A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro ICap. 7
Segunda Parte · O Caminho · Livro I · Capítulo 7 · Nos estados particulares

A piedade sacerdotal

Essência

Na Igreja há funções diversas, como há órgãos diversos num corpo, e a cada um corresponde uma vocação. Ora, a um destino especial deve corresponder uma forma especial, e quem dá essa forma são as leis próprias de cada estado: elas não apenas determinam o trabalho a fazer, como adaptam a alma a esse trabalho. Daí a tese do capítulo: a piedade do sacerdote se faz da observância das leis litúrgicas e disciplinares, todas elas, e nada mais. Nas primeiras está desenhada a busca de Deus; nas segundas, o esquecimento de si; e como piedade é isso, ali está a forma inteira dela. Procurar fora é enganar-se, e o capítulo diz sem meias palavras que a maior fraqueza do sacerdote é descuidar as leis do seu estado.

na Igreja há funções diversas, e vocações
a destino especial corresponde forma especial
e quem dá a forma são as leis do estado
no sacerdote: liturgia e direito canônico
buscar Deus e esquecer-se de si, e nada mais

As vocações

Na Igreja, corpo místico de Cristo, há funções múltiplas a exercer, conforme a multiplicidade das necessidades do corpo. Como no meu corpo natural há órgãos diversos para as diversas exigências da vida, também na Igreja há vocações diversas, atribuindo a cada um a porção de atividade que lhe cabe para o proveito geral. Deus não cria os homens ao acaso: no tempo e no espaço há uma reciprocidade admirável entre as almas e as vocações.

Os três grupos de vocação
A vocação ordináriaa mais numerosa: a vida ocupada com os deveres do ambiente familiar, cuja matéria universal é o cuidado dos interesses humanos
A vocação sacerdotala mais alta: tornar-se representante dos interesses divinos
A vocação religiosaa mais especial: ser como profeta da união entre Deus e o homem

As formas da vocação

A um destino especial deve corresponder uma forma especial: nem todo instrumento serve para todo trabalho. A alma precisa, portanto, receber uma formação conforme à sua missão, e é justamente isso que dão as leis próprias de cada estado.

O que as leis do estado fazemo conceito central do capítulo

Nelas encontro não apenas a determinação prática do trabalho que devo fazer na vida para Deus, mas também a adaptação da minha alma a esse trabalho. Elas marcam a minha parte pessoal de dever, e me formam, me transformam e me ajustam a todas as necessidades da minha vocação.

E daí a definição que o capítulo dá: vocação é a forma especial na qual Deus quer que cada um cresça, para glorificá-lo no corpo dos eleitos. Cada um tem a sua fisionomia, e todos estão unidos entre si.

Liturgia e direito canônico

O sacerdote verdadeiramente piedoso tem grande gosto em conhecer, estudar e dominar as leis do seu estado, porque encontra tudo nelas. Buscar a Deus e esquecer-se de si: nisto está a piedade inteira. E não é essa busca de Deus que está admiravelmente traçada para ele nas leis litúrgicas? E o esquecimento de si, nas leis disciplinares?

A piedade sacerdotal é feita da observância das leis litúrgicas e das leis disciplinares, todas elas, e nada mais.

Tem aqui, portanto, a forma inteira da sua piedade, e tudo o que procurar fora disso é engano. Qualquer outra forma de piedade não é piedade sacerdotal: chame-se piedade mundana, piedade moderna, ou por qualquer outro nome, será sempre a mania infeliz de caçar a piedade onde ela não está.

O bom sacerdote sabe disso

Ele conhece o tesouro admirável que tem nessas grandes leis da Igreja sua mãe, e faz delas o assunto predileto das suas meditações, das suas leituras espirituais e dos seus estudos silenciosos, tirando dali luz instrutiva e abundância de força. Os livros da Igreja são os seus livros de eleição, e o texto oficial deles é o alimento preferido da sua mente. Onde acharia coisa mais bela ou mais sadia? E, sobretudo, onde acharia melhor expressa a voz e a vontade de Deus?

