Os efeitos da desordem
Tudo o que faço contra a glória de Deus produz uma cadeia de efeitos: perversão e mal, mentira e vaidade, escravidão, o gemido de toda a criação e, por fim, a morte. Há um só mal, como há um só bem: o pecado, que ataca a glória de Deus. Na mente ele produz a mentira; no coração, a vaidade; nas ações, a escravidão. E porque a ordem é vida, a desordem é morte: separa de Deus, dispersa entre as criaturas, diminui em mim mesmo.
A perversão
Aquilo que faço contra a glória de Deus, e que não vai direta nem indiretamente a esse fim, é perversão e mal, mentira e vaidade, escravidão para mim e para as criaturas, e por fim a morte. Tudo em mim que se opõe à glória de Deus é perversão radical e iniquidade: destrói o plano de Deus, quebra a ordem da minha vida e aniquila aquilo mesmo para o qual Deus me fez.
É a perversão que me põe em desacordo com a essência das coisas e que, destruindo a minha razão de ser, destruiria o meu ser e todos os seres, se as obras de Deus pudessem ser destruídas. Nenhuma criatura poderá jamais compreender o que significa um único pecado: a perversão do pecado é um mistério insondável. Isto é o mal.
O mal
Pois só há um mal, como só há um bem. O único bem essencial é a glória de Deus; o único mal essencial é o que a ataca: o pecado. Todos os bens criados só têm de bom o que procura a glória de Deus; todos os males do mundo só têm de mal o que participa do pecado. Nada é mal senão o pecado e o que ao pecado pertence.
A glória de Deus é o bem uno e universal; o pecado é o mal uno e universal. Há no mundo uma imensa quantidade de males, e no entanto só há um. Fora da glória de Deus não há outro bem senão o que a ela conduz; fora do pecado não há outro mal senão o que dele vem ou a ele leva.
Sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal: tal é a promessa pérfida do tentador. E, no entanto, conhecer em cada coisa quanto há de bem e quanto de mal, quanto é para a sua glória e quanto lhe é contrário, essa é a grande ciência que me falta adquirir.
A mentira, a vaidade, a escravidão
A desordem pode existir na minha mente, no meu coração e nas minhas ações, e em cada uma produz o seu efeito próprio:
Quando o meu olhar se volta para mim e se desvia de ver a Deus, a minha mente desmente o seu destino, pois foi feita para vê-lo; e a grande mentira é buscar-me nas criaturas, julgá-las feitas para mim e pôr-me no lugar de Deus. É a mentira do que foi homicida desde o princípio, o pai da mentira, que em tudo busca usurpar a glória de Deus.
O amor, se para no gozo ocioso, só se apega ao vazio. Vaidade quer dizer a criatura vazia de Deus: toda coisa que amo só para a minha satisfação torna-se vazia para mim. Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade; e tudo na minha vida que não ajuda ao amor da glória de Deus é inútil, nulo e desperdiçado.
E quando busco nas criaturas o repouso da minha vida, torno-me escravo. Não domino mais os meus apetites, nem a tirania das coisas ao meu redor. Aquilo que se tornou para mim uma necessidade última é o meu senhor, e eu o seu servo. A inquietação, a perturbação, a tristeza, sinais dessa servidão, têm uma só fonte: buscar o meu próprio prazer. Sou escravo na medida em que busco o meu prazer, e infeliz na exata proporção em que ponho a felicidade humana em primeiro lugar. Quem não dá a Deus o que deve fazendo o que deve, dá-lho sofrendo o que deve.
O gemido universal
As criaturas, no que me toca, são essencialmente apenas instrumentos ordenados à glória de Deus: esse é o seu destino. Se as uso para outro fim, o uso é sempre insensato, muitas vezes nocivo, quase sempre culpado; e, quanto a elas, é um uso que viola a ordem e contraria a natureza, pois as desvio do fim para o qual foram criadas.
São Paulo fala com energia dessa violação: toda a criação geme e sofre as dores do parto até agora, sujeita à vaidade não de bom grado, na esperança de ser libertada da servidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Que palavra! São Paulo ouviu com tristeza esse gemido universal: sabemos, diz ele; e que sei eu disso? Faço gemer toda a criação e, três vezes surdo, nada ouço.
A morte
Enfim, se a ordem é vida, a desordem é morte. E o que é a morte? Separação, desintegração, aniquilamento: separação do princípio da vida, desintegração dos elementos do ser, aniquilamento da sua existência. Está completa quando essa tríplice obra se acaba; começou onde essa tríplice obra começou.
A desordem é uma espécie de morte, porque me faz deixar Deus, separando-me d’Ele; desintegra a unidade das minhas faculdades, que dispersa entre as criaturas; e diminui o meu ser, secando os meus méritos. Separado de Deus, disperso entre as criaturas, diminuído em mim: o reino da morte trabalha dentro de mim, ali onde só a vida devia crescer.
Há um só mal, como há um só bem: o pecado, que ataca a glória de Deus. Tudo o mais que se diz mal só o é pela porção de pecado que o habita.
Vanitas vanitatum, et omnia vanitas.
Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade.
Contra a glória de Deus, tudo é perversão. Há um só mal, o pecado: na mente vira mentira, no coração vaidade, nas ações escravidão. Toda a criação geme, e a desordem, enfim, é morte, que separa de Deus, dispersa e diminui.