A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro ICap. 3
Segunda Parte · O Caminho · Livro I · Capítulo 3 · Conhecimento do dever · Obrigações gerais

As obrigações gerais

Essência

Vista a vontade de Deus do lado de quem a manifesta, começa o lado de quem a segue. As três potências que fazem a piedade, ver, amar e buscar, dão as três obrigações da piedade prática: conhecer a vontade de Deus, amá-la e executá-la. A primeira é conhecer, porque também aqui o conhecimento é a condição primeira do bem, e sem ele se anda no escuro. Contra esse conhecimento erguem-se dois males: a ignorância, que não vê, com as suas três formas, e a ilusão, que vê torto, e é a mais comum, porque o interesse próprio é hábil em fabricá-la, sobretudo a respeito da vontade de Deus.

da manifestação divina à resposta humana
ver, amar e buscar: as três potências
logo, conhecer, amar e executar o dever
e o primeiro é conhecer, sob pena de andar no escuro
contra ele, a ignorância que não vê e a ilusão que vê torto

A piedade prática

À vontade geral de Deus correspondem as obrigações que constituem o que se pode chamar a parte prática da piedade, já que determinam o que devo fazer e apontam a porção de ação pessoal que Deus me pede na obra da sua glória e da minha santificação.

Piedade práticao conceito central do capítulo

A parte em ação que me cabe desenvolver no ver, no amar e no buscar a Deus. A direção do olhar, do amor e da busca para Deus é a piedade; a parte dela realizada pelo concurso da minha atividade pessoal é a piedade em ação.

Conhecer, amar, executar

Se devo conhecer o meu fim, devo também conhecer o meu caminho; se devo amar o fim, devo amar também a estrada; se devo alcançar o cume, devo seguir as veredas que a ele conduzem. A glória de Deus, que é o meu fim, exige que a inteligência a conheça, que a vontade se apegue a ela e que a ação a busque. E essa tríplice obrigação vale igualmente para a vontade de Deus.

A essência e o caminho
Ver, amar e buscar a glória de Deusnisto está a essência da piedade
Ver, amar e buscar a vontade de Deusnisto está o seu caminho

A necessidade de conhecer o dever

Antes de tudo, devo conhecer a vontade de Deus. Devo conhecê-la se quero segui-la e não andar nas trevas, e se não quero ficar de todo desprovido de prudência e de sabedoria. Também aqui o conhecimento é a primeira condição do bem.

Ut impleamini agnitione voluntatis eius, in omni sapientia et intellectu spirituali.

Para que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual.

Colossenses 1, 9

Como os olhos dos servos estão nas mãos dos seus senhores, e os olhos da serva nas mãos da sua senhora, assim devem estar os meus olhos fixos no Senhor meu Deus, para procurar e vir a conhecer a sua vontade em todas as coisas.

A ignorância

Dois males são de temer: a ignorância, que não vê, e a ilusão, que vê mal. A primeira tem três formas.

As três ignorâncias
A culpávela que não se inquieta em renovar os próprios sentimentos e, conformando-se ao mundo, não procura saber qual é a vontade de Deus que leva do bem ao melhor
A das distraçõesfeita de frivolidade, que não consegue deter-se para pensar em nada e deixa a vida escorrer na corrente
A involuntáriafruto da escuridão da nossa inteligência fraca, contra a qual se luta a vida inteira, pedindo a Deus que ponha a sua luz na pequena lâmpada da mente

A ilusão

A ilusão é talvez o mal mais comum. Gostamos tanto de alimentar-nos de ilusões: vivemos nelas, e nelas também morremos. Alimentar-se delas é a grande necessidade e a preocupação constante do interesse próprio, que é hábil em fabricá-las.

E em nenhum lugar elas são tão frequentes nem tão fatais quanto a respeito da vontade de Deus. Convém-me tanto não vê-la demais, ou vê-la apenas o bastante para aquietar a consciência sem sobrecarregá-la.

Diante da vontade de Deus, consulto os meus interesses: eles estão tão perto e são tão insistentes. A sua voz se faz ouvir com tanta facilidade, e o barulho com que enchem os meus ouvidos abafa a voz de Deus, que já não me alcança bem.

E quando os meus olhos percebem a vontade divina através do prisma deformante dos instintos sensuais, a visão se perverte, as coisas já não aparecem como realmente são, e caio em ilusão. Os meus rins estão cheios de ilusões, diz o salmo, isto é, a minha natureza carnal é o reservatório, e um reservatório sempre cheio. Daí a necessidade de manter os rins cingidos, para que essa triste plenitude não transborde na alma, e de ter na mão a lâmpada sempre acesa, para poder ver com clareza.

Nota bene

A distinção entre os dois males é prática: contra a ignorância vale o estudo, e contra a ilusão vale sobretudo a retidão da intenção e a conta que se dá a outro. Por isso o capítulo seguinte tratará do que é preciso conhecer, e virá ao fim a necessidade da direção.

Pontos-chave
À vontade geral de Deus correspondem as obrigações que formam a parte prática da piedade.
Piedade prática é a parte em ação que me cabe no ver, no amar e no buscar a Deus.
Devo conhecer o caminho como conheço o fim, amá-lo como amo o fim, e segui-lo para alcançar o cume.
Ver, amar e buscar a glória de Deus é a essência da piedade; ver, amar e buscar a sua vontade é o caminho.
O conhecimento é a primeira condição do bem: sem ele, anda-se nas trevas e falta prudência.
Que os meus olhos estejam no Senhor como os do servo nas mãos do senhor.
Dois males ameaçam esse conhecimento: a ignorância, que não vê, e a ilusão, que vê mal.
A ignorância tem três formas: a culpável, a das distrações e a involuntária.
A ilusão é a mais comum, porque o interesse próprio é hábil em fabricá-la.
Em nada as ilusões são tão frequentes quanto a respeito da vontade de Deus.
A voz dos meus interesses abafa a voz de Deus, e o prisma dos instintos deforma o que vejo.
Contra isso, cingir os rins e manter acesa a lâmpada.
Termos
Piedade prática
a parte da piedade realizada pela minha atividade pessoal: conhecer, amar e executar a vontade de Deus.
A tríplice obrigação
a inteligência deve conhecer a vontade divina, a vontade deve respeitá-la e amá-la, a ação deve executá-la.
Ignorância culpável
a que se conforma ao mundo e não se dá ao trabalho de procurar o que Deus quer.
Ignorância involuntária
a que vem da fraqueza da inteligência, e contra a qual se luta a vida inteira pedindo luz.
Ilusão
ver mal por interesse próprio; o mal mais comum, e o mais fatal quando recai sobre a vontade de Deus.
Para reter

Aqui começa a resposta humana, e ela tem a mesma anatomia da piedade: conhecer, amar, executar. O primeiro passo é o conhecimento, e o capítulo dedica quase todo o seu espaço aos dois modos de falhar nele. Um é não ver, por descuido, frivolidade ou fraqueza. O outro, mais comum e mais perigoso, é ver torto: o interesse próprio fabrica ilusões, e nenhuma lhe é mais útil que a de enxergar da vontade de Deus só o bastante para não se inquietar.

Fonte · Segunda Parte, Livro I, capítulo 3
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