As armadilhas de uma ética baseada em normas
Há duas éticas. Uma julga o ato pela conformidade a uma regra; a outra o julga pelo que aproxima ou afasta da excelência própria do homem. A primeira se apoia em regras que podem mudar e fala só à vontade; a segunda se apoia em princípios imutáveis e fala à vontade, ao intelecto e ao coração. O capítulo não nega valor às regras, e sim o lugar que lhes cabe: elas servem à virtude, e não o contrário. Lidos assim, os mandamentos deixam de ser mínimos a cumprir e passam a ser chamado à perfeição, e quem rejeita o mal por ser mau, e não por ser proibido, é que é livre.
As duas éticas
A distinção é exposta ponto a ponto, e vale guardá-la inteira porque o resto do capítulo decorre dela.
A primeira funda-se em regras: o ato é correto se conforma à regra. A segunda funda-se na natureza humana: bom é o que aproxima da plenitude das virtudes. Uma se apoia em regras que podem ser mudadas, a outra em princípios imutáveis. Uma é ética de obediência, a outra de fidelidade a si mesmo. A primeira dirige-se apenas à vontade; a segunda, à vontade, ao intelecto e ao coração.
Havard é explícito em não descartar as regras. O que ele recusa é que elas sejam o fundamento último: as regras devem estar a serviço da virtude, e essa é a ordem correta das coisas.
Os mandamentos lidos de dois modos
O exemplo que ele escolhe é o mais favorável à tese contrária, e por isso convincente. Tomados ao pé da letra, os Dez Mandamentos parecem o caso exemplar de ética de normas: proibições a que se obedece ou não. Lidos pela ética das virtudes, porém, o que ali se dá não é só a manifestação de uma vontade, e sim a explicação dos princípios da própria natureza humana, que o homem deveria conhecer pela razão e preferiu esquecer.
Muda também o que significa transgredi-los: não apenas cometer um pecado, mas violar a própria natureza e fazer mal a si mesmo. E muda o que eles pedem. Para a ética de normas são o mínimo a cumprir; para a ética das virtudes são chamado à excelência, convite a fazer mais. Havard lembra que é assim que Cristo os interpreta diante do jovem rico que os observava desde a infância, ao acrescentar a condição de querer ser perfeito, e que ele denuncia o ritualismo moral de quem se contenta com o mínimo.
A formulação que fecha o argumento vem de Robert Spaemann, e é a epígrafe do capítulo: a lei age de fora, e depois de nos haver ajudado a compreender o que é bom e o que é mau, e de haver gerado um hábito, a própria virtude torna-se a regra. Quem rejeita o mal não por ser proibido, mas por ser mau, esse é verdadeiramente livre.
O problema dos códigos de conduta
Daqui o capítulo desce ao terreno das organizações, e a crítica é concreta. Os códigos de ética profissional têm muito de regra e pouco de virtude: limitam-se às ações externas e visíveis no trabalho e visam à retidão profissional, não à perfeição humana. Isso é bom, diz Havard, e não basta, porque é inteiramente possível observar com cuidado todas as normas e estagnar como pessoa.
Há ainda um risco embutido no próprio nome. Falar em ética do trabalho pode sugerir que existem duas éticas, uma para o expediente e outra para as horas livres, e Havard descreve o tipo que daí resulta: quem é rigoroso no escritório e considera a vida privada assunto próprio, e se julga pessoa ética porque cumpre o código, comporta-se profissionalmente e paga as contas. Leva vida dupla. O líder, ao contrário, comporta-se do mesmo modo em toda parte, no trabalho, em família, entre amigos, no tempo livre e mesmo quando está só, e isso porque a ética das virtudes unifica a personalidade e torna a vida dupla impossível.
Sobre códigos corporativos, a observação é seca: se as pessoas de uma organização não praticam habitualmente as virtudes humanas, o código, por mais elevado que seja, não passa de fachada. E a retidão profissional que não se apoia em virtudes corre o risco de soar falsa, o que acaba minando a credibilidade da própria organização.
Por que as regras não bastam a um adulto
Havard concede que as regras funcionam bem para crianças, que precisam saber com precisão o que se espera delas. Mas assim que chega o uso da razão é preciso ensinar-lhes o porquê, isto é, a ligação entre a regra e a natureza humana. Para adultos, as regras deixam a desejar por duas razões: não satisfazem a inteligência de quem amadureceu e são estreitas demais para cobrir a variedade das situações reais. Quem tem prudência não fica perdido em água desconhecida.
Vem então a objeção mais forte do capítulo, e é histórica. A ética de normas tende a ser autorreferencial, porque raramente se pensa nas regras como ligadas à busca da perfeição moral. Isso as torna frágeis, muitas vezes ineficazes e às vezes perigosas, já que podem ser descartadas e trocadas por outro conjunto qualquer. Havard pergunta quantos quadros comunistas da Europa central e oriental se converteram em democratas liberais instantâneos depois da queda do Muro: trocar um conjunto de regras por outro foi coisa simples.
O diagnóstico se estende ao presente. O Ocidente é hoje, em larga medida, uma cultura de regras, e para muita gente as exigências da carreira funcionam como regra suprema e única referência de conduta. Quem busca a virtude, ao contrário, tendo assimilado princípios que não mudam, adquire uma solidez que o torna impermeável ao canto de sereia da cultura de massa.
O capítulo fecha com o efeito da mentalidade legalista sobre a inteligência, ilustrado por um episódio miúdo: um conhecido do autor foi impedido de usar a piscina de um clube por não cumprir a parte de musculação do plano que assinara, e a funcionária, incapaz de explicar a finalidade da exigência, só sabia repetir que era a regra. Quem vive assim, observa Havard, toma decisões, mas não delibera: não estuda o problema a fundo, não examina as circunstâncias concretas e não toma iniciativa. A virtude, ao contrário, é sempre original e criativa, porque não tem soluções prontas à mão.
Duas éticas: uma pergunta se o ato cabe na regra, a outra se ele aproxima do que o homem deve ser. A primeira fala só à vontade e se apoia em regras que mudam; por isso se troca um código por outro sem dificuldade, como se viu quando caiu o Muro. Regras não são inimigas: servem à virtude, e quando já ensinaram e viraram hábito, a virtude é que passa a ser a regra. Aí está a liberdade, em recusar o mal por ser mau e não por ser proibido. E o sinal de que alguém ficou só nas regras é simples: leva vida dupla, e decide sem nunca deliberar.