As obrigações gerais
Vista a vontade de Deus do lado de quem a manifesta, começa o lado de quem a segue. As três potências que fazem a piedade, ver, amar e buscar, dão as três obrigações da piedade prática: conhecer a vontade de Deus, amá-la e executá-la. A primeira é conhecer, porque também aqui o conhecimento é a condição primeira do bem, e sem ele se anda no escuro. Contra esse conhecimento erguem-se dois males: a ignorância, que não vê, com as suas três formas, e a ilusão, que vê torto, e é a mais comum, porque o interesse próprio é hábil em fabricá-la, sobretudo a respeito da vontade de Deus.
A piedade prática
À vontade geral de Deus correspondem as obrigações que constituem o que se pode chamar a parte prática da piedade, já que determinam o que devo fazer e apontam a porção de ação pessoal que Deus me pede na obra da sua glória e da minha santificação.
A parte em ação que me cabe desenvolver no ver, no amar e no buscar a Deus. A direção do olhar, do amor e da busca para Deus é a piedade; a parte dela realizada pelo concurso da minha atividade pessoal é a piedade em ação.
Conhecer, amar, executar
Se devo conhecer o meu fim, devo também conhecer o meu caminho; se devo amar o fim, devo amar também a estrada; se devo alcançar o cume, devo seguir as veredas que a ele conduzem. A glória de Deus, que é o meu fim, exige que a inteligência a conheça, que a vontade se apegue a ela e que a ação a busque. E essa tríplice obrigação vale igualmente para a vontade de Deus.
A necessidade de conhecer o dever
Antes de tudo, devo conhecer a vontade de Deus. Devo conhecê-la se quero segui-la e não andar nas trevas, e se não quero ficar de todo desprovido de prudência e de sabedoria. Também aqui o conhecimento é a primeira condição do bem.
Ut impleamini agnitione voluntatis eius, in omni sapientia et intellectu spirituali.
Para que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual.
Como os olhos dos servos estão nas mãos dos seus senhores, e os olhos da serva nas mãos da sua senhora, assim devem estar os meus olhos fixos no Senhor meu Deus, para procurar e vir a conhecer a sua vontade em todas as coisas.
A ignorância
Dois males são de temer: a ignorância, que não vê, e a ilusão, que vê mal. A primeira tem três formas.
A ilusão
A ilusão é talvez o mal mais comum. Gostamos tanto de alimentar-nos de ilusões: vivemos nelas, e nelas também morremos. Alimentar-se delas é a grande necessidade e a preocupação constante do interesse próprio, que é hábil em fabricá-las.
E em nenhum lugar elas são tão frequentes nem tão fatais quanto a respeito da vontade de Deus. Convém-me tanto não vê-la demais, ou vê-la apenas o bastante para aquietar a consciência sem sobrecarregá-la.
Diante da vontade de Deus, consulto os meus interesses: eles estão tão perto e são tão insistentes. A sua voz se faz ouvir com tanta facilidade, e o barulho com que enchem os meus ouvidos abafa a voz de Deus, que já não me alcança bem.
E quando os meus olhos percebem a vontade divina através do prisma deformante dos instintos sensuais, a visão se perverte, as coisas já não aparecem como realmente são, e caio em ilusão. Os meus rins estão cheios de ilusões, diz o salmo, isto é, a minha natureza carnal é o reservatório, e um reservatório sempre cheio. Daí a necessidade de manter os rins cingidos, para que essa triste plenitude não transborde na alma, e de ter na mão a lâmpada sempre acesa, para poder ver com clareza.
A distinção entre os dois males é prática: contra a ignorância vale o estudo, e contra a ilusão vale sobretudo a retidão da intenção e a conta que se dá a outro. Por isso o capítulo seguinte tratará do que é preciso conhecer, e virá ao fim a necessidade da direção.
Aqui começa a resposta humana, e ela tem a mesma anatomia da piedade: conhecer, amar, executar. O primeiro passo é o conhecimento, e o capítulo dedica quase todo o seu espaço aos dois modos de falhar nele. Um é não ver, por descuido, frivolidade ou fraqueza. O outro, mais comum e mais perigoso, é ver torto: o interesse próprio fabrica ilusões, e nenhuma lhe é mais útil que a de enxergar da vontade de Deus só o bastante para não se inquietar.