O ordenamento das minhas relações com Deus
Subordinar a minha vida a Deus é a condição para uni-la à d’Ele: unir a Sua glória e a minha felicidade por semelhança, nunca por igualdade.
Semelhança e não igualdade
Deus designou-me uma finalidade única, e nela há dois interesses: a Sua glória e a minha felicidade. Por estarem ordenados ao mesmo fim, não devem ser separados: devo uni-los. Digo que devo, porque, embora Deus já os tenha unido no seu desígnio eterno, confiou à minha liberdade o poder de associá-los ou de separá-los. A glória de Deus me é proposta e imposta; a minha felicidade, posso deixar de obtê-la.
Mas como uni-los? Em pé de igualdade ou de semelhança? De semelhança, sim; de igualdade, não. Fui criado à imagem e semelhança de Deus, e chamado a desenvolvê-la (1 João 3, 2); mas Deus está essencialmente acima do homem, e o divino é anterior e superior ao humano. Três razões me impedem de igualar o meu interesse ao d’Ele:
Unir a glória de Deus e a minha felicidade como se unem o original e a imagem: ordenadas ao mesmo fim, mas nunca em pé de igualdade, porque o divino é anterior e superior ao humano.
A essência dos seres
A primeira razão: a essência dos seres manifesta a supremacia absoluta de Deus. Aprofundemo-la sob duas faces, a inteligível e a real, e vejamos o lugar da minha felicidade nela.
A essência inteligível
Deus é eterno em si mesmo, sem começo nem fim. Antes de toda criação, a glória que as suas obras lhe dariam já era, como Ele, a finalidade suprema e necessária: antes que qualquer coisa existisse, já era verdade que nenhum ser possível poderia existir senão para a glória do seu Autor. O que está eternamente incluído nessa essência inteligívelessência inteligívelA ordem necessária, anterior a toda existência, pela qual toda criatura se ordena à glória do seu Criador. é a obrigação, em toda criatura, de estar de algum modo referida à glória do seu Criador.
A essência real
Essa glória pertence também à essência realessência realAquilo que entra de tal modo na constituição própria de um ser que, sem isso, ele deixaria de existir. das coisas: é tão primordial na constituição das criaturas que elas não existiriam sem ela. Penetra tão fundo na natureza do homem que mesmo os condenados, sob a justiça, rendem a Deus a glória que não quiseram prestar-lhe livremente. Deus tudo fez para si mesmo, mesmo o ímpio (Provérbios 16, 4); e Santo Agostinho ensina que a bondade de Deus jamais permitiria o mal se não tivesse o poder de transformá-lo em bem.
A minha felicidade faz parte da essência das coisas?
Não. Deus poderia não me ter criado: nada, na essência das coisas, reclamava a minha existência. Ele me criou por uma liberalidade gratuita da sua bondade. E, tendo-me criado, nada o obrigava a escolher, para a sua glória, o modo supremo da união sobrenatural, que me torna participante da sua vida. A minha criação e a minha adaptação a essa união são dons totalmente gratuitos, que nem a essência das coisas nem a minha natureza reclamavam.
Posso perdê-la?
Com efeito, posso condenar-me por toda a eternidade sem perder a minha natureza e sem que a ordem essencial seja destruída. Se a minha felicidade fosse parte da essência, eu não poderia perdê-la, pois o que pertence à essência é invariavelmente necessário. Se posso perdê-la, é porque ela não é essencial à minha natureza. A única coisa que lhe é essencial é a glória de Deus; até a minha salvação, enquanto fonte de felicidade para mim, é correlativa à glória de Deus.
Posso perder a minha felicidade sem perder a minha natureza; da glória de Deus, ninguém escapa.
Similes ei erimus.
Seremos semelhantes a Ele.
Subordinar a vida a Deus é a condição para uni-la à d’Ele: por semelhança, não por igualdade.