do Espírito Santo prometida pelo Senhor à sua Igreja. A vontade é o atributo que se apropria ao Espírito Santo, e ao anunciar a sua missão o Senhor disse: o Espírito da Verdade permanecerá convosco e estará em vós.
De um lado, portanto, um poder regulador, que me apresenta a forma exterior daquilo que devo fazer; do outro, um movimento impulsionador, que me anima interiormente. De um lado a autoridade social, destinada a conter; do outro, a ação individual, destinada a vivificar. De um lado o corpo, do outro a alma da vida cristã.
A união das duas
Essas duas mãos de Deus, essas duas entradas do reino, não poderiam estar separadas na formação da minha vida. A minha atividade deve ser, ao mesmo tempo, contida por um lado e impulsionada pelo outro, pelo Espírito de Deus.
Enquanto as regras da vontade revelada, estáveis, fixas e firmes, servem de molde exterior, as operações vivas, dinâmicas e variadas da vontade de beneplácito animam, apertam, transformam a massa e a fazem adaptar-se aos contornos do molde.
Assim se combinam as duas mãos de Deus, para limitar e para excitar o meu movimento.
A divisão desta Parte
Temos, portanto, três coisas: as regras exteriores da minha ação para Deus, os segredos interiores da ação de Deus em mim, e a combinação viva desses dois elementos formadores da minha vida. Daí as três perguntas que se seguem.
Quando eu souber qual deve ser a minha ação, qual é a ação de Deus, e qual deve ser a união das duas, conhecerei então o meu caminho, aquele pelo qual a alma se eleva até a glorificação do seu Criador.
O autor faz aqui uma ressalva que vale para a leitura inteira desta Parte. Se a clareza obriga a separar as três ideias, disso não se segue que a vontade revelada possa ser considerada independentemente da vontade de beneplácito, porque na realidade viva da caminhada elas estão unidas como o vapor aos canos que o contêm, ou como o rio ao leito onde corre. Nem se deve concluir que a piedade ativa e a piedade passiva sejam dois estados sucessivos da alma: são dois fatores de um mesmo movimento. Estudam-se em separado por método de análise, e a síntese viva vem no terceiro Livro.
O esquema da Segunda Parte
- Fixando as leis da minha ação
- Correspondência da minha ação a essas leis pela piedade ativa
- Ação de Deus na construção da minha vida
- Correspondência a essa ação pela piedade passiva
- Combinação da ação de Deus com a minha
- Modo de união da piedade passiva à piedade ativa, formando a piedade viva e completa
O esquema do Livro I
O primeiro Livro considera duas coisas: onde e como essa vontade se manifesta, e como devo responder a ela. De um lado os sinais da vontade divina; do outro, a piedade ativa.
- 1 Mandamentos e conselhos
- 2 Deveres de estado
- 3 As obrigações gerais
- 4 As obrigações especiais
- 5 O amor ao dever
- 6 A execução do dever
- 7 A piedade sacerdotal
- 8 A piedade religiosa
- 9 O espírito de piedade
- 10 Conclusões práticas
Fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.
A Segunda Parte começa fechando uma porta: não sou eu que traço o caminho, porque escolher pelos meus gostos seria repetir a desordem que a Primeira Parte desmontou. O caminho é a vontade de Deus, e ela chega até mim por duas mãos. Uma dá a forma exterior, as leis e os deveres, e contém; a outra age por dentro, pela Providência e pelas inspirações, e anima. Separá-las serve à análise, nunca à vida, porque uma é o leito e a outra é o rio.