A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro IIAbertura
Segunda Parte · O Caminho · Livro II · Abertura · n. 285

A vontade de beneplácito

Essência

O Livro I deu os trilhos; este dá o combustível. Depois da vontade revelada, que fixa e mantém as regras da minha ação, vem a vontade de beneplácito, que comunica o impulso. A divisão é a mesma do Livro anterior, como Deus se manifesta e como o homem corresponde, mas os dois termos trocam de sinal: aqui Deus já não se manifesta por preceitos e sim por livre iniciativa, e a correspondência humana já não está na ação e sim na aceitação. Nas regras fixas a vontade de Deus era a mais passiva e a minha a mais ativa; aqui é o contrário, e os papéis se entrecruzam. Duas perguntas, portanto: qual é a ação vivificante de Deus em mim e sobre mim, e como devo recebê-la.

os trilhos já estão postos pelo Livro I
falta o combustível que move o trem
e ele é a vontade de beneplácito
que Deus manifesta por livre iniciativa
e à qual eu correspondo pela aceitação
aqui Deus é o mais ativo, e eu o mais passivo

A imagem que abre o Livro

Agora que conheço os trilhos do percurso que conduz a Deus, é preciso conhecer o combustível. O trem não pode avançar sobre os trilhos sem o combustível que lhe dá o movimento. Portanto, depois de ter considerado a vontade revelada, que fixa e mantém as regras da minha ação, é preciso considerar a vontade de beneplácito, que comunica o impulso divino.

Vontade de beneplácitoo objeto deste Livro

A parte da ação de Deus que ele reserva para si na construção da minha vida. Não se manifesta por palavras nem por preceitos, e sim por operações: aquilo que ele faz em mim e sobre mim sem me pedir licença, e sem que eu possa antecipar.

Nota bene

A imagem do trem sustenta a Segunda Parte inteira e é a razão de os dois Livros não poderem ser separados. Os trilhos sem combustível não levam a lugar nenhum, e o combustível sem trilhos não leva a lugar bom. O Livro III, adiante, é justamente sobre a aliança dos dois.

A mesma divisão, com os sinais trocados

Em relação à vontade revelada, vimos duas coisas: como ela se manifesta, e como devemos corresponder-lhe. Conservaremos essa mesma divisão para a vontade de beneplácito: de que maneira Deus a manifesta, e de que maneira o homem corresponde a ela.

A manifestação divina se dá, aqui, não mais pela apresentação de preceitos ou de conselhos, mas pela livre iniciativa; e a correspondência humana, por sua vez, já não se encontra na ação direta, mas na aceitação. Assim como, nas regras fixas, a vontade de Deus se manifesta de forma mais passiva e a do homem mais ativa no cumprimento das leis reveladas, aqui, inversamente, a vontade de Deus se mostra mais ativa e a do homem mais passiva na aceitação. De certa forma, em suas operações, os papéis de Deus e do homem se entrecruzam.

Livro I · vontade reveladaLivro II · vontade de beneplácito
Como Deus se manifestapor preceitos e conselhos, isto é, por palavras que fixam regraspor livre iniciativa, isto é, por operações
Como o homem correspondepela ação direta, cumprindo o que foi mandadopela aceitação daquilo que não escolheu
Quem é o mais ativoo homem, no cumprimento das leis reveladasDeus, na obra que ele conduz
A piedade correspondentea piedade ativaa piedade passiva

A observação decisiva está na última linha do parágrafo: em suas operações, os papéis de Deus e do homem se entrecruzam. Não são duas vidas espirituais, e sim a mesma vida vista dos dois lados.

As duas perguntas do Livro

Qual é, pois, a ação vivificante de Deus em mim e sobre mim? Como devo, de minha parte, receber essa ação? Essas são as duas questões de que trata este Livro Segundo.

O Livro inteiro em duas perguntas
1
Qual é a ação vivificante de Deus em mim e sobre mim?é o trabalho de Deus, e ocupa os capítulos 1 a 4
2
Como devo, de minha parte, receber essa ação?é a aceitação do homem, e ocupa os capítulos 5 a 10

A advertência contra o mal-entendido

Será preciso repetir que a piedade passiva não é senão um dos aspectos da piedade completa? Que não se trata de um estado superior, que sucederia ao estado precedente de piedade ativa? Que uma e outra são vividas simultaneamente, que elas se combinam e se aliam constantemente na caminhada da vida cristã? Sua aliança será melhor demonstrada no Livro seguinte.

