A perfeição e o sacrifício
A perfeição não consiste em sacrificar o meu prazer, e sim em pô-lo no segundo lugar: ela é restauração, não privação. O engano é comum e caro. Mal me vem um impulso de fervor, saio para o caminho da penitência esperando encontrar ali a perfeição, e os sacrifícios que eu mesmo escolho servem de cortina, porque enquanto os pratico não conserto as minhas intenções. Pior: costumam estar acima das minhas forças e desalinhados da graça que me é dada, e do fracasso nasce a conclusão falsa de que a perfeição é impossível. Sacrifícios são necessários como meios, e o essencial não é privar-se nem deixar de privar-se, e sim retificar a intenção.
A perfeição não é sacrifício
Em si mesma, a perfeição não exige o sacrifício do meu prazer: exige apenas que eu o ponha no seu lugar, que é o segundo. No uso da comida e da bebida, por exemplo, ela não me pede sacrifícios extraordinários; posso usar convenientemente do que Deus me dá sem faltar em nada quanto à perfeição.
Quer comais, quer bebais, diz o Apóstolo. Ele não manda não comer nem não beber: manda que se faça tudo para a glória de Deus. Nem o prazer nem a necessidade de comer devem ser o móvel dominante ou último, e muito menos a intenção exclusiva do ato, pois nisso está a imperfeição; o móvel efetivamente preponderante, a intenção principal, ainda que virtual, deve ser a glória de Deus, e nisso está a perfeição.
Supondo que a minha satisfação seja permitida e sem ofensa a Deus, ela não contradiz a sua glória, e não há incompatibilidade entre as duas. Basta reduzir uma à obediência da outra e pôr cada uma na ordem que lhe cabe. A perfeição não consiste em sacrifício, e sim em restauração.
A aberração
E como é fácil errar neste ponto. Assim que me vem a menor ideia de perfeição, corro para o sacrifício, e acabo confundindo perfeição com privação, quase sem ter outra noção dela. Vem um impulso de fervor e lá vou eu pela estrada da penitência e da renúncia, esperando encontrar ali o que procuro. Pobre errante: a perfeição não está nesse caminho.
Esses sacrifícios funcionam muitas vezes como um desvio de atenção. Enquanto saúdo privações, não penso em consertar os meus caminhos, continuo a buscar-me, e a desordem permanece dentro de mim. Muitas vezes eles são escolhidos por capricho ou por gosto do momento, e até na escolha há busca de si, de modo que o próprio ato de escolher se torna desordenado. Como atos satisfatórios podem ter algum valor; para conduzir-me à perfeição, não têm nenhum.
O fracasso
Há ainda outro dano. Os sacrifícios que escolho costumam estar acima das minhas forças e não corresponder às minhas necessidades espirituais reais. Enquanto não retifiquei as intenções, não estou à altura deles, e a graça, cuja influência é proporcional ao crescimento da alma, não me foi dada para isso.
E então? Como os impulsos generosos não produzem o resultado esperado, desanimo e perco terreno, e o desfecho mais triste desse esforço lamentável é este: passo a julgar que a perfeição é impossível. Parece-me que fiz tudo, que não recuei nem diante do sacrifício, e no entanto caí mais baixo do que estava.
E não podia ser de outro modo: fiz tudo, menos justamente o que devia fazer. De que serve andar a passos largos, se estou fora da estrada? Quanto mais depressa se caminha no caminho errado, mais se erra.
Por que procurar a perfeição onde ela não está, e não procurá-la onde ela realmente está? Por que buscá-la longe, se ela está perto? Em vez de sacrificar a minha satisfação, corrigi-la: quanto mais simples é isso. E é precisamente aí que está a perfeição.
Não seria mais perfeito sacrificar?
Talvez. Mas, antes de visar ao mais perfeito, basta na ordem comum das coisas visar primeiro ao que é apenas perfeito. Fazer sacrifícios mais altos, que a perfeição não pede, enquanto não faço a retificação que ela pede, é contradição flagrante: é o caso do melhor tornando-se inimigo do bom.
O capítulo chama a isso uma das astúcias mais traiçoeiras do maligno com as almas de boa vontade: pôr alguém na pista errada, deslocar a questão e desviar a atenção do verdadeiro alvo, a pretexto de um bem maior que aquela alma manifestamente ainda não pode realizar.
Fica então a regra: posso gozar das satisfações legítimas com esta única condição, a de ordená-las e dirigi-las, atual ou virtualmente, mas de modo efetivo, à glória de Deus.
Os sacrifícios necessários, e até onde
Dizer que a perfeição não exige em si o sacrifício não é dispensá-lo. Porque a minha natureza está viciada, serei muitas vezes obrigado a certas renúncias para reparar e conservar a ordem dentro de mim. Só que esses sacrifícios não são queridos por si mesmos como se constituíssem a perfeição: são meios indispensáveis ou úteis para alcançá-la, e por serem meios pertencem à Terceira Parte da obra.
O essencial, portanto, não é privar-me nem deixar de privar-me: está mais alto. Está na retificação das intenções, para que todas vão em primeiro lugar a Deus e à sua glória. Para isso não devo recuar diante de nenhum sacrifício necessário ou útil, e não penso em sacrifício algum que não leve a esse fim. Quanto aos sacrifícios facultativos, uso deles livre e simplesmente, sob o beneplácito divino.
Saber usar de tudo é mais perfeito do que privar-se de muito, e há frequentemente mais virtude e mais proveito em usar de um prazer e santificá-lo do que em suprimi-lo.
O medo do sacrifício
Mas o inverso também é armadilha. Sob o pretexto de apenas ordenar a minha satisfação abaixo da glória de Deus, ou de pô-la ao seu serviço, posso perder-me: sob a capa da glória divina, posso na verdade apegar-me a mim mais que a Deus. As astúcias do amor-próprio são sutis, e quantas vezes uso o pretexto especioso da glória de Deus para justificar não só imperfeições, mas pecados reais.
Que fazer em circunstância tão perigosa? Vigiar para manter a intenção muito reta e examinar com cuidado se não estou tentando enganar-me a mim mesmo, coisa que a consciência mostra com clareza a quem se interroga a sério; e quanto ao resto, deixar as coisas a Deus, porque onde as ilusões são involuntárias é ele quem se encarrega de dissipá-las.
E o modo como as dissipa é significativo: retira a satisfação que engana. Quando ela é arrancada à força, percebe-se enfim o quanto se estava preso a ela: a dor da separação revela o grau de cobiça que havia na posse.
Sive ergo manducatis, sive bibitis, sive aliud quid facitis: omnia in gloriam Dei facite.
Portanto, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.
Este capítulo corrige o instinto mais comum de quem quer avançar: correr para a privação. A perfeição é restauração, e o que ela pede é que a satisfação legítima seja ordenada, não abolida. Os sacrifícios entram como meios, e sobretudo os que a ordem realmente exige, não os que o fervor escolhe. O critério fica gravado numa frase: saber usar de tudo é mais perfeito do que privar-se de muito, desde que a intenção vá primeiro a Deus.