Seu andamento
Este é o capítulo que desenha o mapa inteiro da subida, e o princípio que o governa é um só: os dons de Deus não são Deus. Eles entram na alma como precursores, para preparar o lugar, e por isso não devem permanecer, sob pena de ocuparem o lugar que prepararam. Daí a comparação da agulha e do fio, e daí a lei do andamento: cada dom precisa ser aniquilado para dar lugar a um dom mais alto. O capítulo descreve três despojamentos exteriores, que arrancam a sensibilidade, a inteligência e a vontade das criaturas, e três interiores, que as arrancam de si mesmas até a morte mística. E fecha com a advertência que resume tudo: até os dons mais espirituais viram estorvo se eu me apegar a eles.
A agulha e o fio
O capítulo declara a sua fonte de saída, e é uma fonte obscura: diz seguir o ensinamento do Pe. Antônio do Santíssimo Sacramento, no seu Retiro de dez dias, e afirma não conhecer resumo mais profundo do assunto. O princípio de que parte é simples e cortante.
Só Deus é Deus. Os seus dons não são ele mesmo: são apenas os instrumentos das suas operações.
Os dons entram na alma e a penetram como precursores, para preparar o lugar que Deus vai ocupar. Não são feitos para permanecer, e sim para passar. São o meio pelo qual Deus entra, e se permanecerem na alma tomam o lugar de Deus.
Enquanto a agulha permanece no tecido, o fio não pode passar. A agulha atravessa o tecido apenas para arrastar o fio atrás de si. Assim os dons de Deus devem apenas atravessar a alma, para fazer Deus entrar nela.
Daí a lei do andamento, que vale para toda a subida: cada dom precisa ser aniquilado para dar lugar a um dom mais alto. E o capítulo encontra na própria boca do Senhor a formulação do princípio: é próprio do precursor desaparecer para que Deus cresça.
Si enim non abiero, Paraclitus non veniet ad vos.
Se eu não for, o Paráclito não virá a vós.
O tríplice despojamento exterior
A primeira metade da subida arranca as três potências das criaturas. Cada etapa tem duas fases, o dom que subjuga e a privação que o aniquila, e a privação sempre tem o mesmo motivo: impedir que a alma se apegue àquilo que não é Deus.
Os primeiros dons são consolações, destinadas a subjugar a parte inferior, a sensível, desapegando-a das criaturas e apegando-a a Deus. Obtido o resultado, as consolações desaparecem, para que a alma não se apegue a elas, porque elas não são Deus. Se se apega, todo o trabalho da vida divina para. É por isso que a aridez tem de vir: ela existe para aniquilar esse primeiro dom.
Cumprido o trabalho da aridez, Deus envia um dom mais alto: as luzes, destinadas a subjugar a inteligência, desapegando-a das vistas criadas e dando-lhe a vista de Deus. A alma recebe então vistas profundas sobre os mistérios da fé. Quando a inteligência está firmemente estabelecida na fé e desviada das criaturas, a luz se apaga e sobrevêm as trevas, que são um novo despojamento.
Às trevas sucedem grandes anseios e ardores ardentes, cuja missão é subjugar a vontade a Deus. Sob a ação deles a alma é devorada pelo anseio da glória de Deus, e concebe vastos desígnios pela salvação das almas e pela difusão da Igreja. Cessando de operar, esses ardores cedem lugar ao fastio e à impotência.
Terminado esse despojamento, Deus concede à alma uma potência de ação maior, uma grande facilidade de fazer o que antes apenas desejava. Só que ela poderia contentar-se com essa facilidade, deter-se nela e apegar-se a ela, e nisso há perigo. Então, sem tirar a potência, Deus tira a alegria dela: a alma não conserva alegria alguma nas suas obras, porque não tem calma nem paz.
O tríplice despojamento interior
Pelos dons já dados, Deus agiu sucessivamente sobre a sensibilidade, a inteligência e a vontade, desapegando-as das criaturas e apegando-as a si. Agora vai sacudi-las, para provar a solidez da obra, e escorá-la para completá-la. E a razão é esta: essas potências estão desapegadas das criaturas, mas ainda não estão desapegadas de si mesmas.
Traços profundos da visão, do amor e da busca de si mesmo à parte de Deus. A falsidade, a vaidade e a servidão desse egoísmo têm de desaparecer inteiramente, para que a piedade alcance o seu cumprimento supremo.
Deus começa agitando a parte inferior por tentações terríveis de impureza, de ira e de toda sorte de coisas. Tudo fica revolvido naquela região.
