A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro ICap. 3
Primeira Parte · O Fim · Livro I · Capítulo 3

O ordenamento das minhas relações com Deus

Essência

Subordinar a minha vida a Deus é a condição para uni-la à d’Ele: unir a Sua glória e a minha felicidade por semelhança, nunca por igualdade.

Um só fim, dois interesses: a glória de Deus e a minha felicidade
devo uni-los
por semelhança, não por igualdade
porque o divino é anterior e superior ao humano

Semelhança e não igualdade

Deus designou-me uma finalidade única, e nela há dois interesses: a Sua glória e a minha felicidade. Por estarem ordenados ao mesmo fim, não devem ser separados: devo uni-los. Digo que devo, porque, embora Deus já os tenha unido no seu desígnio eterno, confiou à minha liberdade o poder de associá-los ou de separá-los. A glória de Deus me é proposta e imposta; a minha felicidade, posso deixar de obtê-la.

Mas como uni-los? Em pé de igualdade ou de semelhança? De semelhança, sim; de igualdade, não. Fui criado à imagem e semelhança de Deus, e chamado a desenvolvê-la (1 João 3, 2); mas Deus está essencialmente acima do homem, e o divino é anterior e superior ao humano. Três razões me impedem de igualar o meu interesse ao d’Ele:

As três razões
1
A essência dos seresa razão deste capítulo
2
A anterioridade do divinoo capítulo 4
3
A superioridade do divinoo capítulo 5
Semelhança, não igualdadeo conceito central do capítulo

Unir a glória de Deus e a minha felicidade como se unem o original e a imagem: ordenadas ao mesmo fim, mas nunca em pé de igualdade, porque o divino é anterior e superior ao humano.

A essência dos seres

A primeira razão: a essência dos seres manifesta a supremacia absoluta de Deus. Aprofundemo-la sob duas faces, a inteligível e a real, e vejamos o lugar da minha felicidade nela.

A essência inteligível

Deus é eterno em si mesmo, sem começo nem fim. Antes de toda criação, a glória que as suas obras lhe dariam já era, como Ele, a finalidade suprema e necessária: antes que qualquer coisa existisse, já era verdade que nenhum ser possível poderia existir senão para a glória do seu Autor. O que está eternamente incluído nessa essência inteligívelessência inteligívelA ordem necessária, anterior a toda existência, pela qual toda criatura se ordena à glória do seu Criador. é a obrigação, em toda criatura, de estar de algum modo referida à glória do seu Criador.

A essência real

Essa glória pertence também à essência realessência realAquilo que entra de tal modo na constituição própria de um ser que, sem isso, ele deixaria de existir. das coisas: é tão primordial na constituição das criaturas que elas não existiriam sem ela. Penetra tão fundo na natureza do homem que mesmo os condenados, sob a justiça, rendem a Deus a glória que não quiseram prestar-lhe livremente. Deus tudo fez para si mesmo, mesmo o ímpio (Provérbios 16, 4); e Santo Agostinho ensina que a bondade de Deus jamais permitiria o mal se não tivesse o poder de transformá-lo em bem.

A minha felicidade faz parte da essência das coisas?

Não. Deus poderia não me ter criado: nada, na essência das coisas, reclamava a minha existência. Ele me criou por uma liberalidade gratuita da sua bondade. E, tendo-me criado, nada o obrigava a escolher, para a sua glória, o modo supremo da união sobrenatural, que me torna participante da sua vida. A minha criação e a minha adaptação a essa união são dons totalmente gratuitos, que nem a essência das coisas nem a minha natureza reclamavam.

Posso perdê-la?

Com efeito, posso condenar-me por toda a eternidade sem perder a minha natureza e sem que a ordem essencial seja destruída. Se a minha felicidade fosse parte da essência, eu não poderia perdê-la, pois o que pertence à essência é invariavelmente necessário. Se posso perdê-la, é porque ela não é essencial à minha natureza. A única coisa que lhe é essencial é a glória de Deus; até a minha salvação, enquanto fonte de felicidade para mim, é correlativa à glória de Deus.

Posso perder a minha felicidade sem perder a minha natureza; da glória de Deus, ninguém escapa.

Pontos-chave
Deus deu-me um só fim com dois interesses: a Sua glória e a minha felicidade.
Devo uni-los por semelhança, não por igualdade: o divino é anterior e superior.
A glória de Deus é essencial ao meu ser; dela nem os condenados escapam.
A minha felicidade é dom gratuito, correlativo à Sua glória, e posso perdê-la.
Termos
Essência inteligível
a ordem necessária, anterior a tudo, pela qual toda criatura se ordena à glória de Deus.
Essência real
aquilo que entra na constituição de um ser, sem o qual ele não existiria.

Similes ei erimus.

Seremos semelhantes a Ele.

1 João 3, 2
Para reter

Subordinar a vida a Deus é a condição para uni-la à d’Ele: por semelhança, não por igualdade.

Fonte · Primeira Parte, Livro I, capítulo 3
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