O contraste é traçado sem suavizar: a piedade do sacerdote é bela, grande e forte, e supera de longe a piedade tísica dos que vão buscar os seus estímulos nas futilidades vistosas do momento, tão vazias quanto brilhantes. Por que abandonar a fonte de água viva para cavar cisternas rotas, que não retêm água?

A vossa maior fraqueza e o vosso castigo mais terrível é descuidar as leis do vosso estado. Tudo o que fica aquém disso não está à vossa altura, e vos rebaixa.

O espírito litúrgico e canônico

O sacerdote deve fazer a liturgia entrar de tal modo nas suas relações com Deus, e o direito canônico nas suas relações com os homens, que chegue enfim a entrar no espírito delas. Só o espírito é vivo, porque a letra é morta.

Liturgia e direito canônico não são formas puramente exteriores e mortas: sob essa casca corre uma seiva poderosa. E se importa ter a casca, muito mais importa ter a seiva.

Nota bene

Note-se que o capítulo não opõe a letra ao espírito para dispensar a letra, e sim para exigir as duas. A alegria que ele manifesta é a de ver sacerdotes, e sobretudo associações sacerdotais, empenhados em reavivar em si essa casca na sua integridade e essa seiva na sua fecundidade.

Tomados na letra e no espírito, liturgia e direito canônico significam a vida sacerdotal na plenitude da sua forma: o sacerdote erguido acima do humano e aproximado de Deus, o ministério das coisas santas elevado acima das condições inferiores da humanidade, e, numa palavra, o sacerdote entrado na plenitude da verdade e da força da sua vocação.

Pontos-chave
Na Igreja há funções múltiplas, como há órgãos diversos no corpo, e a cada uma corresponde uma vocação.
Deus não cria os homens ao acaso: há reciprocidade admirável entre as almas e as vocações.
As vocações se agrupam em três: a ordinária, a sacerdotal e a religiosa.
A um destino especial deve corresponder uma forma especial, porque nem todo instrumento serve a todo trabalho.
As leis de cada estado determinam o trabalho e adaptam a alma a esse trabalho.
Vocação é a forma especial na qual Deus quer que cada um cresça para glorificá-lo.
Buscar a Deus e esquecer-se de si é a piedade inteira.
As leis litúrgicas traçam a busca de Deus; as disciplinares, o esquecimento de si.
A piedade sacerdotal se faz da observância dessas leis, todas elas, e nada mais.
O que se procura fora disso não é piedade sacerdotal, por mais que se lhe dê outro nome.
O bom sacerdote faz das leis da Igreja o assunto predileto das suas meditações e leituras.
A sua maior fraqueza é descuidar as leis do próprio estado, e isso o rebaixa.
Liturgia e direito canônico não são formas mortas: sob a casca corre uma seiva.
Importa ter a casca, e importa muito mais ter a seiva.
Termos
Vocação
a forma especial na qual Deus quer que cada um cresça, para glorificá-lo no corpo dos eleitos.
As leis do estado
as que determinam o trabalho a fazer e ao mesmo tempo formam a alma para esse trabalho.
Leis litúrgicas
para o sacerdote, o desenho da busca de Deus nas suas relações com ele.
Leis disciplinares
para o sacerdote, o desenho do esquecimento de si nas suas relações com as criaturas.
A casca e a seiva
a letra das leis e o espírito que nelas corre; é preciso ter a primeira, e importa muito mais ter a segunda.
Para reter

O capítulo aplica ao sacerdote a regra que o Livro vinha construindo: a vontade de Deus chega a cada um pela forma do seu estado. E a aplicação é radical, porque não sobra espaço para uma piedade paralela: se piedade é buscar a Deus e esquecer-se de si, e se a liturgia desenha a primeira coisa e a disciplina a segunda, então ali está tudo, e o que se procura fora é caça em terreno errado. Fica ainda o aviso sobre a letra: é preciso a casca, e mais ainda a seiva.

Fonte · Segunda Parte, Livro I, capítulo 7
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