Liderança Virtuosa
HavardParte IICap. 2
Parte II · Sabedoria prática e vontade firme · Capítulo 2

Fortaleza: manter o rumo

Essência

Coragem não é ausência de medo, e quem não sente medo em geral não está avaliando bem a realidade. É o sacrifício de si para realizar fins prudentes e justos, e por isso não se sustenta sozinha: prudência e justiça vêm antes dela, e sem elas o sacrifício pode servir a qualquer coisa. Daí a advertência de que agir conforme a consciência não basta, porque a consciência precisa ser educada. O núcleo da virtude não é o arrojo, é a resistência ao longo do tempo, que exige mais do que o gesto brilhante e revela a força mais funda do homem. A audácia completa o quadro: converter a visão em ato, correndo o risco de fazê-lo.

sente-se o medo, e ele não é suprimido
os fins são prudentes e justos, ou não há coragem
sacrifica-se algo de si por eles
e sustenta-se a posição ao longo do tempo
com a audácia de agir quando é hora

O que a coragem não é

O capítulo começa por negações, e a primeira desfaz o equívoco mais comum: coragem não é ausência de medo. Os melhores e mais bravos soldados sentem medo antes do combate. Havard invoca o exemplo que encerra a questão para um leitor cristão, o de Cristo no Horto, a tal ponto tomado de terror diante do suplício iminente que suou sangue.

Não sentir medo, longe de ser virtude, costuma ter duas origens, e ambas são defeituosas. Pode nascer da incapacidade de avaliar a realidade corretamente, e nesse caso é falha perigosa, não força. Ou pode nascer de uma ascese que suprime as emoções humanas, e aí vale a sentença que o capítulo formula sem rodeios: suprimir o medo é suprimir a vida.

A definição, e por que ela depende das outras virtudes

A definição positiva é curta e carrega uma condição que faz toda a diferença.

Coragemdefinição do capítulo

O sacrifício de si para a realização de fins prudentes e justos. O vínculo entre o sacrifício e a nobreza do fim é essencial: um terrorista sacrifica a própria vida e nem por isso é corajoso. Coragem não é a expressão de uma vontade qualquer, é a expressão de uma vontade boa.

Sem essa condição, a palavra se aplicaria a qualquer fanatismo. Por isso Havard insiste que só há coragem quando os objetivos e os meios são justos, quando não contradizem a dignidade da pessoa humana. E observa algo que interessa ao diagnóstico do capítulo anterior: há quem se fascine pela energia do mal, que é fruto de soberba, ódio e vingança, e não passa de violência. Os homens que ele já havia recusado como líderes eram implacáveis; implacável não é o mesmo que corajoso.

A razão de fundo vem de Pieper, e é a tese doutrinal do capítulo: nem a dificuldade nem o esforço produzem virtude, apenas o bem a produz. A fortaleza aponta portanto para algo anterior a ela mesma. Nas palavras que Havard recolhe, a prudência e a justiça precedem a fortaleza, e só quem é justo e prudente pode também ser bravo.

Segue-se daí uma advertência que corta pela raiz um lugar-comum. Não basta agir de acordo com a própria consciência, porque muitos terroristas agem de acordo com a consciência deles. A coragem começa antes: quando educo a minha consciência por uma busca sincera e sistemática da verdade.

A resistência é a essência

Pensamos em coragem e imaginamos arrojo, e não sem razão. Mas o capítulo desloca o centro: a coragem também pode ser monotonamente banal, e o que ela pede quase sempre é resistir ao longo do tempo. Resistir não é passividade, exige espírito forte e ativo, e é nela que se revela a força mais íntima e profunda do homem.

A imagem que Havard usa fixa a ideia: pode ser mais duro, e exigir mais coragem, o soldado permanecer imóvel numa trincheira fria e úmida do que avançar sob fogo com as bandeiras ao vento.

Duas consequências práticas. A primeira é que os líderes realizam os seus projetos pela dedicação ao trabalho e pelo cuidado com os detalhes, e não por palavras ou gestos deslumbrantes. A perseverança deles não é teimosia, é firmeza de princípio. A segunda é a fidelidade: quem é fiel foi provado pelo tempo, mantém as decisões de princípio ainda que as circunstâncias mudem radicalmente e não se deixa manipular pela novidade. São almas estáveis num mundo instável.

