A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro ICap. 10
Segunda Parte · O Caminho · Livro I · Capítulo 10 · Resumo

Conclusões práticas

Essência

O dever, tomado na amplitude dos seus fins e circunstâncias, produz uma multidão variadíssima de preocupações, e todas pedem atenção, sob pena de o dever ficar mutilado. Onde estaria então a unidade? Ela é garantida porque todos esses objetivos diversos são considerados, amados e buscados na vontade daquele que me governa, e essa vontade, sendo ele mesmo, é sempre igual a si, sempre grande, santa e adorável. Daí as três conclusões práticas: sem distinções, porque cabe ao senhor distinguir e ao servo olhar para ele e não para si; sem desvios, encerrando-se no dever como num santuário; e o segredo da vida, que é nascer de Deus e não do sangue, do capricho ou do próprio juízo.

o dever se ramifica em mil preocupações
e todas pedem atenção, sob pena de mutilá-lo
a unidade vem de tudo ser buscado na mesma vontade
daí não distinguir por gosto nem desviar-se
porque a piedade nasce de Deus, não de mim

O segredo da unidade

O dever, quando compreendido sobretudo na amplitude universal dos seus fins, condições e circunstâncias, conduz a uma multiplicidade extremamente variada de preocupações. Que vocação não se vê envolvida com ocupações de tipos diversos? E qual delas não exige, para ser desempenhada com o máximo de perfeição, como convém à piedade, a atenção a detalhes bastante complexos?

E todos esses aspectos merecem atenção; caso contrário o dever, mutilado nas suas partes, ficaria prejudicado no seu todo. Onde ficaria, então, a unidade de pensamento, de amor e de ação que devo conservar?

Onde está a unidadeo conceito central do capítulo

Ela é garantida pelo fato de que todos esses diferentes objetivos, condições e circunstâncias são, de acordo com a fórmula de vida, igualmente considerados, amados e buscados na vontade daquele que me governa. E essa vontade, que nele é totalmente una, pois é ele mesmo, vejo-a sempre semelhante a si mesma, em tudo igualmente grande e sempre igualmente perfeita, santa e adorável.

Nota bene

Vale notar como este capítulo fecha o Livro pelo mesmo argumento com que a Primeira Parte se encerrou. Lá, a unidade vinha de um só princípio, e dela nasciam a simplicidade e a força; aqui, a unidade vem de uma só vontade procurada em tudo, e é ela que impede a vida dispersa de se fragmentar em mil deveres avulsos.

Sem distinções

Disso devo concluir que, embora as exigências do dever sejam diferentes, não devo fazer nenhuma distinção de preferência ou de exclusão a partir dos meus gostos ou repugnâncias. Cabe ao senhor introduzir no serviço as distinções necessárias, e ao servo basta olhar para o senhor e não para si mesmo.

Que lhe importa se a vontade que o comanda se impõe em assuntos graves ou leves, em disposições que lhe agradam ou que o incomodam? Em qualquer caso, não se trata da mesma fonte, pela qual ele deve ansiar para nela dessedentar-se?

Uma distinção que fica e outra que cai
Ficaa diversidade de importância dos preceitos e conselhos, que indica o grau de importância da sua observância
Caiqualquer distinção na adoração da vontade soberana, que é a mesma no grave e no leve, no agradável e no penoso

Portanto, quer essa vontade me envie ao trabalho ou à oração, quer me peça uma coisa honrosa ou humilhante, e seja qual for o meio pelo qual se manifeste, não devo inquietar-me: em meio a todas essas mudanças, eu sei que ele não muda, e é a ele e à sua vontade que me prendo, invariavelmente.

Meu Deus, com que frequência nos enganamos. Digo-vos, mais uma vez, que não se deve olhar para a condição exterior das ações, mas sim para o seu interior, isto é, se Deus o quer ou não o quer.

A palavra é de São Francisco de Sales, numa carta de 1606, e serve de régua para tudo o que este Livro ensinou.

Sem desvios

Segue uma conclusão prática para manter a unidade, e igualmente prática para assegurar a vida. Ela vem apoiada na repreensão de Isaías, que convém ler inteira, porque descreve gente devota e não gente negligente: buscam-me todos os dias e mostram interesse em conhecer os meus caminhos, como se fossem uma nação que pratica a justiça; pedem para ser justificados e mostram interesse em estar junto de Deus.

Ecce in die jejunii vestri invenitur voluntas vestra.

Eis que no dia do vosso jejum se encontra a vossa própria vontade.

Isaías 58, 3

E a conclusão que o capítulo tira disso é severa: se negligenciamos o dever, qualquer outra intenção ou ação, por melhor que seja, será ignorada e rejeitada por Deus.

