O prazer criado
Deus pôs prazer nas criaturas como se põe a gota de óleo na engrenagem: para facilitar o uso dos instrumentos. O prazer é satisfação instrumental, nunca repouso final: bem usado, faz santos; tomado como fim, inverte o plano de Deus.
A variedade dos prazeres nas coisas criadas
O capítulo fala de satisfações, e a palavra é escolhida de propósito: ela diz a natureza da necessidade que sinto quando busco, e do contentamento que experimento quando possuo. Preciso de satisfação, e por isso procuro; descanso quando estou satisfeito.
Ora, Deus não me deu apenas a satisfação essencialmente repousante, a que está no meu crescimento para Ele e na união com Ele. Esse gozo é final, faz parte do próprio fim da minha vida. A sua bondade preparou para mim outras satisfações, também elas animadoras, mas com lugar e função inteiramente diversos na minha existência: as satisfações nas criaturas. E elas são de uma variedade imensa, postas nas coisas pela mão do seu Autor:
Que quantidade de prazeres, e que variedade. O que são eles na mente de Deus que os fez, e qual é a sua função? É a pergunta do capítulo.
A gota de óleo
Para saber o que os prazeres são, basta olhar onde estão. Onde estão? Na criatura. E o que é a criatura? Instrumento, e nada mais que instrumento. Logo, o prazer que nela existe não é mais do que ela: é um prazer instrumental, uma qualidade dada por Deus aos instrumentos postos ao meu serviço. E por que existe essa qualidade? Para facilitar o uso dos instrumentos.
A ferramenta de corte perde o fio e precisa ser afiada na pedra; a roda que gira depressa se desgastaria sem a gota de óleo que suaviza o atrito e impede o aquecimento. Assim as minhas faculdades: cansam-se e gastam-se depressa, e também elas precisam da sua gota de óleo, da sua gota de água que refresca, da sua afiação na pedra. Precisam de ânimo e vigor, de fogo e força, de desenvoltura e vivacidade. Quando as rodas do meu espírito correm macias e azeitadas, os meus lábios cantam os louvores de Deus com admirável prontidão. Tal é a função dessa gota do óleo de alegria que Deus implantou nas suas criaturas, para o bem dos que amam a justiça e odeiam a iniquidade.
Qualidade posta por Deus nos instrumentos que me servem, para facilitar o seu uso: satisfação instrumental, meio e nunca fim.
Antes e depois do pecado
No desígnio original de Deus, toda criatura era somente instrumento, nenhuma era estorvo; e cada uma vinha provida da sua gotinha de óleo, da sua alegria, que facilitava o seu uso para Deus. Hoje o pecado perturbou essa bela ordem: encontro estorvos a cada passo e penas a cada volta do caminho. Deus não fez nem os estorvos nem as penas; são castigo do pecado. E Jesus Cristo, ao restaurar a ordem ferida, não removeu os estorvos nem as penas: deu a uns e outras uma utilidade, que será estudada mais adiante.
Apesar do pecado, resta uma multidão de prazeres; o óleo da alegria não falta às minhas faculdades. Onde quer que haja um dever a cumprir, encontro instrumentos para cumpri-lo, e nesses instrumentos, muitas vezes, um prazer que facilita o seu uso:
O prazer corresponde sempre a um dever, para ajudar o seu cumprimento; e será tanto mais intenso quanto mais importante for o dever.
O prazer é apenas instrumental
Esse prazer é, portanto, uma satisfação real, pois corresponde a uma necessidade das minhas faculdades e a sacia. Mas é satisfação instrumental, de que devo usar; não satisfação final, em que possa repousar. É meio, não fim. Quando digo que fui feito para a felicidade e que a felicidade é o fim segundo da minha existência, não se trata da felicidade que está nas coisas criadas: nelas não há para mim vestígio de fim; o meu fim está em Deus, a minha felicidade final está n’Ele; nas criaturas há somente meios.
Desconhecer o prazer das coisas criadas e viver para gozá-lo é uma terrível inversão do plano de Deus. E essa inversão acontece a toda hora: é exatamente aí que erro, sempre que saio da ordem estabelecida. Mais adiante se verá que essa é a única desordem. Procuro adormecer no gozo, em vez de usá-lo para facilitar o dever; e para deixar Deus sirvo-me justamente daquilo que devia tornar-me mais desperto em dar-lhe glória.
O prazer é um bem, mas só quando bem empregado. Se abuso dele, torna-se o pior dos males e a fonte de todos os meus desvios. Nenhum prazer é mau em si mesmo; só o mau uso o torna mau. Todo prazer que ajuda a facilitar o dever é são, fortificante, elevador; se corre contra o dever, torna-se pernicioso e rebaixador. De um lado, quanto embrutece; de outro, quantas virtudes sustenta. A mim cabe ver o uso que quero fazer dele.
Bem usado, o prazer faz santos; mal usado, leva à perdição.
Dilexisti justitiam, et odisti iniquitatem: propterea unxit te Deus, Deus tuus, oleo laetitiae.
Amaste a justiça e odiaste a iniquidade: por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria.
O prazer é a gota de óleo posta por Deus nos instrumentos: uso-o para facilitar o dever, e não adormeço nele.