Liderança Virtuosa
HavardParte IVCap. 1
Parte IV · Liderança e realização pessoal · Capítulo 1

O perfil moral do líder

Essência

O fruto das virtudes é a maturidade, e ela se verifica em três frentes: no juízo, quando alguém reconhece as próprias forças e falhas e recusa modismos; nas emoções, quando os instintos passam a servir à missão; e na conduta, quando o que se pensa e sente aparece inteiro no que se faz, de modo que ninguém precisa decifrar a pessoa. O imaturo percorre o caminho inverso e desemboca em ceticismo ou, pior, em cinismo. Entre um e outro extremo está o realista, que mantém as aspirações mais altas sem deixar de reconhecer as próprias fraquezas, e é a ele, diz o capítulo, que se deve confiar o poder.

as virtudes se tornam hábito
o hábito amadurece o juízo, as emoções e a conduta
a pessoa deixa de ser dupla
e ganha confiança que vem do conhecer-se
e então o poder, em vez de corrompê-la, a faz crescer

As três maturidades

Havard não define maturidade em abstrato: dá critérios verificáveis, um para cada frente. Vale ler como exame.

Como se verifica a maturidade
1
De juízoquando se reconhecem as próprias forças e falhas, se assumem a missão e as obrigações sociais, e se recusam os modismos, as tendências e os chavões
2
Emocionalquando os instintos naturais estão sob governo e postos a serviço da missão
3
De condutaquando os pensamentos, os juízos e os sentimentos aparecem fielmente nas ações, sem vida dupla e sem que ninguém precise decifrar a pessoa

Os sinais que acompanham essas três são enumerados sem retórica: confiança em si e consistência, estabilidade, alegria e otimismo, naturalidade, senso de liberdade e de responsabilidade, paz interior. E o capítulo faz duas ressalvas que impedem confusões: a confiança do maduro não nasce do orgulho, nasce do conhecimento de si, e a consistência dele não é rigidez, porque no que toca à missão ele sabe quando ceder e quando firmar pé.

O retrato do imaturo

O contrário é desenhado com precisão desconfortável. Falta-lhe confiança porque lhe falta conhecimento de si, e ele não consegue olhar-se com objetividade. Daí exibir ora orgulho infantil, ora falsa humildade. Cede com facilidade demais e exige com facilidade demais. Avança de modo temerário e atende a todo capricho. Não distingue o importante do acessório, responde de modo superficial ou puramente emocional ao que é novo, foge de compromissos e teme responsabilidades. No fundo, diz Havard, teme a si mesmo, e por isso não encontra o próprio lugar.

Desse estado nasce o ceticismo, e a descrição da sua gênese é uma das páginas mais melancólicas do livro: muitos alimentaram na juventude ambições nobres, sonharam ser fortes, corajosos e capazes de servir, e como esses valores não estavam sustentados por virtudes, não venceram as próprias fraquezas; renunciaram então aos sonhos, passaram a duvidar da natureza humana e refugiaram-se no conforto material, na indiferença espiritual e na complacência consigo.

E há algo pior que o ceticismo, que é o cinismo, definido aqui como exaltação dos defeitos humanos. Quem se convence de que não alcançará os próprios objetivos morais acaba, cedo ou tarde, concluindo que o egoísmo não é vício, e sim virtude.

O realismo, e quem deve receber poder

Entre o cético e o cínico, o capítulo coloca o realista, e a definição que dá é das melhores do livro porque não pede perfeição.

Realismoo que se espera de quem conduz

A capacidade de manter as aspirações mais nobres da alma enquanto se continua assediado pelas próprias fraquezas. Não é ceder à fraqueza nem fingir que ela não existe: é transcendê-la pela prática das virtudes, sabendo que a realização não se dá de uma vez, e sim passo a passo.

O exemplo escolhido é bíblico e deliberadamente incômodo: Davi, profundamente falho, adúltero e responsável por uma morte, que se converteu, arrependeu-se e lutou para melhorar, tornando-se um condutor magnífico. O ponto não é minimizar a falta; é mostrar que realismo não é sinônimo de biografia limpa.

Daí a regra prática que encerra o capítulo, e que é a mais dura em matéria de escolha de pessoas: a céticos e cínicos não se deve dar poder sobre outros; o poder deve ser confiado aos realistas.

Nota bene

Aqui Havard inverte a máxima consagrada de que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Na leitura dele, o poder corrompe os imaturos e faz crescer os virtuosos, e os exemplos são gente que exerceu poder considerável sem se deformar, de Thomas More e Joana d'Arc a Suvórov e Stolypin. A máxima descreveria, portanto, não uma lei do poder, mas o que o poder revela de quem já era imaturo antes de recebê-lo.

Pontos-chave
A maturidade se verifica em três frentes: no juízo, nas emoções e na conduta.
Maturidade de conduta significa não haver vida dupla nem necessidade de decifrar alguém.
A confiança do maduro vem do conhecimento de si, não do orgulho; e a consistência dele não é rigidez.
Ao imaturo falta objetividade sobre si mesmo, e por isso oscila entre orgulho infantil e falsa humildade.
O ceticismo nasce de valores nobres que não foram sustentados por virtudes e não venceram as fraquezas.
Pior que o ceticismo é o cinismo, que acaba por chamar o egoísmo de virtude.
Realismo é manter as aspirações mais altas sem negar as próprias fraquezas, e transcendê-las pela virtude.
A céticos e cínicos não se dá poder sobre pessoas; o poder deve ir para os realistas.
O poder não corrompe sem mais: corrompe os imaturos e faz crescer os virtuosos.
Para reter

Maturidade se mede em três lugares: no juízo que reconhece as próprias falhas sem chavões, nas emoções que passaram a servir à missão, e na conduta em que o que se pensa aparece inteiro, sem vida dupla. Quem não amadurece cai no ceticismo, que é sonho grande sem virtude que o sustente, e às vezes no cinismo, que já chama o egoísmo de virtude. No meio está o realista, que mantém as aspirações altas sabendo-se fraco. É a esse, e não ao cético nem ao cínico, que se confia poder sobre gente.

Fonte · The Moral Profile of the Leader
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