A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IIICap. 2
Primeira Parte · O Fim · Livro III · Capítulo 2 · A imperfeição · A sua natureza

A dominação do humano

Essência

Vencido o pecado venial, ainda resta o segundo grau da dominação, mais alto e mais extenso: a imperfeição. Ela é buscar-me a mim mesmo antes da glória de Deus em coisas boas ou indiferentes, sem ofensa formal à Majestade divina. Dois sinais a caracterizam, a dominação do humano e a ausência de ofensa formal; este capítulo trata do primeiro. Essa dominação não faz o ato sair dos limites do honesto, mas o faz deter-se em mim, tirando-lhe a relação com a glória de Deus que ele deveria ter ao menos virtualmente. A sua fonte é a mesma de sempre: a aderência do meu ser às criaturas pelo prazer.

o pecado venial foi vencido, a dominação permanece
a imperfeição é preferir-me a Deus sem ofendê-lo formalmente
o ato não sai do honesto, mas para em mim
assim perde a ordenação à glória divina
a fonte é sempre a aderência ao criado pelo prazer

A definição

Com o pecado venial desaparece todo traço da dominação do humano? A obra já avançou, mas de modo algum está terminada. A primeira parte da etapa do crescimento está cumprida; resta uma segunda, mais alta e mais extensa. Depois de livrar-me das feridas do pecado venial, tenho de romper os laços da imperfeição.

A imperfeiçãoo conceito central do capítulo

A dominação da satisfação humana até a simples transgressão de um conselho, ou até a transgressão não culpável de um preceito. É buscar a mim mesmo e ao meu prazer antes da glória de Deus, em coisas naturalmente boas ou indiferentes, sem que haja ofensa formal contra Deus.

Quando, sem ofensa formal à divina Majestade, uso de alguma criatura principalmente para mim, detendo-me de algum modo em mim mesmo, dirigindo o meu ato demasiado para a minha própria satisfação, ou demasiado dominado pelo influxo da minha natureza, cometo uma imperfeição.

Os dois sinais que a caracterizam
A dominação do humanoo que a faz parecer-se com o pecado: é o gênero, e é o objeto deste capítulo
A ausência de ofensa formalo que a distingue do pecado: é a espécie, e será o objeto do capítulo seguinte

A dominação do prazer humano

Esta dominação, conhecida ou desconhecida, querida ou não, atual ou habitual, pode afetar o ato ou o modo de fazê-lo. Daí nascem as imperfeições voluntárias e involuntárias: as primeiras conhecidas e queridas, as segundas por falta de advertência ou de consentimento.

Sem fazer o ato ultrapassar os limites do útil e do honesto, esta dominação o faz, ainda assim, deter-se em alguma medida primeiro em mim. Há demasiada aderência e demasiada parada no prazer, que deveria ser apenas um meio de impulso; e são essa aderência e essa parada que privam o meu movimento de parte da relação que ele deveria guardar, ao menos virtualmente, com a glória de Deus em primeiro lugar. Assim fico aquém da plenitude do conselho do Apóstolo: quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.

Nota bene

Em parte alguma e em coisa nenhuma se deve dar a Deus o segundo lugar. A intenção do meu ato pode ir a Ele atual ou virtualmente; o essencial é que vá de algum modo, e que a minha satisfação esteja submetida ao seu serviço.

Sem chegar a ofendê-lo formalmente, também não devo portar-me diante d’Ele, mesmo no que é bom, como o mal-educado que sempre se adianta, fala primeiro e primeiro se serve. Se a falta de cortesia é imprópria entre homens, muito mais o é com Deus: é menos lamentável faltar ao decoro humano do que faltar ao que é devido a Deus.

Onde está o dano

Este mal nasce de um hábito da nossa natureza decaída, que se recurva sobre si mesma por inquietação egoísta. Segundo a expressão enérgica da Escritura, a alma está aqui de algum modo encurvada. Cede à tendência de buscar-se, que me faz procurar instintivamente na criatura aquilo que me lisonjeia.

Ainda que muitas vezes eu não perceba, a força deste hábito leva os meus olhos a ver, o meu coração a amar e os meus sentidos a agir por uma espécie de preferência pessoal, de modo que o próprio bem é visto, amado e buscado sob um aspecto humano. E a viscosidade das coisas criadas prende a mim, em alguma medida, o emprego e o cuidado das minhas faculdades. Em tudo isso sigo, na verdade, os instintos da natureza mais do que as moções da graça.

A fonte do mal

A fonte da imperfeição deve ser buscada nas tendências, nos instintos e nos hábitos da nossa natureza decaída. E devo buscá-la, porque aqui quero estudar a minha vida interior. Não me basta verificar que tal ato se opõe mortal, venial ou imperfeitamente à ordem querida por Deus, e que produz em mim efeitos infelizes; preciso saber por que e como a minha alma é levada a essa oposição. Preciso descobrir a fonte.

Busquei-a primeiro no pecado mortal, depois no pecado venial, e agora na imperfeição. E encontro que ela é aquilo mesmo que é o único reservatório das manifestações da desordem em todos os seus graus: a aderência mais ou menos estreita do meu ser às coisas criadas por meio do prazer.

Uma só raiz, três graus
No pecado mortala dominação chega a excluir a vida e a glória divinas, por infração grave e formal de um preceito
No pecado veniala dominação chega apenas à infração leve de um preceito
Na imperfeiçãoa aderência ainda é forte o bastante para criar preferência, e leva a descuidar um conselho ou a infringir sem culpa um preceito

Sigo, na verdade, os instintos da natureza mais do que as moções da graça.

Pontos-chave
Vencido o pecado venial, resta a segunda parte do crescimento, mais alta e mais extensa: a imperfeição.
Imperfeição é a dominação da satisfação humana até a transgressão de um conselho ou a infração não culpável de um preceito.
Dois sinais a constituem: a dominação do humano, que é o gênero, e a ausência de ofensa formal, que é a espécie.
A dominação pode ser conhecida ou não, querida ou não, e afetar tanto o ato quanto o seu modo.
O ato não sai dos limites do honesto, mas para em mim e perde a relação, ao menos virtual, com a glória de Deus.
Fazei tudo para a glória de Deus: em coisa nenhuma se deve dar a Deus o segundo lugar.
A raiz é a natureza encurvada sobre si, que busca na criatura aquilo que lisonjeia.
A fonte é sempre a mesma nos três graus da desordem: a aderência ao criado pelo prazer.
Termos
A imperfeição
dominação da satisfação humana até a simples transgressão de um conselho ou a infração não culpável de um preceito, sem ofensa formal a Deus.
Imperfeição voluntária
aquela em que a dominação é conhecida e querida.
Imperfeição involuntária
aquela em que falta advertência ou consentimento suficientes.
Intenção atual e virtual
basta que o ato vá a Deus de algum modo; o essencial é que a satisfação esteja submetida ao seu serviço.
A alma encurvada
a natureza decaída recurvada sobre si por inquietação egoísta, que vê, ama e busca o bem sob aspecto humano.

Sive ergo manducatis, sive bibitis, sive aliud quid facitis: omnia in gloriam Dei facite.

Portanto, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.

1 Coríntios 10, 31
Para reter

A imperfeição não fere a Deus formalmente, e por isso engana: o ato continua honesto, mas para em mim, e o que se perde é a ordenação à glória divina que ele deveria ter ao menos virtualmente. É a natureza encurvada sobre si que vê, ama e busca o próprio bem sob aspecto humano. A raiz é a mesma dos dois pecados: a aderência às criaturas pelo prazer.

Fonte · Primeira Parte, Livro III, capítulo 2
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