A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro ICap. 1
Segunda Parte · O Caminho · Livro I · Capítulo 1 · Manifestada por Deus

Mandamentos e conselhos

Essência

Deus falou muitas vezes e de muitos modos, pelos profetas, depois pelo Filho, e continua falando pela sua Igreja. Em matéria de conduta, essa palavra se condensa em três formas: os mandamentos de Deus, os mandamentos da Igreja e os conselhos evangélicos. Os primeiros são a regra primeira e fundamental, e nas suas duas tábuas governam o que é de Deus e o que é do homem. Os segundos são a voz da mãe, que adapta aos tempos e às pessoas. E os conselhos já não exprimem a vontade absoluta, e sim os desejos de Deus: apoiam-se nos mandamentos e sobem acima deles, indicando o caminho do melhor.

Deus falou e continua falando
em conduta, isso se condensa em três formas
os mandamentos: a regra primeira
a Igreja: a voz que determina e aplica
os conselhos: os desejos, acima do obrigatório

As manifestações divinas

Multifariam multisque modis olim Deus loquens patribus in prophetis, novissime diebus istis locutus est nobis in Filio.

Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos pais pelos profetas; nestes últimos dias falou-nos pelo Filho.

Hebreus 1, 1

Deus falou, e Deus fala, porque nunca se deixa sem testemunho. Falou pelos profetas e pelos homens que inspirou; falou ele mesmo, vindo viver a nossa vida humana; e continua falando pela sua Igreja. Essa palavra de vida, que a sua bondade multiplicou de tantos modos e em tantos tempos, condensa-se praticamente, em matéria de conduta, nos mandamentos de Deus, nos mandamentos da Igreja e nos conselhos evangélicos.

Os mandamentos de Deus

Manifestam a vontade mais geral e mais absoluta do meu Pai, e essa vontade se aplica absolutamente a todos. Neles está a fonte e a regra de todas as obrigações: são o que obriga a piedade em primeiríssimo lugar, e as demais manifestações da vontade divina apenas explicam, determinam e aplicam as prescrições gerais que eles estabelecem. São, portanto, a regra primeira e fundamental da piedade, e a sua observância é o primeiro dever.

As duas tábuas
A primeiraa regra dos interesses que são divinos
A segundaa regra dos interesses que são humanos

Deus e o homem, as relações divinas e as relações humanas: nisso está a religião inteira. E os mandamentos resumem-se afinal no amor de Deus e no amor do próximo: não só o que Deus escreveu nas duas tábuas do Sinai, mas tudo o que disse na lei e nos profetas se condensa nesses dois preceitos.

Os mandamentos da Igreja

São a voz da minha mãe, que me explica e determina certos pontos da vontade do meu Pai. É missão da Igreja adaptar aos tempos e às pessoas as prescrições divinas e, conforme a necessidade, especificar detalhes práticos e aplicações particulares. Eis a segunda regra da piedade.

E há uma correspondência exata entre o que a piedade é e o que a Igreja faz. Como a piedade completa é ao mesmo tempo verdade na mente, caridade no coração e liberdade na ação, a Igreja, cujo ofício é traçar e proteger o seu curso, tem ao mesmo tempo o magistério da verdade, o governo da caridade e a disciplina da liberdade.

Três poderes, três categorias de leis
As leis do dogmaa Igreja é guardiã da verdade para a minha mente, e lhe traça os caminhos
As leis da moralé guardiã da caridade para o meu coração, e lhe mostra a vereda
As leis da disciplinaé guardiã da liberdade da minha ação, e determina o uso dela

Por esses mandamentos a Igreja é a nutriz e a guarda da minha piedade. Se quero verdade na mente, caridade no coração e liberdade nas ações, tenho de conformar-me às suas leis.

Os conselhos

Mandamentos e conselhosa distinção central do capítulo

Deus não se manifesta apenas por declarações absolutas de vontade, que obrigam sob pena de pecado: condescende também em dar a conhecer os seus desejos. Os mandamentos exprimem a sua vontade absoluta; os conselhos indicam os seus desejos.

Os mandamentos determinam o mal a evitar e o bem a fazer. Os conselhos, apoiados primeiro neles, erguem-se acima e traçam o caminho do melhor e do perfeito, revelando ao homem os segredos e as ascensões mais altas.

Duas maneiras de obrigar
O caminho dos mandamentosé obrigatório, de modo que todo desvio voluntário se torna desobediência formal ao supremo Senhor
As veredas dos conselhossão livres, no sentido de que a negligência em avançar por elas não constitui ofensa propriamente dita, e permanece falta de bem e diminuição de perfeição

E são numerosos, porque existem interiormente para todos os estados da alma e exteriormente para todas as posições sociais; e são extensos, porque chegam até o ponto mais alto do matrimônio místico da alma com Deus. Disso se segue que nem todos convêm a todos: variam conforme a posição de cada alma e graduam-se, numa mesma alma, conforme o nível das suas ascensões interiores.

Nota bene

Convém guardar essa última observação, porque ela evita dois erros contrários: o de tratar os conselhos como se fossem preceitos, gerando escrúpulo, e o de tratá-los como se não dissessem respeito a ninguém, gerando mediocridade. Eles obrigam de outro modo, e obrigam a cada um na medida do seu estado.

Pontos-chave
Deus falou pelos profetas, falou pelo Filho e continua falando pela Igreja: nunca se deixa sem testemunho.
Em matéria de conduta, essa palavra se condensa nos mandamentos de Deus, nos da Igreja e nos conselhos.
Os mandamentos manifestam a vontade mais geral e absoluta, e são fonte e regra de todas as obrigações.
As demais manifestações apenas explicam, determinam e aplicam o que eles estabelecem.
Nas duas tábuas governam o que é de Deus e o que é do homem, e resumem-se no amor de Deus e do próximo.
Os mandamentos da Igreja são a voz da mãe, que adapta aos tempos e às pessoas as prescrições divinas.
Como a piedade é verdade, caridade e liberdade, a Igreja tem o magistério da verdade, o governo da caridade e a disciplina da liberdade.
Daí as três categorias de leis: as do dogma, as da moral e as da disciplina.
Os mandamentos exprimem a vontade absoluta de Deus; os conselhos indicam os seus desejos.
Os conselhos se apoiam nos mandamentos e sobem acima deles, para o melhor e o perfeito.
O caminho dos mandamentos obriga; as veredas dos conselhos são livres, e descuidá-las é diminuição, não ofensa.
Os conselhos são numerosos e extensos, e nem todos convêm a todos: variam com o estado e com o grau interior.
Termos
Mandamentos de Deus
a manifestação mais geral e absoluta da vontade divina; regra primeira e fundamental da piedade.
Mandamentos da Igreja
a voz materna que explica, determina e aplica a vontade do Pai conforme os tempos e as pessoas.
Conselhos
a manifestação dos desejos de Deus, que se erguem acima do obrigatório e traçam o caminho do melhor.
A tríplice guarda da Igreja
pelo dogma guarda a verdade da mente, pela moral a caridade do coração, pela disciplina a liberdade da ação.
Para reter

O caminho começa por onde a vontade de Deus se torna legível: mandamentos, Igreja, conselhos. Os primeiros obrigam a todos e resumem tudo no duplo amor; a Igreja, sendo mãe, aplica e determina, e as suas três ordens de leis correspondem exatamente às três coisas que a piedade é. Os conselhos mudam de registro: já não são vontade absoluta, e sim desejo, e por isso não obrigam do mesmo modo, mas indicam o melhor, cada um segundo o seu estado.

Fonte · Segunda Parte, Livro I, capítulo 1
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