Depois vai mais longe: devasta a inteligência e a vontade por trevas, cansaço e pesos interiores. Não se encontra paz em parte alguma.
A obra de aniquilamento prossegue: Deus priva a alma da virtude ativa, isto é, daquela prontidão para agir que ela havia conservado ao longo das tempestades anteriores. Há então impotência total de agir, e resta à alma um só poder, o de sofrer e receber.
Esse poder de sofrer e de receber, a virtude passiva, também será tirado. A alma aniquilada e moída já não tem, por si e em si, a força de suportar nem de aceitar. Não pode nada, absolutamente nada: de si mesma não produz pensamento, nem sentimento, nem ação. Não lhe resta movimento humano algum, nem vida puramente natural. Isto é a morte mística, e tudo está consumado.
Nesse momento desapareceu todo estorvo à entrada de Deus, e ele entra e toma posse da alma pelo matrimônio místico, que realiza o estado de unidade. E o capítulo descreve esse estado de um modo que desfaz o mal-entendido da palavra passividade:
Nesse estado a alma não tem movimento senão o de Deus, e as suas faculdades estão livres tanto da tirania das criaturas quanto da tirania da própria independência. Ficam então plenamente livres e supremamente cheias de atividade, num só movimento, que é o da vontade de Deus. O termo da aniquilação não é a inércia: é a atividade máxima, com um motor só.
Onde isso se encaixa nos cinco graus
O capítulo faz então a ponte com o esquema dos cinco graus da piedade, estabelecido na Primeira Parte, e a ponte é deliberadamente aproximada.
| A operação de Deus | O grau em que costuma acontecer |
|---|---|
| As consolações | no começo da vida espiritual, geralmente nos dois primeiros graus, os da fuga dos pecados |
| As luzes | muitas vezes acompanham o terceiro grau |
| Os grandes anseios e a prontidão de ação | são dados no quarto |
| As demais operações | às vezes começam no quarto, mas em geral só ocorrem no quinto |
E o capítulo explica por que vale a pena olhar o percurso todo, até os cumes, mesmo estando longe deles. Por três motivos: para entrever a vida dos santos, para ver com mais clareza a distância que me separa deles, e para adquirir apetite pelo alimento substancial da renúncia, que é o que dá força para segui-los.
Os dons de Deus como estorvo
A última seção é a que o capítulo declara ser a mais importante de guardar, e ela é a aplicação prática de tudo o que veio antes.
Os próprios dons de Deus são estorvo à entrada dele em mim, se eu me apegar a eles.
É a rigidez do princípio fundamental da piedade: ver, amar e buscar Deus somente. Apegar-me a qualquer criatura à parte de Deus é desordem, e os dons, até os mais espirituais, até aqueles mais diretamente destinados a me fazer avançar para ele, tornam-se estorvo ao meu avanço se eu me apegar. E para que eu não me apegue, eles têm de ser aniquilados.
Daí sai também, com muita clareza, a distinção entre os dons que passam e a glorificação do Nome que permanece. E o capítulo fecha no versículo do Salmo que é o resumo de toda a doutrina.
Mihi autem adhaerere Deo bonum est; ponere in Domino Deo spem meam.
Para mim, o bem é aderir a Deus, e pôr no Senhor meu Deus a minha esperança.
A conclusão de método está na mesma seção e é decisiva para o Livro inteiro. Se são as operações de Deus as únicas que conduzem a alma àquela adesão que constitui a piedade, então é sobre essa obra de Deus que toda a esperança do meu adiantamento deve repousar, e não sobre a conta dos meus esforços.
Nota do editor sobre a fonte. A autoridade citada no início do capítulo, o Pe. Antônio do Santíssimo Sacramento e o seu Retiro de dez dias, não foi possível identificar com segurança: não aparece nos repertórios correntes de espiritualidade carmelitana. A doutrina exposta, porém, é a comum da escola mística sobre as noites e os despojamentos, e o próprio Pollien assume a exposição como sua.
O capítulo inteiro cabe numa lei e numa advertência. A lei é que cada dom deve ser aniquilado para que entre um dom mais alto, e é por isso que a aridez, as trevas e o fastio não são acidentes nem castigos: são a parte do andamento que desmonta o degrau para que se possa subir o seguinte. A advertência é a aplicação de hoje, e vale mesmo a quem está no começo: os dons mais espirituais, até os que existem para me aproximar de Deus, viram estorvo no momento em que eu me apego a eles. E há uma consolação escondida no fim, que é notar que o termo dessa aniquilação toda não é a inércia, e sim a atividade máxima com um único motor.