O que é a perfeição
Alcançado o grau em que tudo está em ordem, estou no primeiro pico, e é pouca gente que chega até ele; mas acima dele erguem-se outros, e são esses que tocam o céu. Aqui já não se trata de expulsar o mal, e sim de escolher o melhor: o ato próprio deste grau é discernir, entre as criaturas, aquelas que mais promovem a glória de Deus, e escolhê-las. Como estado, é a prontidão adquirida de ver, amar e escolher sempre o que é mais para essa glória, e reconhece-se por dois sinais, o cuidado único da maior glória divina e o esquecimento de si, que é a indiferença de Santo Inácio.
A obra feita e a obra a fazer
Chegado ao estado bem-aventurado em que tudo está em ordem, estarei no alto? Estarei muito acima, e ainda assim longe dos cumes. Estou no primeiro pico, dificílimo de alcançar e alcançado por poucos demais; mas além dessa altura erguem-se outras, e são elas que tocam o próprio céu.
Nos três graus percorridos, a alma foi sucessivamente purificada do pecado mortal, do pecado venial e da imperfeição. Está livre, curada, e pode entrar na carreira do bem sem liga, da luz sem nuvem, do amor sem divisão. A desordem do eu diante de Deus desapareceu, mas a minha união com Deus está longe de consumada: a minha satisfação está no seu lugar, e no entanto ainda não está toda perdida em Deus. Começa outra obra, ou melhor, a subida continua, porque o princípio de vida que há dentro segue desdobrando a sua atividade sem interrupção.
Uma palavra sobre o vocabulário, para que a leitura não se embarace. A edição brasileira chama de perfeição este quarto grau, que é o que agora começa; a tradução inglesa reserva a palavra perfeição para o terceiro grau, aquele do Livro III, e chama a este de santidade. O conteúdo é o mesmo: aqui se está acima da perfeição ordinária, na região dos cumes.
O ato: escolher o melhor
Um exemplo torna a coisa clara. Se um comerciante pode ganhar cem numa transação lícita, vai contentar-se com cinquenta? Certamente não. É condição fundamental dos negócios que cada parte faça honestamente o melhor pelos próprios interesses, e disso vivem a emulação e o progresso.
Ora, estou obrigado a procurar a glória de Deus: é o objeto essencial da minha vida, e as criaturas me foram dadas para isso. Mas é certo que, entre elas, umas ajudam a esse fim mais que outras. Se não quero ser mais desarrazoado que o mais comum dos comerciantes, tenho de distinguir entre as criaturas e escolher as que mais promovem a glória de Deus. Trazer a este único negócio essencial apenas a fidelidade ordinária que os homens trazem aos seus negócios materiais já exigiria isso.
Não basta ver a glória de Deus nas coisas criadas, que era o trabalho dos três graus anteriores. Aqui se vê em que medida cada criatura contribui para essa glória, e escolhem-se as que contribuem mais.
O estado: um hábito
Mas isto é um estado, e todo estado se constitui por um hábito, que se caracteriza pela facilidade e prontidão em fazer os atos que lhe pertencem. Logo, o quarto grau é prontidão e facilidade em ver, amar e escolher em todas as coisas aquilo que é mais para a glória de Deus. Diliges ex toto: quando todas as potências, mente, coração e sentidos, adquiriram essa facilidade, o estado está estabelecido na alma.
Ad maiorem Dei gloriam.
Para a maior glória de Deus.
A isso obriga o que se chama voto do mais perfeito, feito por muitos santos, entre eles Santa Teresa, Santa Joana de Chantal e Santo Afonso de Ligório.
Os dois sinais
É uma grande subida da alma. A vida inteira passa a consistir no cuidado e na necessidade de glorificar a Deus pelos melhores meios possíveis. O zelo da casa de Deus a devorou por inteiro; aspira apenas a honrá-lo e vive apenas para agradar-lhe. Deus é o seu tudo, tem fome e sede só da sua glória, e o beneplácito divino é o seu único alimento. No céu não acha nada e na terra não deseja nada fora de Deus e da sua glória.
Quoniam zelus domus tuæ comedit me.
Porque o zelo da tua casa me devorou.
A indiferença
Dominada e absorvida assim, a alma esquece a própria satisfação, o gozo falso que vem das criaturas e que tende a deter-se ao lado da glória de Deus. Realiza-se então a indiferença que Santo Inácio tanto recomenda, e que é o segundo caráter deste grau.
O homem deve fazer-se indiferente a todas as coisas criadas, em tudo o que é deixado à escolha do seu livre-arbítrio e não lhe é proibido; de modo que, da sua parte, não queira mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desprezo, vida longa que breve, e assim em tudo o mais, desejando e escolhendo unicamente o que mais o conduz ao fim para que foi criado.
Neste estado o prazer humano me é indiferente: já não penso nele, esqueço-o, e os meus pensamentos sobem mais alto. Estou tão pronto para a dor como para a alegria, para o desprezo como para a honra, para a falta como para a abundância, para a morte como para a vida. Uma só coisa diferencia para mim as criaturas: a maior glória de Deus. Se há mais dessa glória na dor, o santo aceita a dor com alegria; se há mais na alegria, recebe a alegria com simplicidade. Onde quer que a veja, para lá voa, sem cuidado de gozo ou de sofrimento, e lançar-se-ia até no inferno, se ali houvesse mais glória de Deus.
A mudança deste grau é de tarefa, não de intensidade. Nos três anteriores tratava-se de expulsar o mal e reequilibrar a balança entre a minha satisfação e a glória de Deus; aqui a balança já não existe, e a obra é escolher, entre coisas boas, a que mais o glorifica. Por isso o ato próprio é a escolha do mais perfeito, e o sinal do estado é duplo: só a glória divina interessa, e de mim já não me lembro. É o que Inácio chama indiferença.