O retrato literário é Tatiana Lárina, do Eugênio Oneguin de Púchkin. Ela sabe cuidar de si, encarar a verdade e abraçar o próprio destino, e adapta-se a toda espécie de situação sem perder a substância. A vida da alta sociedade não deforma a sua natureza simples e profunda. O amor de juventude por Oneguin nunca se apaga, e quando anos depois ele lhe propõe deixar marido e filhos para segui-lo, ela não cede. Camponesa, apaixonada ou dama da corte, Tatiana é sempre a mesma.

No cotidiano isso se traduz em consistência de conduta. Não se age mal para depois justificar apontando a imoralidade geral, que é o conhecido argumento de que todo mundo faz. E ao chegar ao trabalho não se deixam os próprios valores na entrada, como quem deixa o chapéu na porta, na imagem de Escrivá que o capítulo recolhe.

Os que sustentaram a posição

Cinco retratos ilustram a resistência, e cada um mostra um preço diferente pago pela mesma virtude.

Cinco modos de manter o rumo
1
Thomas Morerecusou o juramento que reconhecia o rei como cabeça da nova igreja; quinze meses na Torre e a oposição do rei, dos bispos, dos amigos e da própria família, inclusive da filha Margaret, não o moveram
2
Pyotr Stolypinonze atentados não o afastaram da reforma agrária; horas depois da bomba que matou vinte e sete pessoas em sua casa e deixou a filha de catorze anos incapacitada para a vida, voltou ao gabinete para trabalhar; sabia que renunciar protegeria a família, e não quis ceder ao terror
3
Ronald Reaganfoi indiferente à direção do vento político, mudou de partido no momento menos vantajoso para si e falou contra o aborto apesar de advertido de que perderia nas pesquisas
4
Aleksandr Soljenítsinfoi bem tolerado enquanto criticava apenas Stálin; ao recusar também Lênin e a revolução, tornou-se alvo, e no exílio ocidental enfrentou escárnio por não prestar reverência ao materialismo corrente
5
Jérôme Lejeunedisse a verdade num congresso internacional sabendo o custo, e comentou à mulher que naquela tarde havia perdido o Nobel; veio a hostilidade, o fim dos convites e do financiamento, e o mais jovem professor de medicina da França ficou sem equipe, sem verba e sem sala
Nota bene

A epígrafe do capítulo é a última disposição de Stolypin, que pediu para ser sepultado onde viesse a ser morto. Foi assassinado em Kiev, em setembro de 1911, e ali está enterrado.

A difamação, e a alegria que resiste a ela

Havard dedica um trecho ao que se deve esperar, e a lista é deliberadamente concreta: Reagan foi chamado de ator decadente e de belicista; Escrivá, de herege, de comunista e de fascista; Schuman foi denunciado por compatriotas por estender a mão ao inimigo tradicional; João Paulo II foi acusado de favorecer indiretamente a morte de multidões por recusar o preservativo como resposta à AIDS; Soljenítsin foi tratado como teocrata intolerante. Quem conduz deve contar com isso, e sofrerá.

O que o capítulo acrescenta é o fruto inesperado dessa provação. A resistência nascida do enfrentamento produz paz de coração e o orgulho legítimo de ter combatido o bom combate. Thomas More, à espera da execução, impressionou os seus pela serenidade e pelo bom humor, e o biógrafo dele observa que aquilo não era feitio de temperamento: vinha da atenção habitual à consciência, que lhe permitia medir o que cada situação exigia sem tirar os olhos da eternidade.

Havard registra aqui um testemunho de primeira mão. Conheceu pessoalmente João Paulo II, Soljenítsin e Lejeune, e diz que os três, apesar de tudo o que sofreram, ou talvez por causa disso, irradiavam paz e alegria, sem ódio, amargura ou ressentimento. De Soljenítsin, encontrado aos oitenta e cinco anos e já com pouca saúde, guardou o bom ânimo e o entusiasmo contagiante pela vida.

