O amor ao dever
Não basta que a mente veja: o coração precisa amar, porque o fim da lei é o amor. Daí a máxima de São Francisco de Sales, que devemos amar a obediência mais do que temer a desobediência. A vontade de Deus costuma ser penosa à natureza, e é jugo a carregar; mas quem a abraça de coração descobre que é o preceito que pesa, não ela: sob constrangimento, a lei esmaga; abraçada, sustenta. E o amor não pode parar nas aparências humanas, que muitas vezes nada têm de amável, porque é sob elas que se esconde a substância divina, e fazer dos defeitos dos homens pretexto para dispensar-se da vontade de Deus é coisa fácil e comum.
Amar o dever
Não basta que a mente veja: o coração também deve amar, porque o fim da lei é o amor.
Devemos amar a obediência mais do que temer a desobediência.
A máxima é das prediletas de São Francisco de Sales, e diz tudo. Assim que conheço a vontade de Deus, devo apegar-me a ela e amar aquilo que a manifesta. O livro da santidade intitula-se fazer a vontade de Deus, e é ali que encontro o que devo fixar na minha vontade: a lei que há de ser plantada no belo jardim da alma.
O jugo divino
A vontade de Deus é muitas vezes penosa à natureza, porque contraria as suas tendências perversas: é o jugo que devemos tomar sobre nós, o fardo que temos de carregar. Se me apego a ela e a amo, o jugo é suave e o fardo é leve.
Está aqui a distinção decisiva. Se me submeto à lei por constrangimento, se estou debaixo da lei, como diz São Paulo, ela me esmaga; se a abraço de coração, ela me sustenta.
E o motivo é que é o preceito que é duro, é a obrigação que pesa; a vontade de Deus é que é doce, e essa eu sei discernir e amar apesar da dureza aparente. É o seu beneplácito que é leve, e é ele que me atrai por baixo de um exterior penoso.
Iugum enim meum suave est, et onus meum leve.
Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
As aparências humanas
Por isso o meu amor não deve deter-se na aparência exterior, e sim apegar-se à vontade de Deus, soberanamente amável, que a lei manifesta. Do mesmo modo amarei a Igreja e as suas leis, porque para mim ela é o instrumento de Deus; e amarei os meus superiores, porque para mim são os intérpretes vivos da vontade divina.
Não pararei nos acidentes humanos, que podem estar muito longe de ser amáveis, mas olharei além, para o fato divino que se manifesta mesmo por esses meios. Vale aqui o pensamento citado de um escritor russo: na Igreja, sob as aparências de uma sociedade visível e humana, esconde -se a substância divina, e tudo o que pode parecer anormal na sua história pertence às aparências humanas, não à substância divina.
Que sinal de coração puro e reto é saber discernir e amar a substância divina sob as aparências humanas, a vontade de Deus em homens cheios de defeitos.
E o reverso é registrado sem rodeios: infelizmente é fácil e comum fazer dos defeitos humanos pretexto para libertar-se da vontade de Deus.
Convém notar o que essa passagem não autoriza. Não se manda chamar de amável o que não o é, nem fingir que o defeito não existe; manda-se olhar através dele, e não fazer dele a porta de saída. A distinção entre substância e aparência é a mesma que o Livro inteiro faz entre a vontade de Deus e os canais humanos por onde ela chega.
Conhecer o dever não move ninguém; o que move é amá-lo. E a experiência de que a lei pesa não é sinal de que ela seja má, e sim de como está sendo carregada: sob constrangimento esmaga, abraçada sustenta, porque o duro é o preceito e o doce é a vontade que ele traz. A prova disso está no trato com os canais humanos: quem ama a vontade de Deus atravessa os defeitos de quem a transmite; quem não a ama encontra neles a desculpa que procurava.