As obrigações especiais
Sabido que é preciso conhecer o dever, resta saber o que exatamente conhecer, e são quatro pontos: os mandamentos de Deus, os da Igreja, os conselhos e, acima de tudo, os deveres de estado. Da luz que eu tiver sobre esses quatro dependerá a minha piedade. Dos mandamentos importa conhecer o espírito mais que a letra, sob pena de uma fidelidade mecânica e farisaica que não dá vida. Das leis da Igreja, o gosto de conhecê-las é um dos sinais mais certos da piedade verdadeira. E os deveres de estado são o conhecimento prático por excelência, justamente o mais ignorado: fabricam-se obrigações próprias enquanto se descuidam as reais, e sob pretexto de bem maior faz-se a própria vontade.
Os quatro pontos
Devo conhecer o meu dever, e portanto devo conhecer as manifestações que o definem para mim. Serei mais ou menos esclarecido quanto ao dever conforme a luz que tiver sobre estes quatro pontos: os mandamentos de Deus, os mandamentos da Igreja, os conselhos que me dizem respeito e, sobretudo, os deveres do meu estado, que definem e determinam para mim os precedentes.
Conhecer os mandamentos, aprender a lei divina, saber as obrigações que ela me impõe, ao menos nos seus pontos essenciais: a minha piedade dependerá necessariamente disso. Bem instruído nos meus deveres, tenho piedade esclarecida; se os deveres me são obscuros, a piedade fica na treva e no erro. A piedade verdadeira ama a luz, porque quem pratica a verdade vem para a luz.
Qui autem facit veritatem, venit ad lucem.
Mas quem pratica a verdade vem para a luz.
O espírito dos mandamentos
É preciso conhecer o espírito mais que a letra. É erro grande e fraqueza grande conhecer apenas os detalhes externos da lei, ver o lado material da prescrição sem levar em conta o motivo que a inspira e o fim a que tende. Quem conhece a lei somente assim a observa com uma fidelidade mecânica e farisaica que não comunica vida alguma à alma.
Se me submeto como que por necessidade e por constrangimento da vontade a obrigações exteriores, sou escravo do detalhe que agrilhoa, vítima da letra que mata. E se a letra me mata, que vida me resta? Só o espírito vivifica.
As leis da Igreja
A piedade verdadeiramente reta procura conhecer o quanto pode as leis da Igreja e tem gosto em estudá-las, sabendo que a Igreja, assistida pelo Espírito de Deus, tem por ofício lançar sobre o caminho dos cristãos a luz que os tempos e as necessidades pedem.
A voz da Igreja é a voz do pastor, e as ovelhas conhecem a voz do pastor e o seguem, porque conhecem a sua voz; ao estranho não seguem, porque não conhecem a voz dos estranhos. Essa predileção pela voz da Igreja, essa necessidade de ouvi-la e de atendê-la, essa repugnância por qualquer voz e espírito particular, é um dos sinais mais característicos da piedade verdadeira. É marca que não engana; e é dos piores sinais quando falta.
Os conselhos
Se eu não tivesse outro cuidado senão conhecer os preceitos formais, saberia o bastante para evitar o pecado, mas não o bastante para subir às alturas da virtude. Conseguiria talvez não ofender a Deus gravemente, e ignoraria os grandes segredos de agradar-lhe; saberia guardar a alma da doença e da morte, e não saberia conduzi-la às grandes fontes da vida.
Para conhecer, como os santos, a largura e o comprimento, a altura e a profundidade, e sobretudo a caridade de Cristo que excede todo conhecimento, é preciso meditar os conselhos, para apreender o seu sentido divino e o seu alcance infinito.
Se ao menos eu soubesse meditar os Evangelhos e as epístolas de São Paulo, e tornar-me íntimo dos escritos dos grandes mestres da santidade, que disseram coisas esplêndidas sobre os conselhos de que viveram.
A escola é nomeada: São Francisco de Sales, São João da Cruz, Santa Teresa e as duas Catarinas, de Sena e de Gênova.
Os deveres de estado
É nos deveres de estado que tudo o que já se aprendeu vem a definir-se e aplicar-se. Eles especificam o modo particular pelo qual devo pessoalmente guardar os mandamentos e a porção dos conselhos que devo pessoalmente praticar.
E no entanto, quantas vezes são desconhecidos, mal compreendidos ou distorcidos pelas ilusões do interesse próprio. Quantas vezes se fabricam obrigações especiais sem nenhuma justificação, enquanto nenhum cuidado se dá às obrigações reais impostas pelo estado.
Se eu conhecesse os deveres do meu estado, não me ocuparia em criar obrigações exteriores nem teria de vincular-me a compromissos de minha própria fabricação, porque esses deveres estabelecem tudo o que é necessário para satisfazer as aspirações da alma. Por que ir procurar além deles? Não contêm eles toda a vontade de Deus? Se vou além, que procuro senão a minha própria vontade, deixando a de Deus?
A frase seguinte é a mais dura do capítulo, e vale como advertência permanente: sob pretexto de um bem maior, sou levado a fazer a minha vontade e a perder de vista a regra soberana e única, que é a vontade de Deus. O autor chama a isso as astúcias do demônio e a loucura do próprio orgulho.
A necessidade da direção
É justamente quanto a esses deveres de estado, e sobretudo no caso dos leigos, que a direção é muitas vezes fonte indispensável de luz. O autor não desenvolve aqui a questão e remete a São Francisco de Sales e aos outros mestres da vida espiritual quanto à necessidade de um diretor, ao modo de escolhê-lo e de trabalhar com ele.
E repete, para fechar, que o caminho é um só, a vontade de Deus, e que só ela traça a minha ação e todas as minhas ações: faça eu o que fizer, se não estiver traçado por ela, está fora do caminho.
Se o capítulo anterior mostrou que é preciso conhecer, este diz o que conhecer, e ordena os quatro pontos numa hierarquia prática que termina nos deveres de estado. E é ali que está o aviso mais útil: o perigo comum não é fazer de menos, é fazer outra coisa, inventando obrigações próprias enquanto as verdadeiras ficam por cumprir. O critério fica em duas linhas: o que não é traçado pela vontade de Deus está fora do caminho, e ir além do meu estado é trocar a vontade dele pela minha.