O perfil moral do líder
O fruto das virtudes é a maturidade, e ela se verifica em três frentes: no juízo, quando alguém reconhece as próprias forças e falhas e recusa modismos; nas emoções, quando os instintos passam a servir à missão; e na conduta, quando o que se pensa e sente aparece inteiro no que se faz, de modo que ninguém precisa decifrar a pessoa. O imaturo percorre o caminho inverso e desemboca em ceticismo ou, pior, em cinismo. Entre um e outro extremo está o realista, que mantém as aspirações mais altas sem deixar de reconhecer as próprias fraquezas, e é a ele, diz o capítulo, que se deve confiar o poder.
As três maturidades
Havard não define maturidade em abstrato: dá critérios verificáveis, um para cada frente. Vale ler como exame.
Os sinais que acompanham essas três são enumerados sem retórica: confiança em si e consistência, estabilidade, alegria e otimismo, naturalidade, senso de liberdade e de responsabilidade, paz interior. E o capítulo faz duas ressalvas que impedem confusões: a confiança do maduro não nasce do orgulho, nasce do conhecimento de si, e a consistência dele não é rigidez, porque no que toca à missão ele sabe quando ceder e quando firmar pé.
O retrato do imaturo
O contrário é desenhado com precisão desconfortável. Falta-lhe confiança porque lhe falta conhecimento de si, e ele não consegue olhar-se com objetividade. Daí exibir ora orgulho infantil, ora falsa humildade. Cede com facilidade demais e exige com facilidade demais. Avança de modo temerário e atende a todo capricho. Não distingue o importante do acessório, responde de modo superficial ou puramente emocional ao que é novo, foge de compromissos e teme responsabilidades. No fundo, diz Havard, teme a si mesmo, e por isso não encontra o próprio lugar.
Desse estado nasce o ceticismo, e a descrição da sua gênese é uma das páginas mais melancólicas do livro: muitos alimentaram na juventude ambições nobres, sonharam ser fortes, corajosos e capazes de servir, e como esses valores não estavam sustentados por virtudes, não venceram as próprias fraquezas; renunciaram então aos sonhos, passaram a duvidar da natureza humana e refugiaram-se no conforto material, na indiferença espiritual e na complacência consigo.
E há algo pior que o ceticismo, que é o cinismo, definido aqui como exaltação dos defeitos humanos. Quem se convence de que não alcançará os próprios objetivos morais acaba, cedo ou tarde, concluindo que o egoísmo não é vício, e sim virtude.
O realismo, e quem deve receber poder
Entre o cético e o cínico, o capítulo coloca o realista, e a definição que dá é das melhores do livro porque não pede perfeição.
A capacidade de manter as aspirações mais nobres da alma enquanto se continua assediado pelas próprias fraquezas. Não é ceder à fraqueza nem fingir que ela não existe: é transcendê-la pela prática das virtudes, sabendo que a realização não se dá de uma vez, e sim passo a passo.
O exemplo escolhido é bíblico e deliberadamente incômodo: Davi, profundamente falho, adúltero e responsável por uma morte, que se converteu, arrependeu-se e lutou para melhorar, tornando-se um condutor magnífico. O ponto não é minimizar a falta; é mostrar que realismo não é sinônimo de biografia limpa.
Daí a regra prática que encerra o capítulo, e que é a mais dura em matéria de escolha de pessoas: a céticos e cínicos não se deve dar poder sobre outros; o poder deve ser confiado aos realistas.
Aqui Havard inverte a máxima consagrada de que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Na leitura dele, o poder corrompe os imaturos e faz crescer os virtuosos, e os exemplos são gente que exerceu poder considerável sem se deformar, de Thomas More e Joana d'Arc a Suvórov e Stolypin. A máxima descreveria, portanto, não uma lei do poder, mas o que o poder revela de quem já era imaturo antes de recebê-lo.
Maturidade se mede em três lugares: no juízo que reconhece as próprias falhas sem chavões, nas emoções que passaram a servir à missão, e na conduta em que o que se pensa aparece inteiro, sem vida dupla. Quem não amadurece cai no ceticismo, que é sonho grande sem virtude que o sustente, e às vezes no cinismo, que já chama o egoísmo de virtude. No meio está o realista, que mantém as aspirações altas sabendo-se fraco. É a esse, e não ao cético nem ao cínico, que se confia poder sobre gente.