A essência da piedade
As três obrigações do capítulo anterior, reunidas numa só disposição, têm um nome: piedade. Ver, amar e buscar a Deus em tudo e acima de tudo. São Paulo a define numa fórmula que se declarou intraduzível: veritatem facientes in charitate, fazer a verdade na caridade.
Ver, amar e buscar
Ver, amar e buscar sempre a glória de Deus; considerar, estimar e utilizar todas as coisas em vista de Deus: eis o dever essencial, e ele se chama piedade. Ter na mente a verdade, no coração a caridade, na ação a liberdade é ter piedade. A piedade é unidade: os três atos, unidos entre si, concentrados em Deus e aplicados a todas as criaturas, constituem uma única disposição universal, proveitosa para tudo, como diz São Paulo. E é a esse mestre profundo da vida espiritual que se deve pedir a definição.
Veritatem facientes in charitate
Façamos a verdade na caridade, para crescermos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. As palavras do Apóstolo, de uma profundidade e de uma concisão que de Maistre declarou intraduzíveis, apontam tudo o que constitui a piedade: o fim, os meios, as operações.
E as três operações não se separam de modo algum. São Paulo o exprime com energia notável: dos três termos, toma o terceiro, o da ação, e o funde com o primeiro, a verdade, num único verbo, fazer a verdade; e a esse verbo, em que já se concentram os dois extremos da piedade, acrescenta como objeto o termo do meio: na caridade. A caridade é o centro da piedade, o vínculo da perfeição. Vejo para amar, e ajo amando.
A mesma síntese volta em outros lugares da Escritura. Na religião cristã, o que vale é a fé que opera pela caridade. E o Apóstolo do amor: filhinhos, não amemos de palavra nem de língua, mas por obras e em verdade. Para São João o amor não é real quando é apenas assunto de palavras: deve ser precedido pela verdade e seguido pelas obras.
O grande mandamento
Convém recordar aqui o primeiro e o maior dos mandamentos: amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu espírito e com todas as tuas forças. Amarás: é o ato central da vida; quando amo, concentro e resumo todo o meu ser no amor. A quem? Ao Senhor teu Deus, e por Ele mesmo. Como? Ex toto: com o teu ser inteiro. Com todo o espírito: aí estão o conhecimento, a visão, a verdade. Com todo o coração: aí estão o amor e a caridade. Com toda a alma e com todas as forças: aí estão a ação, a busca, a liberdade.
E note-se a precisão: o mandamento não atribui o amor a todas as potências, pois só o coração ama; atribui todas as potências ao amor, para que todos os atos se encontrem e se liguem no amor e componham a disposição una e viva que é a piedade. Por isso o "amarás" é a grande lei que resume todas as leis.
A definição do catecismo
Mais humilde na aparência, o catecismo ensina à criança toda a doutrina de São Paulo e de São João. Por que Deus fez o homem? Para conhecê-lo, amá-lo e servi-lo, e assim merecer a felicidade eterna. Conhecer, amar, servir: os três termos constitutivos da piedade, as três palavras que resumem toda a religião. Inteligência, vontade, ação; visão, amor, busca; verdade, caridade, liberdade: sempre os mesmos três termos, na mesma ordem. Conhecer para amar, amar para servir; servir amando, amar conhecendo. Quantas maravilhas numa pequena resposta do catecismo.
Ver, amar e buscar a glória de Deus em tudo e acima de tudo: a verdade na mente, a caridade no coração, a liberdade na ação, unidas numa só disposição.
Vejo para amar, e ajo amando: a caridade é o centro da piedade, o vínculo da perfeição.
Veritatem autem facientes in charitate, crescamus in illo per omnia, qui est caput Christus.
Fazendo a verdade na caridade, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.
Piedade é ver, amar e buscar a Deus em tudo: fazer a verdade na caridade. Conhecer para amar, amar para servir.