Nota bene

Vale sublinhar o que está sendo negado, porque é o erro mais comum na leitura de tratados de vida espiritual: a piedade passiva não é um estado superior que sucederia ao da piedade ativa, como se houvesse iniciantes que agem e adiantados que só recebem. As duas são vividas ao mesmo tempo, e caminham aliadas.

Como o Livro está dividido

O quadro da edição brasileira reparte os dez capítulos em duas metades desiguais, e a segunda ainda se subdivide. Vale ter o mapa à vista antes de começar, porque a lógica da sequência é o que dá sentido a cada capítulo isolado.

Trabalho de Deus
  • 1A ação divina
  • 2Sua finalidade
  • 3Suas formas
  • 4Seu andamento
Aceitação do homem · Geral
  • 5A piedade passiva
  • 6A espera de Deus
  • 7A atenção a Deus
Aceitação do homem · Específica
  • 8Alegrias e sofrimentos
  • 9Nos sofrimentos: a gratidão
  • 10Dizer «sim» antecipadamente

A progressão é legível de relance. Primeiro o que Deus faz, em quatro passos que vão do fato à sua finalidade, às suas formas e ao seu andamento. Depois o que cabe a mim, primeiro em geral, na disposição habitual da alma, e por fim diante daquilo que concretamente acontece, que é onde a doutrina custa a ser aceita.

Concordância com a tradução inglesa

Como no Livro anterior, as duas edições não se alinham. A inglesa tem nove capítulos aqui, e a brasileira tem dez.

Aqui · e na tradução inglesa
01A ação divina
I · Divine Action
02Sua finalidade
II · The Purpose of the Divine Operations
03Suas formas
III · The Two Modes of God’s Operation
04Seu andamento
IV · The Progress of the Divine Work
05A piedade passiva
V · Passive Piety
06A espera de Deus
VI, 27-30 · Waiting for God — a primeira metade
07A atenção a Deus
VI, 31-32 · Waiting for God — as duas últimas seções, Attention and submission e The spiritual director
08Alegrias e sofrimentos
VII · Joys and Sufferings
09Nos sofrimentos: a gratidão
VIII · “I Thank Thee”
10Dizer «sim» antecipadamente
IX · The Aloes
Nota bene

O desencontro está num ponto só. O capítulo VI inglês, Waiting for God, reúne em seis seções aquilo que a edição brasileira reparte entre a espera de Deus e a atenção a Deus; as duas últimas seções daquele capítulo chamam-se justamente Attention and submission e The spiritual director. Daí em diante a numeração fica defasada em um. O corte exato entre os capítulos 6 e 7 fica por confirmar na leitura.

Pontos-chave
O Livro I deu os trilhos; este dá o combustível que move o trem.
A vontade de beneplácito é a parte da ação de Deus que ele reserva para si.
Ela não se manifesta por palavras nem preceitos, e sim por operações.
A correspondência a ela não é a ação direta, e sim a aceitação.
Nas regras fixas Deus é o mais passivo e o homem o mais ativo.
Aqui é o inverso, e os papéis se entrecruzam.
Duas perguntas: o que Deus faz em mim, e como devo recebê-lo.
A primeira ocupa os capítulos 1 a 4; a segunda, os capítulos 5 a 10.
A aceitação se divide em geral (5 a 7) e específica (8 a 10).
A piedade passiva não é estado superior que suceda à ativa.
As duas são simultâneas e aliadas, e o Livro III demonstrará essa aliança.
Para reter

Guardar antes de tudo a inversão, porque é ela que organiza o Livro: a mesma vida espiritual, olhada agora do outro lado. No Livro I eu agia e Deus fixava as regras; aqui Deus age e eu recebo. E guardar a advertência do último parágrafo, que evita o erro de ler isto como um degrau acima: passiva e ativa não se sucedem, se combinam. O que muda de um Livro para o outro não é o estágio da alma, é o ângulo da descrição.

Fonte · Segunda Parte, Livro II, abertura
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