Conclusões práticas
O dever, tomado na amplitude dos seus fins e circunstâncias, produz uma multidão variadíssima de preocupações, e todas pedem atenção, sob pena de o dever ficar mutilado. Onde estaria então a unidade? Ela é garantida porque todos esses objetivos diversos são considerados, amados e buscados na vontade daquele que me governa, e essa vontade, sendo ele mesmo, é sempre igual a si, sempre grande, santa e adorável. Daí as três conclusões práticas: sem distinções, porque cabe ao senhor distinguir e ao servo olhar para ele e não para si; sem desvios, encerrando-se no dever como num santuário; e o segredo da vida, que é nascer de Deus e não do sangue, do capricho ou do próprio juízo.
O segredo da unidade
O dever, quando compreendido sobretudo na amplitude universal dos seus fins, condições e circunstâncias, conduz a uma multiplicidade extremamente variada de preocupações. Que vocação não se vê envolvida com ocupações de tipos diversos? E qual delas não exige, para ser desempenhada com o máximo de perfeição, como convém à piedade, a atenção a detalhes bastante complexos?
E todos esses aspectos merecem atenção; caso contrário o dever, mutilado nas suas partes, ficaria prejudicado no seu todo. Onde ficaria, então, a unidade de pensamento, de amor e de ação que devo conservar?
Ela é garantida pelo fato de que todos esses diferentes objetivos, condições e circunstâncias são, de acordo com a fórmula de vida, igualmente considerados, amados e buscados na vontade daquele que me governa. E essa vontade, que nele é totalmente una, pois é ele mesmo, vejo-a sempre semelhante a si mesma, em tudo igualmente grande e sempre igualmente perfeita, santa e adorável.
Vale notar como este capítulo fecha o Livro pelo mesmo argumento com que a Primeira Parte se encerrou. Lá, a unidade vinha de um só princípio, e dela nasciam a simplicidade e a força; aqui, a unidade vem de uma só vontade procurada em tudo, e é ela que impede a vida dispersa de se fragmentar em mil deveres avulsos.
Sem distinções
Disso devo concluir que, embora as exigências do dever sejam diferentes, não devo fazer nenhuma distinção de preferência ou de exclusão a partir dos meus gostos ou repugnâncias. Cabe ao senhor introduzir no serviço as distinções necessárias, e ao servo basta olhar para o senhor e não para si mesmo.
Que lhe importa se a vontade que o comanda se impõe em assuntos graves ou leves, em disposições que lhe agradam ou que o incomodam? Em qualquer caso, não se trata da mesma fonte, pela qual ele deve ansiar para nela dessedentar-se?
Portanto, quer essa vontade me envie ao trabalho ou à oração, quer me peça uma coisa honrosa ou humilhante, e seja qual for o meio pelo qual se manifeste, não devo inquietar-me: em meio a todas essas mudanças, eu sei que ele não muda, e é a ele e à sua vontade que me prendo, invariavelmente.
Meu Deus, com que frequência nos enganamos. Digo-vos, mais uma vez, que não se deve olhar para a condição exterior das ações, mas sim para o seu interior, isto é, se Deus o quer ou não o quer.
A palavra é de São Francisco de Sales, numa carta de 1606, e serve de régua para tudo o que este Livro ensinou.
Sem desvios
Segue uma conclusão prática para manter a unidade, e igualmente prática para assegurar a vida. Ela vem apoiada na repreensão de Isaías, que convém ler inteira, porque descreve gente devota e não gente negligente: buscam-me todos os dias e mostram interesse em conhecer os meus caminhos, como se fossem uma nação que pratica a justiça; pedem para ser justificados e mostram interesse em estar junto de Deus.
Ecce in die jejunii vestri invenitur voluntas vestra.
Eis que no dia do vosso jejum se encontra a vossa própria vontade.
E a conclusão que o capítulo tira disso é severa: se negligenciamos o dever, qualquer outra intenção ou ação, por melhor que seja, será ignorada e rejeitada por Deus.
Limitemo-nos, pois, ao dever, encerremo-nos nele como num santuário, onde comunguemos da ordem, da vontade e da intenção do Senhor, e onde recebemos as suas bênçãos.
E que não o deixemos por nenhum desvio de falsa generosidade nem de covarde infidelidade; tudo busquemos nele, e nada fora dele. Essa é a condição inicial da piedade ativa.
Os dois nomes dados ao desvio merecem ser guardados juntos, porque apanham as duas fugas contrárias. A falsa generosidade sai do dever por cima, inventando obras maiores; a covarde infidelidade sai por baixo, largando o que custa. As duas terminam fora do santuário.
O segredo da vida
Qui non ex sanguinibus, neque ex voluntate carnis, neque ex voluntate viri, sed ex Deo nati sunt.
Os que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
São João da Cruz comenta o versículo, e o comentário fecha o Livro. O poder de tornar-se filho de Deus e de transformar-se nele é dado apenas àqueles que não nasceram do sangue, isto é, das disposições naturais; nem da vontade da carne, quer dizer, do capricho da natureza; nem sequer da vontade do homem, e por esta entende-se toda maneira humana de julgar e de compreender apenas segundo a razão.
A nenhuma delas é concedido tornar-se verdadeiro filho de Deus: essa ventura está reservada aos que nasceram de Deus. Assim, as ações inspiradas pelas disposições dos sentidos, pelos caprichos da sensibilidade e pelos gostos da vontade humana não fazem parte do caminho, nem têm a vida da verdadeira piedade, pois esta nasce de Deus, conhece, ama e segue a sua vontade, e por esse caminho canta a grandeza da sua glória.
O Livro fecha recolhendo tudo à unidade, e a unidade não vem de simplificar a vida, e sim de buscar a mesma vontade em cada uma das suas ramificações. Daí as duas recusas: não escolher entre os deveres pelo gosto, porque distinguir é ofício de quem manda, e não sair do dever nem por generosidade inventada nem por covardia. E a última palavra é sobre a origem: a piedade que nasce do temperamento, do capricho ou do próprio juízo não é caminho; só a que nasce de Deus conhece, ama e segue a vontade dele.