A execução do dever
O amor precisa terminar em fidelidade, e fidelidade constante e generosa a tudo o que é vontade de Deus, inclusive nas coisas mínimas. Não pelas coisas em si, o que seria marca de espírito pequeno, mas pela grande coisa que nelas se respeita. A comparação que o capítulo usa é eucarística: o Senhor está inteiro numa partícula como numa hóstia grande, e assim a vontade de Deus está inteira no menor fragmento da regra. Daí a consequência que evita o escrúpulo: o que se busca na fidelidade miúda não é ajustar-se à prescrição, é ajustar-se a Deus pela prescrição, e é por isso que os santos são exatos em tudo e ao mesmo tempo largos e livres.
A fidelidade na prática
Enfim, o amor deve resultar em fidelidade na ação: uma fidelidade constante e generosa a tudo o que é vontade de Deus, e fidelidade nas coisas mínimas, não por elas mesmas, o que seria marca de espíritos pequenos, mas pela grande coisa que é a vontade de Deus, e que eu respeito grandemente nas coisas pequenas.
As coisas pequenas são realmente pequenas, mas ser fiel nas coisas pequenas é coisa grande.
A distinção de Santo Agostinho que este capítulo toma por regra.
É nesse sentido que o sacerdote reconhece, ama e respeita nos detalhes por vezes enfadonhos das leis da disciplina ou das rubricas a coisa grande e santa que é a vontade de Deus; e é assim que o religioso vê e respeita, nas prescrições miúdas da sua Regra, essa vontade sempre grande, sempre infinita, mesmo no mínimo detalhe.
A comparação eucarística
Não está o Senhor inteiro, tão grande, tão vivo e tão adorável numa hóstia pequena como numa grande, numa partícula mínima como numa hóstia inteira? E não recebo as partículas menores com a mesma adoração? Assim é a vontade de Deus: os menores fragmentos da regra a contêm inteira.
Por isso ela é ali adorada e abraçada com a mesma devoção que nas coisas grandes. Não deixarei escapar a menor parte desse bem sagrado.
A largueza na fidelidade
E assim como na comunhão, por pequena que seja a hóstia, cresço pelo contato com o Senhor, também na fidelidade ao dever, por pequenas que sejam as observâncias que cumpro, sinto que cresço e me dilato pelo contato com Deus. Tão grande coisa é entrar em contato com Deus.
E é só isso que busco na fidelidade às coisas pequenas: estabelecer entre Deus e mim um contato mais adequado, mais contínuo, mais absoluto, de modo que ao fim não reste desvio algum. Não é, portanto, a fidelidade à prescrição pela prescrição que me atrai, o que seria coisa mesquinha, e sim a fidelidade a ela por causa do contato divino, e isso é coisa infinita.
Que largueza, que facilidade, que liberdade há na alma dos santos. Vejo -os fiéis em tudo e ao mesmo tempo tão livres em tudo.
São exatos em tudo, mas com uma exatidão viva, ampla e flexível, que cede a todas as necessidades. Não conhecem a rigidez farisaica, os escrúpulos mesquinhos nem as inquietações miúdas. Sente-se que estão apegados a Deus somente, e que a sua alma não se prende a mais nada.
Está aqui a chave que impede a leitura errada deste capítulo. A fidelidade no mínimo só não vira escrúpulo porque o seu objeto não é o mínimo: quem entende que o propósito não é ajustar-se à prescrição, mas a Deus pela prescrição, recebe junto a largueza com precisão, a facilidade com fidelidade, e a grandeza nas coisas pequenas. Sente-se então não aprisionado, e sim libertado; não sufocado, e sim dilatado, mesmo nos detalhes mais insignificantes das regras que deve guardar.
Viam mandatorum tuorum cucurri, cum dilatasti cor meum.
Corri pelo caminho dos vossos mandamentos, quando dilatastes o meu coração.
A execução fecha a série que começou no conhecer e passou pelo amar. O ponto delicado é a fidelidade no mínimo, que degenera em escrúpulo assim que se torna fim em si. O capítulo a salva mudando-lhe o objeto: no menor detalhe está inteira a vontade de Deus, como o Senhor inteiro numa partícula, e o que ali se busca é o contato com ele. Por isso a marca do santo não é o rigor, é a largueza: exato em tudo, livre em tudo, e dilatado justamente onde se esperaria aperto.