Do que a perfeição se despoja
Pode a alma esquecer toda satisfação e viver puramente para Deus? A pergunta abre um mistério de vida e morte que precisa ser explicado com cuidado, para não se cair no erro do quietismo. O que deve morrer chama-se o humano: não a alma, nem o corpo, nem as faculdades, nem os prazeres, mas a viscosidade que me prende às criaturas e a independência que me afasta da ação divina. O que se quebra são os laços, e o que se liberta sou eu. É a morte de que fala São Paulo, semeadura na corrupção e ressurreição na incorrupção, e o eu que deve diminuir é o eu que vive sem Deus.
O mistério de vida e morte
Como assim? Pode a alma chegar a esquecer todas as satisfações e viver puramente para Deus, sem qualquer retorno aos próprios interesses? Há aqui um grande mistério, que importa explicar para escapar aos erros do quietismo. É um mistério de vida e de morte: há em mim o que deve morrer, e há o que deve ser libertado dessa morte para voltar à vida.
A ressalva contra o quietismo não é acessória, é a razão de o capítulo existir. Uma linguagem de aniquilamento e de morte, tomada sem medida, leva a suprimir a atividade da alma e a fazer da passividade uma virtude. O capítulo inteiro é o trabalho de dizer exatamente sobre o que recai a morte de que se fala.
O que é o humano
Tomado no sentido que se opõe ao divino, é aquilo que em mim e na minha atividade está separado de Deus e contraria a união com ele, que é o verdadeiro fim da minha vida.
De dois modos ele se instala. A minha satisfação é humana quando repousa contente fora de Deus; e o meu movimento é humano quando se faz em mim e por mim, independentemente da ação divina. Numa palavra, tudo no meu movimento vital que não é alcançado, animado e dirigido pela vida divina, tudo o que está fora da união, é o humano.
Por que deve morrer, e o que exatamente morre
Deve morrer porque fui feito para Deus, e só para ele; porque a minha vida consiste em estar unido a ele, amado por ele, governado por ele, e tudo o que me separa dele precisa desaparecer. Sobre esse ponto, e universalmente sobre tudo o que separa, é que devem recair as operações que a linguagem mística chama despojamento, aniquilamento, morte.
E aqui vem a precisão decisiva. Isso não significa a destruição da minha alma nem do meu corpo, das faculdades, das aptidões, das aspirações, das atividades, dos instrumentos, dos prazeres, das esperanças, da felicidade. Significa a purificação de tudo isso pela destruição de certa viscosidade que me cola às coisas criadas, e de certa independência que me mantém à distância de Deus.
O que tem de ser quebrado, destruído e aniquilado não sou eu, são os laços; quanto a mim, tenho de ser libertado.
E se, segundo o protesto do Precursor, há um eu que deve decrescer e desaparecer diante de Deus para que ele cresça, esse é o eu da busca de si à parte de Deus, o eu da natureza que vive sem Deus.
Illum oportet crescere, me autem minui.
É preciso que ele cresça e que eu diminua.
Semeia-se... ressurgirá
Tudo o que tende a manter a minha vida num estado puramente natural, humano e isolado de Deus deve morrer, isto é, deve passar pela transformação que a morte do corpo ilustra da maneira mais impressionante.
Seminatur in corruptione, surget in incorruptione; seminatur in ignobilitate, surget in gloria; seminatur in infirmitate, surget in virtute.
Semeia-se na corrupção, ressurgirá na incorrupção; semeia-se na ignomínia, ressurgirá na glória; semeia-se na fraqueza, ressurgirá no poder.
Semeia-se corpo animal, ressurgirá corpo espiritual; e é preciso que este corruptível se revista de incorrupção e este mortal se revista de imortalidade, para que se cumpra a palavra escrita: a morte foi absorvida na vitória.
O trespasse
São Francisco de Sales observa uma delicadeza da língua francesa, que chama a morte de passagem e aos mortos de os que passaram, dando a entender que a morte do homem não é senão passar de uma vida a outra, e que morrer nada mais é do que transpor os confins desta vida mortal para entrar na imortal.
O corpo não perece: transforma-se, atravessa uma dissolução progressiva e aquela espécie de aniquilamento que é a morte. Tudo o que é humano e mortal, tudo o que pertence à corrupção, à abjeção, à fraqueza e ao animal no homem passa pela mesma lei, condenado a definhar e morrer para ser transformado e ressurgir na incorrupção, na glória, no poder e num ser todo espiritual.
Assim é que a satisfação meramente humana vai desaparecendo pouco a pouco, para morrer e ressuscitar na glória de Deus. Antes de morrer, ela cai em langor: cai no esquecimento e na indiferença, que é um dos caracteres deste grau, e que nada mais é do que o definhamento pelo qual as satisfações naturais caminham para o seu trespasse.
Este é o capítulo que evita o mal-entendido perigoso da linguagem mística. Fala-se de morrer, de despojar-se, de aniquilar-se, e é preciso saber exatamente sobre o que isso recai: sobre o humano, isto é, sobre o que em mim se separa de Deus, a satisfação que repousa fora dele e a atividade que prescinde dele. Nada em mim é destruído; o que se quebra são os laços, e o resultado é libertação, não diminuição. O eu que deve decrescer é o eu que vive sem Deus.