A chave está numa frase de Lejeune que o capítulo apresenta quase como epitáfio: ele não combatia pessoas, combatia ideias falsas. Quem é capaz de condenar o pecado amando o pecador, e de recusar as ideias más abraçando quem as propaga, resiste aos ataques pessoais sem perder a paz.

Valentia e audácia

A última seção recupera o lado que a ênfase na resistência poderia fazer esquecer. Warren Bennis é citado para dizer que os líderes têm um viés para a ação: convertem propósito e visão em ato, porque não basta uma grande visão que inspire, ela precisa tornar-se real e produzir resultado. A fórmula com que ele os descreve vale ser guardada: sonhadores pragmáticos e idealistas práticos.

Os dois exemplos são de risco assumido contra o parecer geral. François Michelin, que pregava libertar a imaginação e ir aos limites para ver o que acontece, comprou em 1990 a segunda maior fabricante de pneus da América do Norte, contra a opinião da própria equipe; ficou sem conseguir pagar os empregados e recorreu a banqueiros amigos, que confiaram nele. Sem aquela decisão, dizem os especialistas, a empresa teria desaparecido. Herb Kelleher enfrentou os monopólios aéreos do Texas em 1971 para tornar o voo acessível a gente comum, ouviu de todos que era louco, e passou quatro anos preso a trinta e um processos judiciais e administrativos, dos quais venceu todos.

Havard fecha com uma observação sobre o modo como se julga o êxito alheio. Poucos avaliam a força criativa necessária para levantar algo do zero, e depois que a coisa funciona é fácil pensar que qualquer um teria feito. Mas os que conseguem raramente são qualquer um: costumam ser pessoas de caráter e talento dispostas a correr risco e a agir com decisão.

Nota bene

Nota do editor. A tese central do capítulo, de que a resistência e não o arrojo é a essência da coragem, é doutrina firme e não invenção do autor. Santo Tomás sustenta que o ato principal da fortaleza é sustentar e não atacar, e dá três razões: quem sustenta enfrenta um adversário mais forte, enfrenta o perigo já presente e não o apenas antecipado, e precisa manter-se firme ao longo do tempo, e não num instante (Suma Teológica, II-II, q. 123, a. 6, conferido na fonte). É exatamente a imagem da trincheira contra a carga de bandeiras ao vento. Lembre-se ainda que a fortaleza reside no apetite irascível, como se viu na abertura desta parte: por isso ela lida com o medo educando-o, e nunca suprimindo-o.

Pontos-chave
Coragem não é ausência de medo; os mais bravos sentem medo, e Cristo suou sangue diante do que o esperava.
A destemidez costuma vir de não saber avaliar a realidade, ou de uma ascese que suprime as emoções, e suprimir o medo é suprimir a vida.
Coragem é o sacrifício de si para fins prudentes e justos: o terrorista sacrifica-se e não é corajoso.
Nem a dificuldade nem o esforço produzem virtude, apenas o bem; por isso prudência e justiça precedem a fortaleza.
Agir conforme a consciência não basta, porque a consciência precisa antes ser educada pela busca da verdade.
A essência da coragem é a resistência ao longo do tempo, e resistir não é passividade.
Sustentar a posição na trincheira pode exigir mais do que a carga com bandeiras ao vento.
Perseverança não é teimosia, é firmeza de princípio; e quem é fiel não se deixa manipular pela novidade.
Não se deixam os valores na porta do trabalho como quem deixa o chapéu.
Quem conduz deve contar com a difamação, e a resistência a ela produz paz e o orgulho legítimo do bom combate.
Combater ideias falsas sem combater pessoas é o que permite sofrer ataque pessoal sem perder a paz.
A audácia completa a virtude: líderes convertem visão em ato, e são sonhadores pragmáticos.
Para reter

Coragem não é não sentir medo, é sacrificar-se por fins prudentes e justos, e por isso depende das virtudes que vêm antes dela: só quem é justo e prudente pode ser bravo. Agir segundo a consciência não basta, porque a consciência se educa. E o essencial dela não é o arrojo, é sustentar a posição no tempo, o que costuma custar mais do que o avanço brilhante. Espere ser difamado; a resistência a isso dá paz, sobretudo em quem aprendeu a combater ideias falsas sem combater pessoas.

Fonte · Courage: Staying the Course
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