O apego ao eu
Apegar-me à criatura é reter algo dela em mim e algo de mim nela, e assim apropriar-me do que era de Deus. Daí nascem o egoísmo, o amor-próprio e o interesse próprio. A raiz de tudo tem um nome: a busca de si, buscar-me em vez de Deus. E o mal não está na satisfação, boa em si, mas na subversão: pôr a minha satisfação antes e acima da glória de Deus. Até a glória do próprio Cristo, buscada à parte da do Pai, seria nada.
A apropriação
Ao aderir à criatura e tomar o meu repouso fora de Deus, deixo algo da criatura em mim e deixo algo de mim nas criaturas. Tiro assim de Deus uma parte da minha vida e uma parte das coisas que deviam servir-me para Ele. O que retiro de Deus, e a parte da minha vida que reparto, disso me aproprio. E daí nascem o egoísmo, o amor-próprio e o interesse próprio.
É contra essa apropriação indevida, esse próprio, que os santos escreveram anátemas tão terríveis; e os autores místicos sobretudo nos mostram aqui profundezas que assustam, nas quais se vê mais de perto o que significa o tudo de Deus e o dever absoluto de tudo referir a Ele. Ele quer o sacrifício de louvor completo e universal, o holocausto inteiro, e não suporta o menor roubo nesse holocausto: a união soberana que quer comigo exclui toda adesão estranha que me faça deter nas coisas criadas.
A busca de si
Quando nas criaturas e nos seus prazeres vejo antes um meio de satisfazer-me do que de glorificar a Deus; quando as amo antes pela minha felicidade do que pela sua honra; quando as uso antes para o meu prazer do que para o d’Ele, então a minha vida já não está aplicada a ver, amar e buscar a Deus: está aplicada a ver, amar e buscar a mim mesmo.
Buscar-me a mim em vez de Deus, pôr a minha satisfação antes de tudo. É a tendência contínua da natureza viciada, a sua primeira necessidade; e nomeá-la é nomear a fonte dos meus defeitos, a causa dos meus pecados, a raiz profunda do mal em mim.
Satisfazer-me nas e pelas criaturas, a ponto de dividir, negligenciar, esquecer, ferir e calcar aos pés a glória de Deus, eis o pendor da minha natureza viciada. Na satisfação da mente pelo orgulho e do corpo pela sensualidade está todo o mal; e como, no fundo, sensualidade e orgulho são a mesma coisa, toda vez que me afasto da lei da minha criação, é por buscar-me no prazer das coisas criadas, pondo a minha satisfação no lugar da glória de Deus.
O mal não está na satisfação, mas na subversão
O mal, em si, não está em buscar a minha satisfação. Nem a satisfação final do meu crescimento em Deus, nem a satisfação instrumental do prazer nas coisas criadas é má em si; ao contrário, ambas são boas, e muito boas. Tendo-as Deus querido e feito para mim, nenhuma delas pode ser má: tudo o que vem de Deus é bom.
O mal não está na minha satisfação em si, e sim na maneira como a busco, na subversão que provoco para consegui-la. A minha satisfação deve permanecer abaixo da glória de Deus, vir depois dela e ajudá-la; e eu procuro-a nas criaturas e ponho-a antes e acima de Deus. O mal está no deslocamento e na subversão.
Não a satisfação, boa em si, mas a inversão da ordem: pôr a minha satisfação antes e acima da glória de Deus, quando ela devia ficar abaixo, vir depois e servi-la.
Gloria mea nihil est
É verdade, diz São Francisco de Sales, que o que fazemos pela nossa salvação é feito para o serviço de Deus, contanto que refiramos a salvação à sua glória como fim último. O próprio Salvador fez da nossa salvação neste mundo apenas um fim segundo, referindo-a como fim último à glória do Pai; Ele mesmo disse que não veio buscar a sua glória, mas a glória daquele que o enviou, e chegou a declarar que, se buscasse a sua própria glória, a sua glória seria nada, isto é, seria vã se a glória de Deus não fosse o seu fim principal.
A glória do nosso Salvador ocupa, sem dúvida, o lugar mais alto entre as satisfações e os bens criados. Que é a minha glória diante da d’Ele? E se Ele declara a sua própria glória vaidade e nada à parte da do Pai, que dizer de todas as outras satisfações das criaturas? Vaidade, nada, desordem: tal é toda satisfação buscada à parte da glória de Deus.
Se até a glória do próprio Cristo, buscada à parte da do Pai, seria nada, que será de toda satisfação que ponho antes da glória de Deus?
Si ego glorifico meipsum, gloria mea nihil est.
Se eu glorifico a mim mesmo, a minha glória nada é.
Apegar-me à criatura leva a apropriar-me do que é de Deus, e daí o egoísmo, o amor-próprio, o interesse próprio. A raiz é a busca de si. O mal não está na satisfação, mas na subversão: pô-la acima da glória de Deus, sem a qual tudo é nada.