A Vida Interior Simplificada e Reconduzida ao seu Fundamento
PollienLivro ICap. 5
Primeira Parte · O Fim · Livro I · Capítulo 5

A superioridade do divino

A terceira das três razões
Essência

O divino não é só anterior, é superior: Deus tem o direito de ditar as regras, e a mim cabe servir; conformar-me à Sua vontade é conhecê-la, apegar-me e devotar-me a ela.

O divino é superior ao humano
Deus é o Senhor por direito de criação
o homem é o servo
conformar-me à Sua vontade: conhecer, apegar, devotar

Os direitos de Deus

O divino não é somente anterior ao humano, é também superior. É uma nova noção, que não repete a primeira: a anterioridade afirma os direitos de Deus a receber as minhas homenagens; a superioridade estabelece o seu direito de ditar as regras segundo as quais devo servi-lo. Jamais eu situaria os direitos de Deus alto demais, pois só a sua elevação pode elevar-me: quanto mais Deus dominar a minha vida, mais a atrairá a si.

Seus direitos resultam da criação

O direito de Deus reger o que criou é uma decorrência necessária do fato de criar. Quem planta uma árvore na sua propriedade tem pleno poder sobre a sua cultura e os seus frutos; e, no entanto, esse dono não fez a terra, nem a semente, nem deu à árvore a vida. Ainda assim, ninguém contesta os seus direitos de produtor. Se a razão reconhece essa legitimidade, quanto mais a soberania absoluta de Deus sobre o homem, que dele provém inteiramente, alma e corpo, faculdades e vida.

O Senhor e o servo

Por direito de criação, Deus é senhor absoluto, e não cessa de afirmá-lo nas Escrituras: Sou eu o Senhor. O Antigo Testamento é, ao longo de quarenta séculos, a reafirmação dos seus direitos desrespeitados. Se Deus é o Senhor, o homem é o servo; e Deus não abre mão de nenhum direito. Entre todas as criaturas, só o homem transgride a orientação do seu Autor; e as suas desgraças atestam que a glória dada ao Senhor é a única fonte de felicidade para o servo. Ele é chamado a ser um servidor livre, súdito voluntário, filho dedicado.

Na dependência absoluta

Em nenhuma criatura há coisa alguma que não esteja inteiramente nas mãos de Deus; nada, portanto, na minha vida escapa à direção d’Aquele que me possui. Ele tem direito aos meus frutos de glória, à direção do meu trabalho e à escolha dos meus métodos. Para poder conformar-me à sua vontade, preciso, portanto, de três passos:

Conformar-me à Sua vontade
1
Conhecê-lacomo fim a atingir, caminho a seguir e meios a usar
2
Apegar-me a elauma vez conhecida
3
Devotar-me a elauma vez apegado

Assim, Ele será o meu Senhor e eu o seu servo; e, se souber, como servo bom e fiel, seguir o Mestre, chegarei lá onde Ele se encontra e, depois de o ter servido, serei coroado de honra pelo seu Pai (João 12, 26).

Superioridade do divinoo conceito central do capítulo

O direito de Deus de reger o que criou e de ditar as regras do serviço: Ele é o Senhor por direito de criação, e a mim cabe servir.

Se Deus é o Senhor, o homem é o servo; e a glória dada ao Senhor é a única fonte de felicidade para o servo.

Pontos-chave
O divino é superior: Deus tem o direito de ditar as regras que devo servir.
Esse direito decorre da criação: como o dono da árvore, e muito mais.
Se Deus é o Senhor, o homem é o servo, e disso nasce a sua felicidade.
Conformar-me à Sua vontade: conhecê-la, apegar-me e devotar-me a ela.
Termos
Superioridade do divino
o direito de Deus de reger e de ditar as regras; a mim cabe servir.

Si quis mihi ministraverit, honorificabit eum Pater meus.

Se alguém me servir, meu Pai o honrará.

João 12, 26
Para reter

Conhecer a vontade de Deus, apegar-me a ela e devotar-me: assim Ele é o meu Senhor, e eu o seu servo.

Fonte · Primeira Parte, Livro I, capítulo 5
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