Limitemo-nos, pois, ao dever, encerremo-nos nele como num santuário, onde comunguemos da ordem, da vontade e da intenção do Senhor, e onde recebemos as suas bênçãos.

E que não o deixemos por nenhum desvio de falsa generosidade nem de covarde infidelidade; tudo busquemos nele, e nada fora dele. Essa é a condição inicial da piedade ativa.

Nota bene

Os dois nomes dados ao desvio merecem ser guardados juntos, porque apanham as duas fugas contrárias. A falsa generosidade sai do dever por cima, inventando obras maiores; a covarde infidelidade sai por baixo, largando o que custa. As duas terminam fora do santuário.

O segredo da vida

Qui non ex sanguinibus, neque ex voluntate carnis, neque ex voluntate viri, sed ex Deo nati sunt.

Os que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.

João 1, 13

São João da Cruz comenta o versículo, e o comentário fecha o Livro. O poder de tornar-se filho de Deus e de transformar-se nele é dado apenas àqueles que não nasceram do sangue, isto é, das disposições naturais; nem da vontade da carne, quer dizer, do capricho da natureza; nem sequer da vontade do homem, e por esta entende-se toda maneira humana de julgar e de compreender apenas segundo a razão.

As três origens que ficam de fora
O sangueas disposições naturais, o temperamento com que se nasce
A vontade da carneo capricho da natureza, o gosto do momento
A vontade do homemtodo modo humano de julgar e compreender apenas segundo a razão

A nenhuma delas é concedido tornar-se verdadeiro filho de Deus: essa ventura está reservada aos que nasceram de Deus. Assim, as ações inspiradas pelas disposições dos sentidos, pelos caprichos da sensibilidade e pelos gostos da vontade humana não fazem parte do caminho, nem têm a vida da verdadeira piedade, pois esta nasce de Deus, conhece, ama e segue a sua vontade, e por esse caminho canta a grandeza da sua glória.

Pontos-chave
O dever, tomado em toda a sua amplitude, produz uma multiplicidade variadíssima de preocupações.
Toda vocação envolve ocupações diversas, e cada uma pede atenção a detalhes complexos.
Se algum aspecto for descuidado, o dever fica mutilado nas partes e prejudicado no todo.
A unidade se garante porque tudo é considerado, amado e buscado na vontade daquele que me governa.
Essa vontade é totalmente una, porque é ele mesmo, e sempre igual a si, grande, santa e adorável.
Não devo distinguir por preferência ou exclusão a partir dos meus gostos ou repugnâncias.
Cabe ao senhor introduzir as distinções; ao servo basta olhar para o senhor e não para si.
A diversidade de importância indica o grau da observância, não o da adoração.
Trabalho ou oração, coisa honrosa ou humilhante: em meio às mudanças, ele não muda.
São Francisco de Sales: não olhar a condição exterior das ações, e sim se Deus as quer.
Isaías repreende gente devota: no dia do vosso jejum encontra-se a vossa própria vontade.
Se o dever é negligenciado, qualquer outra intenção, por melhor que seja, é rejeitada.
Encerrar-se no dever como num santuário, onde se comunga da ordem e da vontade do Senhor.
Não deixá-lo por desvio de falsa generosidade nem de covarde infidelidade.
Tudo buscar nele e nada fora dele: essa é a condição inicial da piedade ativa.
Os filhos de Deus não nascem do sangue, nem do capricho, nem do juízo humano, mas de Deus.
As ações inspiradas pelos sentidos e pelos gostos não fazem parte do caminho nem têm vida de piedade.
Termos
O segredo da unidade
buscar todos os deveres diversos na mesma vontade, que é una porque é o próprio Deus.
Sem distinções
não escolher entre os deveres por gosto ou repugnância; distinguir é ofício do senhor, não do servo.
O dever como santuário
o lugar em que se comunga da ordem, da vontade e da intenção do Senhor, e onde se recebem as suas bênçãos.
Falsa generosidade
o desvio que sai do dever por cima, inventando obras maiores que as devidas.
Covarde infidelidade
o desvio que sai do dever por baixo, largando o que custa.
Para reter

O Livro fecha recolhendo tudo à unidade, e a unidade não vem de simplificar a vida, e sim de buscar a mesma vontade em cada uma das suas ramificações. Daí as duas recusas: não escolher entre os deveres pelo gosto, porque distinguir é ofício de quem manda, e não sair do dever nem por generosidade inventada nem por covardia. E a última palavra é sobre a origem: a piedade que nasce do temperamento, do capricho ou do próprio juízo não é caminho; só a que nasce de Deus conhece, ama e segue a vontade dele.

Fonte · Segunda Parte, Livro I, capítulo 10
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