A vontade de beneplácito
O Livro I deu os trilhos; este dá o combustível. Depois da vontade revelada, que fixa e mantém as regras da minha ação, vem a vontade de beneplácito, que comunica o impulso. A divisão é a mesma do Livro anterior, como Deus se manifesta e como o homem corresponde, mas os dois termos trocam de sinal: aqui Deus já não se manifesta por preceitos e sim por livre iniciativa, e a correspondência humana já não está na ação e sim na aceitação. Nas regras fixas a vontade de Deus era a mais passiva e a minha a mais ativa; aqui é o contrário, e os papéis se entrecruzam. Duas perguntas, portanto: qual é a ação vivificante de Deus em mim e sobre mim, e como devo recebê-la.
A imagem que abre o Livro
Agora que conheço os trilhos do percurso que conduz a Deus, é preciso conhecer o combustível. O trem não pode avançar sobre os trilhos sem o combustível que lhe dá o movimento. Portanto, depois de ter considerado a vontade revelada, que fixa e mantém as regras da minha ação, é preciso considerar a vontade de beneplácito, que comunica o impulso divino.
A parte da ação de Deus que ele reserva para si na construção da minha vida. Não se manifesta por palavras nem por preceitos, e sim por operações: aquilo que ele faz em mim e sobre mim sem me pedir licença, e sem que eu possa antecipar.
A imagem do trem sustenta a Segunda Parte inteira e é a razão de os dois Livros não poderem ser separados. Os trilhos sem combustível não levam a lugar nenhum, e o combustível sem trilhos não leva a lugar bom. O Livro III, adiante, é justamente sobre a aliança dos dois.
A mesma divisão, com os sinais trocados
Em relação à vontade revelada, vimos duas coisas: como ela se manifesta, e como devemos corresponder-lhe. Conservaremos essa mesma divisão para a vontade de beneplácito: de que maneira Deus a manifesta, e de que maneira o homem corresponde a ela.
A manifestação divina se dá, aqui, não mais pela apresentação de preceitos ou de conselhos, mas pela livre iniciativa; e a correspondência humana, por sua vez, já não se encontra na ação direta, mas na aceitação. Assim como, nas regras fixas, a vontade de Deus se manifesta de forma mais passiva e a do homem mais ativa no cumprimento das leis reveladas, aqui, inversamente, a vontade de Deus se mostra mais ativa e a do homem mais passiva na aceitação. De certa forma, em suas operações, os papéis de Deus e do homem se entrecruzam.
| Livro I · vontade revelada | Livro II · vontade de beneplácito | |
|---|---|---|
| Como Deus se manifesta | por preceitos e conselhos, isto é, por palavras que fixam regras | por livre iniciativa, isto é, por operações |
| Como o homem corresponde | pela ação direta, cumprindo o que foi mandado | pela aceitação daquilo que não escolheu |
| Quem é o mais ativo | o homem, no cumprimento das leis reveladas | Deus, na obra que ele conduz |
| A piedade correspondente | a piedade ativa | a piedade passiva |
A observação decisiva está na última linha do parágrafo: em suas operações, os papéis de Deus e do homem se entrecruzam. Não são duas vidas espirituais, e sim a mesma vida vista dos dois lados.
As duas perguntas do Livro
Qual é, pois, a ação vivificante de Deus em mim e sobre mim? Como devo, de minha parte, receber essa ação? Essas são as duas questões de que trata este Livro Segundo.
A advertência contra o mal-entendido
Será preciso repetir que a piedade passiva não é senão um dos aspectos da piedade completa? Que não se trata de um estado superior, que sucederia ao estado precedente de piedade ativa? Que uma e outra são vividas simultaneamente, que elas se combinam e se aliam constantemente na caminhada da vida cristã? Sua aliança será melhor demonstrada no Livro seguinte.
Vale sublinhar o que está sendo negado, porque é o erro mais comum na leitura de tratados de vida espiritual: a piedade passiva não é um estado superior que sucederia ao da piedade ativa, como se houvesse iniciantes que agem e adiantados que só recebem. As duas são vividas ao mesmo tempo, e caminham aliadas.
Como o Livro está dividido
O quadro da edição brasileira reparte os dez capítulos em duas metades desiguais, e a segunda ainda se subdivide. Vale ter o mapa à vista antes de começar, porque a lógica da sequência é o que dá sentido a cada capítulo isolado.
- 1A ação divina
- 2Sua finalidade
- 3Suas formas
- 4Seu andamento
- 5A piedade passiva
- 6A espera de Deus
- 7A atenção a Deus
- 8Alegrias e sofrimentos
- 9Nos sofrimentos: a gratidão
- 10Dizer «sim» antecipadamente
A progressão é legível de relance. Primeiro o que Deus faz, em quatro passos que vão do fato à sua finalidade, às suas formas e ao seu andamento. Depois o que cabe a mim, primeiro em geral, na disposição habitual da alma, e por fim diante daquilo que concretamente acontece, que é onde a doutrina custa a ser aceita.
Concordância com a tradução inglesa
Como no Livro anterior, as duas edições não se alinham. A inglesa tem nove capítulos aqui, e a brasileira tem dez.
O desencontro está num ponto só. O capítulo VI inglês, Waiting for God, reúne em seis seções aquilo que a edição brasileira reparte entre a espera de Deus e a atenção a Deus; as duas últimas seções daquele capítulo chamam-se justamente Attention and submission e The spiritual director. Daí em diante a numeração fica defasada em um. O corte exato entre os capítulos 6 e 7 fica por confirmar na leitura.
Guardar antes de tudo a inversão, porque é ela que organiza o Livro: a mesma vida espiritual, olhada agora do outro lado. No Livro I eu agia e Deus fixava as regras; aqui Deus age e eu recebo. E guardar a advertência do último parágrafo, que evita o erro de ler isto como um degrau acima: passiva e ativa não se sucedem, se combinam. O que muda de um Livro para o outro não é o estágio da alma, é o ângulo da descrição.