A ausência de ofensa formal
O segundo sinal da imperfeição é inseparável do primeiro: nela a preponderância do humano nunca chega a ofender formalmente a Deus. Isso acontece de dois modos, pela simples transgressão de um conselho e pela transgressão não culpável de um preceito. O Evangelho dá o exemplo mais claro: Pedro, chamado bem-aventurado poucos versículos antes, é chamado Satanás por testemunhar afeição ao Mestre segundo os pensamentos dos homens. Ali não houve pecado, e houve repreensão severa, porque o humano se pôs adiante do divino.
O segundo caráter da imperfeição
O primeiro caráter que constitui essencialmente a imperfeição é certa preponderância do humano sobre o divino. Um segundo, inseparável do primeiro, é a ausência de qualquer ofensa formal. Segundo a linguagem da Escola, que define por gênero e espécie, a dominação do humano é o gênero da imperfeição, e a ausência de ofensa formal é a diferença: a preponderância do humano faz com que ela se pareça com o pecado; a ausência de ofensa formal é o que a distingue dele.
Na imperfeição, a preponderância do humano nunca se eleva ao ponto de levar a alma a ofender formalmente a divina Majestade. Ela se produz de dois modos: ou pela simples transgressão de um conselho, ou pela transgressão não culpável de um preceito.
Os dois modos
A transgressão de um conselho
Chamo simples transgressão de um conselho aquela que não vem complicada de pecado venial nem mortal, pois é claro que o pecado também leva a descuidar os conselhos. Mas posso deixar um conselho por fazer sem mistura alguma de pecado na omissão, quer a transgressão ocorra por omissão ou por ação, por ato da mente, do coração ou dos sentidos, por hábito interior ou por acidente exterior.
É assim que se sustentam tantos defeitos e extravagâncias, inclinações e caprichos, visões naturais rasteiras e estimativas mundanas, fantasias curiosas e fúteis, preferências humanas e ligações que embaraçam, ações precipitadas e condutas descuidadas. Numa palavra, toda a nossa existência rente à terra, em que o humano domina com demasiada frequência e o divino não tem inteiramente o primeiro lugar que deveria ter numa vida cristã.
A transgressão não culpável de um preceito
São Francisco de Sales dá o exemplo. Venho dizer-vos que tal pessoa vos manda lembranças e votos, e que falou bem de vós, e nada disso aconteceu: eis um pecado venial inteiramente voluntário. Mas suponde que estou contando uma história e, enquanto falo, escapam palavras que não são verdadeiras, e só o percebo depois de as ter dito: isso é uma imperfeição.
Quantas vezes me acontece assim esquecer um dever, ou não observar um preceito, por ter sido humanamente arrastado por algum instinto natural. É essa espécie de dominação que me torna imperfeito. Se a graça tivesse sobre mim influência mais forte, até esses arrancos involuntários das tendências desordenadas seriam menos frequentes.
Vai para trás de mim, Satanás
O Evangelho me oferece um exemplo verdadeiramente impressionante desta dominação do humano sobre o divino sem ofensa formal contra Deus: o episódio em que São Pedro é chamado Satanás pelo seu divino Mestre. Nosso Senhor anunciava aos discípulos todos os sofrimentos da Paixão. Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: longe de vós, Senhor, isso não vos acontecerá. E Jesus, voltando-se, disse a Pedro: vai para trás de mim, Satanás, tu me és escândalo, porque não compreendes as coisas de Deus, mas as dos homens.
Aqui Pedro é chamado Satanás pelo suavíssimo Salvador, sendo ele o mesmo homem a quem, poucos versículos acima, esse Salvador chamara bem-aventurado e escolhera como pedra fundamental da sua Igreja. Que crime terá cometido para atrair sobre si repreensão tão viva depois de merecer louvor tão sublime? Quis mostrar ao Mestre a sua afeição, e mostrou-a sinceramente. Pedro era homem de generosidade impetuosa. Quem irá acusar o Apóstolo por testemunhar afeição ao seu Mestre? E é por esse testemunho que é chamado Satanás? Sim, precisamente por esse testemunho.
O próprio Salvador explica por quê. Pões o homem antes de Deus, os pensamentos dos homens antes dos pensamentos de Deus, as afeições dos homens antes das de Deus. E quando ages assim, tu me és escândalo; e porque ages assim, chamo-te Satanás. Dá a Deus o seu lugar, guarda o teu, vai para trás de mim. Cessa de pôr o humano acima do divino, e aprende que em todas as coisas Deus deve estar acima do homem.
As razões do Salvador
As duas cenas, postas lado a lado no Evangelho, em que Pedro é chamado primeiro bem-aventurado e depois Satanás, são singularmente instrutivas. De um lado, Pedro reconhece e confessa a divindade do Cristo, e Jesus lhe diz: bem-aventurado és tu. Por quê? Porque não ouviste a voz da carne e do sangue, mas a voz do Pai que está nos céus: eis o divino acima do humano.
De outro lado, Pedro, seguindo as afeições humanas e não a sabedoria de Deus, chega a opor-se à Paixão do Filho do homem, e o seu Mestre o chama Satanás. Vemos aqui como o Salvador louva e exalta a fidelidade em reservar ao divino o primeiro lugar, e como repreende a dominação das vistas, das afeições e das tendências da natureza, mesmo naquelas manifestações que estão isentas de pecado.
Sem pecado algum, e ainda assim escândalo: porque não compreendes as coisas de Deus, mas as dos homens.
Vade post me, Satana, scandalum es mihi: quia non sapis ea quæ Dei sunt, sed ea quæ hominum.
Vai para trás de mim, Satanás, tu me és escândalo, porque não compreendes as coisas de Deus, mas as dos homens.
A imperfeição é reconhecível por dois sinais que andam juntos: o humano domina, e Deus não é formalmente ofendido. Por isso ela se esconde nas coisas boas e sinceras, como a afeição de Pedro. A repreensão do Salvador mostra o critério: em tudo o divino deve estar acima do humano, mesmo onde não há pecado nenhum a confessar.